<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></title><description><![CDATA[Blog & newsletter sobre emergência ambiental, valores humanos, espiritualidade, budismo etc]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CbDr!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c3f9552-adb3-4c7b-b5c6-7510a16a6587_397x397.png</url><title>Emersom Karma Kontchog</title><link>https://newsl.emersom.xyz</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 16 Apr 2026 20:56:17 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://newsl.emersom.xyz/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[circular@emersom.xyz]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[circular@emersom.xyz]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[circular@emersom.xyz]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[circular@emersom.xyz]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Círculos em expansão]]></title><description><![CDATA[Entrevista com Joanna Macy]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/circulos-em-expansao</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/circulos-em-expansao</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Sep 2025 21:08:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CbDr!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c3f9552-adb3-4c7b-b5c6-7510a16a6587_397x397.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Em todas as grandes religi&#245;es existem essas vozes, mas isso vem t&#227;o forte das ind&#237;genas: a Terra est&#225; <em>viva</em>, e a Terra &#233; <em>sagrada</em>. Isso segue, porque se a Terra &#233; tudo o que temos, ent&#227;o somos totalmente dependentes dela, e ent&#227;o ela &#233; sagrada para n&#243;s. Ent&#227;o, que acordemos neste tempo para o sagrado dentro do qual vivemos e pelo qual somos nutridas, o corpo vivo e sagrado da Terra e sua intelig&#234;ncia, a intelig&#234;ncia dela/dele. E n&#227;o apenas isso, mas sinto que neste tempo os perigos que enfrentamos est&#227;o criando uma enorme press&#227;o evolutiva sobre n&#243;s para acordarmos para nossa verdadeira natureza. Temos que acordar para isso ou estamos fritas, totalmente.</p><p><strong>&#8212;Joanna Macy</strong></p></blockquote><p>Em homenagem &#224; grande Joanna Macy, falecida em 19/07/2025, a Emergence Magazine republicou uma <a href="https://emergencemagazine.org/interview/widening-circles/">entrevista em seu podcast</a>, de 2018.</p><p>&#201; uma conversa profunda e significativa, de muita relev&#226;ncia hoje.</p><p>Tamb&#233;m homenageio publicando a tradu&#231;&#227;o da transcri&#231;&#227;o.</p><p>Saiba mais: <a href="https://trabalhoquereconecta.com.br/">Trabalho Que Reconecta</a>.</p><div><hr></div><h2><strong>C&#237;rculos em expans&#227;o</strong></h2><p><em>Uma entrevista com Joanna Macy</em></p><p><a href="https://emergencemagazine.org/interview/widening-circles/">07/02/2018</a></p><p><em>Nesta entrevista, a ecofil&#243;sofa budista e autora Joanna Macy fala sobre sua vida e obra. Desde seu ativismo antinuclear no final dos anos 1960 at&#233; seu trabalho com a ecologia profunda, Joanna expressa a necessidade de viver dentro de uma &#233;tica de cuidado com a Terra.</em></p><div><hr></div><p><strong>Joanna Macy:</strong> Eu gostaria de come&#231;ar apenas centrando por um minuto&#8230;</p><p><strong>Emergence Magazine:</strong> Claro.</p><p><strong>JM:</strong> &#8230;e uma ora&#231;&#227;o de gratid&#227;o.</p><p>Amada m&#227;e, pai, amante, Terra, nosso eu maior, nosso corpo maior, somos t&#227;o gratas por receber uma vida humana justamente agora, neste tempo de tanta ang&#250;stia, turbul&#234;ncia, em que tanto sufocamento, sofrimento e perda est&#227;o ocorrendo. E somos t&#227;o gratas por nos terem dado identidade humana e uma voz humana, para que possamos participar dos conselhos humanos. E ajuda-nos a estar cada vez mais plenamente conscientes das b&#234;n&#231;&#227;os de fazer parte da tua intelig&#234;ncia. Assim seja.</p><p>Ok.</p><p><strong>EM:</strong> Bem, eu queria te perguntar sobre sua juventude, porque ouvi voc&#234; falar sobre como teve algumas experi&#234;ncias m&#237;sticas muito impactantes na natureza quando estava na fazenda do seu av&#244;, no interior do estado de Nova York. E eu fiquei realmente curioso, no contexto desta conversa sobre como sua rela&#231;&#227;o com a Terra mudou e se aprofundou ao longo do tempo e como isso influenciou seu trabalho e as muitas maneiras pelas quais voc&#234; trouxe &#224; tona conversas e conex&#245;es com a Terra ao longo de cinquenta anos, acho, de trabalho em tantos modos e esferas. Aquele primeiro momento de ter uma conex&#227;o com a Terra e reconhecer algo vivo ali &#8212; como foram essas experi&#234;ncias para voc&#234;?</p><p><strong>JM:</strong> Eu tinha nove anos quando comecei a ir passar os ver&#245;es na fazenda do meu av&#244;. Era no oeste de Nova York, a algumas milhas ao norte do Erie Canal. E era muito simples: nos primeiros anos n&#227;o havia encanamento dentro de casa, um arado puxado por cavalo, alguns porcos, uma d&#250;zia de vacas, galinhas, cavalos e assim por diante. Ao mesmo tempo eu havia sido levada para morar na cidade de Nova York, e eu odiava aquilo: o barulho, a fuligem, morar no alto de um apartamento. N&#227;o t&#237;nhamos carro, ent&#227;o simplesmente esper&#225;vamos o fim da escola e &#237;amos pra l&#225; no ver&#227;o. E essa viagem da Grand Central no Empire Express, de trem at&#233; Buffalo &#8212; oito horas &#8212; era como nos aproximarmos das Portas do Para&#237;so, sair da pris&#227;o. Ent&#227;o o sil&#234;ncio daquelas paisagens, o solo &#8212; havia bastante t&#233;dio para uma menina da minha idade, que agora penso ser &#243;timo, porque eu vagava muito. E me deram um cavalo para cuidar. Ele foi dispensado de suas obriga&#231;&#245;es de trabalho de tra&#231;&#227;o, e eu podia mont&#225;-lo e cuidar dele. E imagens daquela &#233;poca &#8212; a maneira como o riacho fazia uma curva e todos os pequenos lagostins nele &#8212; ainda me v&#234;m. Ou entrar num canto do bosque e ver um dos nossos cavalos desaparecer nele. Isso &#233; como a mat&#233;ria das minhas forma&#231;&#245;es neurais no c&#233;rebro. Onde o sol ficava no ver&#227;o enquanto se movia para o sul, enquanto se punha. Eu sentia que havia muito tempo, e meu povo vindo de longe, e meu mundo cheio de seres irm&#227;os/irm&#227;s como gatinhos e cachorros e o bezerro que cri&#225;vamos.</p><p>A cada ano que passa eu sou mais grata por aquele tempo. E quando escrevi minhas mem&#243;rias, comecei exatamente ali. Comecei o livro de mem&#243;rias com um senso de quem e do que eu sou, que recebi sentada no meu lugar favorito, na &#225;rvore &#225;cer. E nunca foi mais que um ter&#231;o do ano no m&#225;ximo, frequentemente s&#243; um quarto do ano. Isso foi intenso o suficiente para me dar imagens e uma conex&#227;o de cora&#231;&#227;o, uma resson&#226;ncia sentida, uma resson&#226;ncia emocional, que tem sido um ponto de refer&#234;ncia para mim por&#8230; vamos ver, vejamos: eu tenho quase oitenta anos a mais do que a menina de nove anos que chegou pela primeira vez.</p><p><strong>EM:</strong> E como essas experi&#234;ncias, essa no&#231;&#227;o de afinidade ou amizade ou vivacidade que voc&#234; sentia, como isso se encaixou com sua cria&#231;&#227;o crist&#227; e com as no&#231;&#245;es de Deus e relacionamento ou&#8230;</p><p><strong>JM:</strong> Muito bem, porque, veja, &#233;ramos uma fam&#237;lia de protestantes bem liberais. Ent&#227;o eu amava os hinos de S&#227;o Francisco, e eu gostava do sentido de pertencimento. Mas houve, mais ou menos na &#233;poca em que eu deixei a fazenda, dicotomias na religi&#227;o entre carne e esp&#237;rito, e pessoas que diziam <em>extra Ecclesiam nulla salus</em> &#8212; nenhuma salva&#231;&#227;o fora da igreja. E n&#227;o que eu tivesse ouvido isso tanto, mas eu estava t&#227;o apaixonada pelo sagrado que decidi estudar teologia e as escrituras. E foi a&#237; que os problemas come&#231;aram para mim, e finalmente, na &#233;poca em que estava me formando na faculdade, tive que sair da igreja.</p><p><strong>EM:</strong> E nessa &#233;poca, como isso afetou sua rela&#231;&#227;o com a natureza, esse come&#231;o da&#8230;</p><p><strong>JM:</strong> Bem, a natureza foi o que restou.</p><p><strong>EM:</strong> E isso foi quando voc&#234; estava&#8230;</p><p><strong>JM:</strong> Depois de sair da faculdade.</p><p><strong>EM:</strong> Ent&#227;o voc&#234; estava na Fran&#231;a nessa &#233;poca?</p><p><strong>JM:</strong> Sim, na minha juventude adulta e no meu casamento com meu marido. Ele me levou para o mundo natural mais do que eu jamais tinha ido. E acamp&#225;vamos e rem&#225;vamos em canoas, eu estava nas montanhas, eu esquiava. E houve um imenso senso de exalta&#231;&#227;o diante daquela beleza. N&#243;s mal fal&#225;vamos, e &#233;ramos duas das pessoas mais tagarelas uma com a outra. Quando est&#225;vamos juntos, convers&#225;vamos sem parar, mas <em>n&#227;o</em> enquanto acamp&#225;vamos. Era como estar numa catedral, sabe. Voc&#234; n&#227;o come&#231;a uma conversa em voz alta dentro de uma catedral.</p><p><strong>EM:</strong> E isso foi em meados dos anos 60, naquela &#233;poca?</p><p><strong>JM:</strong> Bem, eu me casei no come&#231;o dos anos 50, em 53. Sim.</p><p><strong>EM:</strong> Ent&#227;o, isso foi antes de voc&#234; fazer seu trabalho no Peace Corps?</p><p><strong>JM:</strong> Isso mesmo.</p><p><strong>EM:</strong> Porque me impressionou ao saber sobre sua experi&#234;ncia l&#225; com os refugiados tibetanos. Parecia o momento certo, no lugar certo, depois do conjunto certo de experi&#234;ncias que abriram algo em voc&#234; que permitiu que estivesse presente para aquela experi&#234;ncia, pelo menos da minha perspectiva externa.</p><p><strong>JM:</strong> Eu sei, &#233; extraordin&#225;rio como fui afortunada com esse desenrolar.</p><p><strong>EM:</strong> E, imagino, naquele ponto voc&#234; ainda n&#227;o havia encontrado um caminho espiritual ou religioso fora de suas experi&#234;ncias na natureza que te tocaram e fizeram sil&#234;ncio em voc&#234; e no seu marido nessa grande catedral.</p><p><strong>JM:</strong> Era essa qualidade de presen&#231;a deles no mundo. Eu simplesmente nunca tinha conhecido pessoas assim. E eles haviam sa&#237;do, doentes, exaustos, com apenas as roupas nas costas e os objetos sagrados que carregaram, atrav&#233;s de per&#237;odos de cegueira-da-neve [Fotoceratite] pelas montanhas. Mas a qualidade de ser deles era ver tudo como se fosse pela primeira vez. E eu nem sei se conhecia essas palavras; mas quando atravessei naquele Losar, o Ano Novo Tibetano, numa manh&#227; pelo campo de ch&#225; onde eles estavam agachados, esses tibetanos do leste, e ouvi as longas trompas para seu puja matinal e vi os altos mastros com tecidos ondulando, e houve apenas: &#8220;Oh&#8230; sim&#8230; eu mere&#231;o receber isto.&#8221;</p><p><strong>EM:</strong> E isso foi depois do seu trabalho antinuclear?</p><p><strong>JM:</strong> Sim.</p><p><strong>EM:</strong> Mas seu trabalho antinuclear parece ter tido um papel muito influente na sua vida, e esse conceito de tempo que emergiu da&#237;.</p><p><strong>JM:</strong> Sim. Fui pega por um chamado, atrav&#233;s do trabalho de fim de semestre do meu filho quando ele era calouro. Foi quando ele voltou pra casa do seu primeiro ano em Tufts, Engenharia Ambiental, e me entregou dizendo: &#8220;M&#227;e, talvez voc&#234; se interesse por este trabalho que escrevi.&#8221; E eu disse: &#8220;Bem, tenho certeza de que vou adorar ler.&#8221; E quando o li, mudou minha vida, porque falava sobre a polui&#231;&#227;o das usinas nucleares &#8212; nem mesmo a radioatividade, apenas a polui&#231;&#227;o t&#233;rmica que estava mudando os cursos d&#8217;&#225;gua e as &#225;guas costeiras. Cada reator precisa de tanto fluxo de &#225;gua que contamina cada colherada dele.</p><p>Eu achei isso t&#227;o horr&#237;vel. E assim, antes do fim do ano, me juntei a ele em seu grupo de afinidade protestando a constru&#231;&#227;o de Seabrook, o reator de Seabrook, em New Hampshire. E ent&#227;o veio a avalanche. Eu estava apenas aprendendo tanto.</p><p><strong>EM:</strong> Como voc&#234; contou essa hist&#243;ria no passado, havia algo em voc&#234; que se sentia compelida a agir de uma maneira que talvez n&#227;o tivesse antes.</p><p><strong>JM:</strong> Sim, isso mesmo. N&#227;o havia d&#250;vida. O que me incomodava era que eu estava descobrindo toda essa informa&#231;&#227;o de como a Virginia Electric Power Company estava empilhando suas hastes de combust&#237;vel [fuel rods] gastas muito pr&#243;ximas umas das outras. Era ilegal e corria risco de uma a&#231;&#227;o cr&#237;tica, uma explos&#227;o. Ent&#227;o, eu fui para me juntar a eles, e fiz isso simplesmente porque estava t&#227;o desanimada. Ca&#237; em uma esp&#233;cie de abismo moral de questionar se a vida humana, mesmo formas de vida complexas, poderia continuar, que &#233;ramos t&#227;o est&#250;pidos. N&#227;o estava clinicamente deprimida, mas em desespero&#8230;</p><p><strong>EM:</strong> Mas voc&#234; estava sentindo o que era avassalador sobre aquela quest&#227;o em particular.</p><p><strong>JM:</strong> Sim. Mas, felizmente, fiquei muito interessada no porqu&#234; das pessoas conseguirem se desviar de querer at&#233; mesmo falar sobre os perigos que enfrentamos. Eu recebia muita informa&#231;&#227;o, mas as pessoas n&#227;o queriam ouvir quando eu levantava o assunto numa reuni&#227;o ou num jantar. As pessoas n&#227;o diziam: &#8220;Ah, fico t&#227;o feliz que voc&#234; trouxe o tema da energia nuclear.&#8221; E ent&#227;o pensei, por que estamos evitando o que precisamos saber? O que &#233; isso? E comecei a ler o psiquiatra Robert Jay Lifton e seu trabalho sobre o que chamou de &#8220;entorpecimento ps&#237;quico&#8221;. Ele havia feito um estudo dos efeitos do bombardeio nuclear sobre o povo de Hiroshima e Nagasaki. E ent&#227;o descobriu que o mesmo acontecia com as pessoas que fizeram a bomba. E n&#243;s tamb&#233;m n&#227;o quer&#237;amos olhar para isso. E ent&#227;o encontrei muitas coisas que n&#227;o queremos olhar. N&#227;o queremos olhar para as estat&#237;sticas sobre defeitos cong&#234;nitos e abortos em torno de instala&#231;&#245;es nucleares. Ent&#227;o isso me levou a experimentar. Por que n&#227;o queremos saber disso? &#201; porque n&#227;o &#233; patri&#243;tico? &#201; porque pensamos que somos loucas? &#201; porque temos medo da dor moral? O que &#233;? E essa curiosidade foi como um pequeno anzol que me puxou para fora do desespero horr&#237;vel. Ent&#227;o comecei a experimentar, porque tamb&#233;m eu dava aulas de medita&#231;&#227;o e usava isso. As pessoas poderiam reagir &#224; dor mental e moral? E como? Ou como podem falar sobre o que &#233; dif&#237;cil sentir? E isso foi incrivelmente revelador para mim. E a partir disso constru&#237; uma forma de trabalho em grupo que me levou at&#233; onde estou hoje.</p><p><strong>EM:</strong> Com o trabalho do luto? Isso foi o in&#237;cio do trabalho com luto?</p><p><strong>JM:</strong> N&#243;s chamamos de trabalho do desespero. E ent&#227;o escrevi um artigo sobre isso. Mas esse artigo, que falava sobre como lidar com o desespero, gerou centenas de cartas, mais do que jamais tinham entrado na revista. E embora eu n&#227;o tenha dito &#224;s pessoas &#8212; eu s&#243; disse como lid&#225;vamos, quando descobri o que o desespero realmente era &#8212;, era uma forma de cuidado profundo, que era uma boa not&#237;cia sobre n&#243;s; e n&#227;o ter medo disso; e as maneiras de viver com isso; e como voc&#234; pode transform&#225;-lo em a&#231;&#227;o. Cada pessoa &#8212; ningu&#233;m disse &#8220;voc&#234; n&#227;o nos contou como resolver todos os nossos problemas ou qualquer coisa, nem sequer uma&#8230; mas obrigado&#8221; &#8212;, elas disseram &#8220;obrigada, obrigada, por me mostrar que n&#227;o estou louca&#8221;.</p><p><strong>EM:</strong> Mmm.</p><p><strong>JM:</strong> E ent&#227;o fui convidada a fazer oficinas sobre esse artigo, e eu disse, bem, eu n&#227;o&#8230;</p><p><strong>EM:</strong> Voc&#234; queria ser professora universit&#225;ria.</p><p><strong>JM:</strong> Sim.</p><p><strong>EM:</strong> Mas a vida estava te puxando para outra dire&#231;&#227;o.</p><p><strong>JM:</strong> Sim. E isso pegou muito r&#225;pido, e havia pessoas se juntando a mim. Foi realmente&#8230; eu estava convidando-as a explorar e expressar seu desespero, sua indigna&#231;&#227;o, seu luto, seu medo, seu pavor. E havia muito disso, porque isso ainda era a Guerra Fria, e Ronald Reagan estava sendo eleito, e havia a corrida de armas nucleares. E eu nunca tinha visto tanta hilaridade, essa simples&#8230; essa liberta&#231;&#227;o, porque n&#243;s est&#225;vamos reconfigurando. N&#227;o est&#225;vamos patologizando nosso luto e desespero, que &#233; o que a cultura dominante faz com a ajuda da ind&#250;stria farmac&#234;utica.</p><p>Ent&#227;o isso &#233; normal. &#201; construtivo. Mas ent&#227;o o que notei, elas come&#231;aram a falar como se tivessem uma mudan&#231;a de identidade, de ser um indiv&#237;duo separado para ser a Terra. Muitas vezes n&#227;o era em tom de brincadeira, mas voc&#234; podia sentir que elas tinham uma expans&#227;o do sentido de sua pr&#243;pria autonomia e relev&#226;ncia pessoal. E assim pensei &#8220;bem, isso certamente demonstra paticca-samuppada&#8221;, que &#233; o termo budista para nossa interdepend&#234;ncia, nossa interexist&#234;ncia, nosso interser. Caramba, isso foi demonstrado, e eu nem esperava!</p><p>Mas ent&#227;o ouvi o termo &#8220;ecologia profunda&#8221; e o termo que vinha com ele, o &#8220;eu ecol&#243;gico&#8221;, que quando amadurecemos, uma matura&#231;&#227;o natural do humano &#233; em dire&#231;&#227;o a campos mais amplos de relev&#226;ncia e cuidado, e que seu interesse pr&#243;prio se expande de ser s&#243; o que te afeta dentro do seu saco de pele para aquilo que expande sua fam&#237;lia ou tribo ou pa&#237;s at&#233; o que acontece com a Terra. E eu vi isso. Eu disse &#8220;ah, as pessoas, estamos experimentando isso&#8221;. Al&#233;m disso, n&#227;o apenas o &#8220;eu ecol&#243;gico&#8221;, mas no budismo h&#225; o termo &#8220;bodisatva&#8221;, a pessoa de cora&#231;&#227;o sem limites, que nem sequer entrar&#225; e descansar&#225; no nirvana at&#233; que cada l&#226;mina de grama esteja iluminada, para que todos os seres sejam libertos do sofrimento.</p><p><strong>EM:</strong> Quero dizer, parece que foi uma converg&#234;ncia em sua vida dessas diferentes experi&#234;ncias que voc&#234; teve: os ensinamentos budistas que voc&#234; tinha estudado e praticado por, eu imagino, naquele ponto, quase vinte anos; a experi&#234;ncia do trabalho do tempo profundo de estar ciente dos impactos dos sistemas de energia nuclear que estavam sendo desenvolvidos; o luto que voc&#234; havia experimentado, e ent&#227;o tudo se reunindo num momento poderoso. O que isso fez em voc&#234;, pessoalmente, quando voc&#234; sentiu esses mundos convergindo?</p><p><strong>JM:</strong> Bem, muitas palavras: alegria, humildade, gratid&#227;o. Acho que gratid&#227;o acima de tudo. E, circunstancialmente, na nossa jornada planet&#225;ria, as coisas est&#227;o muito mais assustadoras e muito mais destrutivas agora. Mas eu ainda sustento, desde&#8230; quando? Trinta anos desde que a palavra &#8220;ecologia profunda&#8221; surgiu. Eu estava dando um nome ao que eu j&#225; vinha experimentando; porque eu n&#227;o planejei isso. Aqui estava isso. Eu chamei de uma mudan&#231;a de identidade.</p><p>As pessoas estavam agindo como se fossem mais que seu eu separado, mas n&#227;o de modo controlador, nem exibicionista, mas humildemente. E meu sentimento &#233;, aconte&#231;a o que acontecer &#8212; e isso me d&#225; lastro, Emmanuel &#8212; isso me d&#225; a sensa&#231;&#227;o de que eu tenho muito luto pelo que estamos fazendo ao nosso mundo e ao futuro. Mas sei ao mesmo tempo que aconte&#231;a o que acontecer, eu n&#227;o&#8230; n&#227;o h&#225; nada que possa acontecer que jamais me separe do corpo vivo da Terra. Nada. &#201; quem somos, e isso &#233; t&#227;o vasto. Minha mente s&#243; &#233; capaz de experimentar esse tanto do que existe para experimentar e estar aberta para. Ainda sou pequena em minha imagina&#231;&#227;o e poder intelectual para realmente absorver o que isso significa. Mas o pouco que ofereci deu um conforto tremendo. Nada poder&#225; jamais me arrancar do corpo vivo da Terra, aconte&#231;a o que acontecer, ou a todas n&#243;s. Ent&#227;o j&#225; estamos em casa</p><p><strong>EM:</strong> Esse trabalho tem sido muito poderoso para tantas pessoas nesses &#250;ltimos trinta anos, que, eu acho, sentiram o que voc&#234; estava descrevendo tamb&#233;m: o poder daquela perspectiva maior e daquela forma de ser em rela&#231;&#227;o. E ainda assim, como voc&#234; disse, os tempos s&#227;o dif&#237;ceis. E mesmo hoje estamos sentados provavelmente em um dos dias mais quentes j&#225; registrados na Bay Area em outubro, e inc&#234;ndios t&#234;m queimado na North Bay.</p><p><strong>JM:</strong> E eu estou consciente sobre o tipo de conforto, voc&#234; sabe, eu poderia ver algu&#233;m em Santa Rosa dizer: &#8220;Que tipo de conforto &#233; esse? Eu perdi tudo o que tinha, foi tudo reduzido a cinzas. N&#227;o me resta nada.&#8221; E eu senti aquele medo eu mesma ontem &#224; noite depois dos ventos enormes e do calor. Sinto tal assombro porque neste exato per&#237;odo &#8212; em que estamos metendo a gente num problema t&#227;o grande como humanos neste planeta, ou como vida neste planeta &#8212; houve dois grandes rios na jornada humana, espiritualidade e ci&#234;ncia. E nos nossos primeiros dias, elas eram entrela&#231;adas, mas foram horrivelmente separadas ao longo dos s&#233;culos, e temos sido despeda&#231;adas por isso. E agora, em nosso tempo, elas est&#227;o fluindo juntas, e a promessa disso &#233; enorme.</p><p>Em todas as grandes religi&#245;es existem essas vozes, mas isso vem t&#227;o forte das ind&#237;genas: a Terra est&#225; <em>viva</em>, e a Terra &#233; <em>sagrada</em>. Isso segue, porque se a Terra &#233; tudo o que temos, ent&#227;o somos totalmente dependentes dela, e ent&#227;o ela &#233; sagrada para n&#243;s. Ent&#227;o, que acordemos neste tempo para o sagrado dentro do qual vivemos e pelo qual somos nutridas, o corpo vivo e sagrado da Terra e sua intelig&#234;ncia, a intelig&#234;ncia dela/dele. E n&#227;o apenas isso, mas sinto que neste tempo os perigos que enfrentamos est&#227;o criando uma enorme press&#227;o evolutiva sobre n&#243;s para acordarmos para nossa verdadeira natureza. Temos que acordar para isso ou estamos fritas, totalmente.</p><p><strong>EM:</strong> Voc&#234; teve uma vida rica, para dizer o m&#237;nimo, e experi&#234;ncias que te levaram uma ap&#243;s outra a aprofundar essa explora&#231;&#227;o, aprofundar essa jornada, aprofundar essa conversa com a Terra, e acordar algo em voc&#234; que te levou a despertar algo nos outros. E seu trabalho fez isso de tantas maneiras por trinta anos. Mas eu fico sempre com essa pergunta agora, porque eu tamb&#233;m sinto essa possibilidade emergente e o clamor da Terra para ser reconhecida de novo e para ser ouvida e escutada. Mas tamb&#233;m me pergunto como as pessoas podem aprender a escutar de novo. &#192;s vezes pode levar uma vida inteira para aprender a ouvir. Acho que a grande pergunta &#233;: como aprendemos a escutar se n&#227;o temos tempo para fazer uma jornada como a sua ou entrar no trabalho que voc&#234; ofereceu a tantos de forma profunda? Quais s&#227;o as maneiras pelas quais podemos aprender a escutar?</p><p><strong>JM:</strong> Que maneira maravilhosa de come&#231;ar! De certo modo. Porque essa &#233; a pergunta: como aprendemos a escutar? Eu sinto&#8230; percebo uma fome e sede nas pessoas de estarem presentes, e n&#227;o tenho d&#250;vida em minha mente de que nossa presen&#231;a no mundo &#233; o maior presente que podemos dar. Curiosidade &#233; um caminho bonito, e podemos caminhar o caminho de como escutamos e como ajudamos umas &#224;s outras a escutar. &#192;s vezes vejo o caminho em que estamos como tendo um barranco de cada lado onde podemos cair. E um &#233; paralisia, simplesmente travar de medo. E o outro &#233; p&#226;nico, histeria social, partir para cima umas dos outras. E aprender a ouvir um pouco, para qualquer um dos lados, te chama de volta.</p><p><strong>EM:</strong> Ent&#227;o h&#225; um livro sentado &#224; sua esquerda que voc&#234; tem aqui desde que estamos conversando&#8230;</p><p><strong>JM:</strong> Ah, posso te dar o que pensei em algumas linhas? Voc&#234; pode colocar em uma pequena caixa.</p><p><strong>EM:</strong> O que pudermos fazer eu acho que seria ador&#225;vel, mas tenho uma pergunta antes de voc&#234; ler.</p><p><strong>JM:</strong> Sim?</p><p><strong>EM:</strong> Parece que sua rela&#231;&#227;o com Rilke tem sido uma grande parte da sua vida.</p><p><strong>JM:</strong> Oh, sim. E tem sido t&#227;o&#8230; Sim e, na verdade, quando encontrei sua poesia pela primeira vez foi nos anos 50, logo depois de eu ter sa&#237;do do cristianismo. Eu estava na Alemanha. Meu segundo filho havia acabado de nascer, o mesmo que depois escreveu sobre reatores nucleares. E era um dia de neve, e eu entrei numa livraria perto da universidade, e havia este pequeno &#8212; ah, eu o tenho aqui. Acho que tenho exatamente&#8230; ah, <em>da ist der doch! Das Stunden-Buch</em>. Esse &#233; o livro exato com a antiga caligrafia g&#243;tica.</p><p><strong>EM:</strong> Este &#233; o livro que voc&#234; encontrou na livraria nos anos 50? E este &#233; um livro que de alguma forma mudou sua vida?</p><p><strong>JM:</strong> Sim.</p><p><strong>EM:</strong> E ent&#227;o, o que aconteceu quando voc&#234; abriu essas p&#225;ginas?</p><p><strong>JM:</strong> Peguei-o, abri, e caiu aberto no segundo poema: &#8220;Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen/ die sich &#252;ber die Dinge ziehn.&#8221;</p><blockquote><p>Eu vivo minha vida em c&#237;rculos crescentes<br>que se estendem pelo mundo.<br>Posso nunca completar este &#250;ltimo,<br>mas me dou a ele.<br>Eu circulo em torno de Deus, aquela torre primordial.<br>Tenho circulado por milhares de anos<br>e ainda n&#227;o sei: sou eu um falc&#227;o,<br>uma tempestade, ou uma grande can&#231;&#227;o?</p></blockquote><p>Eu havia pensado que tinha falhado em meu caminho espiritual. Pensei que meu caminho espiritual fosse linear, que seria como o <em>Pilgrim&#8217;s Progress</em> atrav&#233;s de v&#225;rias etapas at&#233; a cidade celestial. [Mas] &#8220;viver minha vida em c&#237;rculos crescentes&#8221;? Eu disse: &#8220;Ah! Posso ter isso.&#8221;</p><p>Somos t&#227;o sortudas por estarmos vivas agora, n&#227;o &#233;?</p><p><strong>EM:</strong> De fato somos.</p><p><strong>JM:</strong> Neste momento, qualquer coisa que alguma vez soubemos amar, e tudo o que alguma vez aprendemos &#8212; como buscar coragem e conex&#227;o &#8212; pode servir.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Amar é convidar a vida]]></title><description><![CDATA[Minha gata, a Chinchila, me ajudou em um insight.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/amar-e-convidar-a-vida</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/amar-e-convidar-a-vida</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 May 2024 21:59:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CbDr!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c3f9552-adb3-4c7b-b5c6-7510a16a6587_397x397.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Minha gata, a Chinchila, me ajudou em um insight. Come&#231;ou bem singelo, mas acabou se desdobrando em algo maior.</p><p>Dizem que gatos s&#227;o interesseiros, que devolvem agrados porque na verdade querem comida ou algum benef&#237;cio como passear etc. N&#227;o sei, para quem ama gatos isso &#233; bem controverso. Mas a Chinchila definitivamente tem um esp&#237;rito de cachorro. Faz festa quando chego, &#8220;conversa&#8220;, me acompanha em caminhadas ou qualquer lugar que vou dentro ou fora de casa, e tudo mais.  </p><p>Hoje, ela me seguiu at&#233; o quarto e ficou l&#225;, aparentemente contente apenas fazendo companhia. Imaginei se estaria recaindo no comportamento que d&#225; m&#225; fama aos gatos: &#8220;Talvez esteja com fome, sendo manhosa para ver se ganha algum petisco.&#8221;  </p><p>Mas, mesmo se fosse isso, n&#227;o deixa de ser um afeto. Claro que alguns animais n&#227;o humanos gostam mais das pessoas tutoras porque, entre outras coisas, &#233; de onde vem a comida. A comida que, em ess&#234;ncia, &#233; o bem essencial para sua vida. Nada mais natural: o afeto ou amor dos bichanos se dirige a quem permite ou facilita sua vida &#8212; papel ocupado antes pela m&#227;e.  </p><p>O insight foi que isso n&#227;o se resume aos gatos, &#233; universal. Tudo o que amamos no fundo tamb&#233;m est&#225; ligado a isso: &#224; vida, seu florescimento e intensifica&#231;&#227;o.  </p><p>Obviamente &#233; assim em romances. Mas tamb&#233;m no amor por pessoas de nossa fam&#237;lia ou amizades. &#201; um sentimento que conecta e, por essa conex&#227;o, corre uma energia vital, t&#227;o forte que n&#227;o &#233; raro sentir que esse seria o grande prop&#243;sito da vida.  </p><p>Mesmo atividades como esportes ou hobbies geram esse avivamento. Naquele momento, o fluxo &#233; total, as coisas se ligam com sentido e prop&#243;sito. A pessoa tem a ineg&#225;vel certeza de estar muita viva. Por isso, se entrega com tanta dedica&#231;&#227;o. </p><p>Independente se h&#225; um vasto amor imparcial pelos seres ou um limitado afeto dirigido a uma &#250;nica pessoa, objeto ou atividade, o ponto em comum &#233; a sensa&#231;&#227;o de vida em estado puro, a conex&#227;o que permite experimentar plenitude na exist&#234;ncia, mesmo que seja tempor&#225;ria e limitada.  </p><p>O complicador &#233; que tamb&#233;m pode ser uma falsa plenitude. Por exemplo, antes de uma pessoa dependente se viciar, em algum momento, a experi&#234;ncia era deliciosamente aliviadora, satisfazia anseios profundos de sua exist&#234;ncia.  </p><p>&#201; por isso que n&#227;o estou propondo simplesmente uma entrega cega &#224;quilo que amamos ou imaginamos amar. Mas o ponto &#233; que essa busca se conecta diretamente com existir ou viver, com a pr&#243;pria vida. Isso leva a uma consequ&#234;ncia: o n&#237;vel de entendimento sobre o que &#233; a vida &#8212; tanto individual quanto o princ&#237;pio mais amplo &#8212;, &#233; proporcional &#224; qualidade, profundidade e extens&#227;o do amor envolvido no ato, e da plenitude resultante.  </p><p>Ent&#227;o o desafio &#233; aprimorar e expandir esse entendimento. Por exemplo, por que limitar o afeto e cuidado a pessoas pr&#243;ximas? Quando o c&#237;rculo expande, a pr&#243;pria vida come&#231;a a ganhar outra dimens&#227;o, mais completa.  </p><p>Pessoas que consideramos advers&#225;rias ou inimigas est&#227;o na mesma situa&#231;&#227;o. Seria f&#225;cil apontar para elas e dizer: &#8220;Por que elas n&#227;o melhoram a compreens&#227;o sobre o que &#233; a vida? Seria &#243;timo para elas, para suas v&#237;timas e para todo mundo.&#8221; Tamb&#233;m acho, mas a armadilha &#8212; em que tamb&#233;m caio frequentemente &#8212; &#233; ficar apontando assim sem perceber que tamb&#233;m tenho muitos pontos cegos para aperfei&#231;oar.  </p><p>A vida n&#227;o est&#225; limitada aqui neste corpo, nem no corpo de ningu&#233;m. Por mais &#243;bvio que isso soe, &#233; comum imaginar e agir como se tudo o que importasse fosse a minha vida, ou das minhas pessoas queridas, do meu time, lado ou at&#233; pa&#237;s.  </p><p>Mas a mesma vida pulsa em quem ignoro ou condeno, em seres n&#227;o humanos como plantas ou microrganismos, e at&#233; na atmosfera, vital para o equil&#237;brio. Quase todo caso daquele engano que mencionei &#8212; ficar preso em um tipo de satisfa&#231;&#227;o limitada que pode ser prejudicial n&#227;o apenas para si mas que tamb&#233;m espalha danos &#8212; pode ser rastreado de volta at&#233; uma compreens&#227;o incompleta do que &#233; a vida ou exist&#234;ncia.  </p><p>A vida &#233; interconectada, imparcial, descentralizada, totalmente disseminada, se expressando em um princ&#237;pio b&#225;sico universal: florescer e ser plena. Mas, dependendo de qual for a compreens&#227;o do &#8220;organismo hospedeiro&#8221;, essa express&#227;o pode redundar em danos.  </p><p>Consigo escutar uma obje&#231;&#227;o a todo esse argumento: &#8220;Voc&#234; est&#225; dizendo que a solu&#231;&#227;o dos problemas se resume a entender melhor a vida e, ent&#227;o, amar?&#8221;  </p><p>Absolutamente n&#227;o. A policrise que vivemos e que se agrava sistematicamente exige pol&#237;ticas emergenciais e engajamento ativo.  </p><p>Entretanto, todas as crises podem ser tra&#231;adas de volta at&#233; uma vis&#227;o de mundo que d&#225; carta branca para as causas dos problemas, como concentra&#231;&#227;o de renda descomunal, explora&#231;&#227;o, supremacismos dos mais variados tipos etc. Por exemplo, h&#225; uma ideia de que povos nativos, florestas ou o sistema clim&#225;tico t&#234;m menos valor do que o lucro de grandes empresas. Essa ideia s&#243; &#233; poss&#237;vel com base em uma compreens&#227;o completamente distorcida sobre o que &#233; a natureza ou vida.  </p><p>Ou ent&#227;o, &#233; comum imaginar que seria invi&#225;vel mudar completamente o sistema de produ&#231;&#227;o e consumo atual devido &#224;s consequ&#234;ncias para as empresas, pol&#237;ticos e tudo mais &#8212; isso &#233; algo inconceb&#237;vel no imagin&#225;rio da sociedade. A incapacidade de sequer imaginar tal transforma&#231;&#227;o tamb&#233;m vem de uma vis&#227;o de mundo que considera a manuten&#231;&#227;o do atual sistema pol&#237;tico e econ&#244;mico como mais importante do que todo o resto; e todo esse resto acaba sendo as condi&#231;&#245;es apropriadas de vida para a maioria absoluta dos seres e pessoas.  </p><p>Imagine uma sociedade em que predomine uma compreens&#227;o da natureza, ou vida, em acordo com as ci&#234;ncias da ecologia, f&#237;sica, climatologia e com princ&#237;pios &#233;ticos b&#225;sicos. A vida viria em primeiro lugar. E isso n&#227;o significaria, por exemplo, exterminar bilion&#225;rios &#8212; eles teriam apenas que ser um pouco menos ricos, se contentando com a n&#227;o multiplica&#231;&#227;o fren&#233;tica de seu patrim&#244;nio &#224;s custas de todo o mundo.  </p><p>Ent&#227;o, no final, sim, mudar o modo de enxergar a natureza, o mundo, seres e a si est&#225; na base do problema. &#201; uma transi&#231;&#227;o cultural que precisa ser impulsionada e apoiada de todas as maneiras poss&#237;veis.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que plantas dizem sobre nós]]></title><description><![CDATA[Segue abaixo um artigo/reportagem excelente (em tradu&#231;&#227;o autom&#225;tica, mas bem revisada) sobre como plantas s&#227;o muito mais do que imaginamos.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/o-que-as-plantas-estao-dizendo-sobre</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/o-que-as-plantas-estao-dizendo-sobre</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Fri, 13 Oct 2023 19:46:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Segue abaixo um artigo/reportagem excelente (em tradu&#231;&#227;o autom&#225;tica, mas bem revisada) sobre como plantas s&#227;o muito mais do que imaginamos.</p><p><a href="https://leiaisso.net/pa6az/">Publicado originalmente</a> na revista de divulga&#231;&#227;o cient&#237;fica <a href="https://nautil.us/">Nautilus</a>.</p><div><hr></div><h3>O que plantas est&#227;o falando sobre n&#243;s</h3><p><strong>Amanda Gefter </strong><em>07/03/2023 <br>(25 minutos de leitura)</em></p><p>Nunca gostei de plantas dom&#233;sticas, at&#233; que comprei uma por impulso &#8212; uma planta de ora&#231;&#227;o, como era chamada; uma coisa exuberante e frondosa com manchas verdes e costelas de veias vermelhas brilhantes. Na noite em que a trouxe para casa, ouvi um farfalhar em meu quarto. Alguma coisa havia corrido? Um rato? Tr&#234;s noites agitadas se passaram antes que eu percebesse o que estava acontecendo: a planta estava se <em>movendo</em>. Durante o dia, suas folhas ficavam planas, tomando sol mas, &#224; noite, elas se aglomeravam umas sobre as outras em p&#233;, com os caules levantando continuamente enquanto as folhas mudavam para a vertical, como m&#227;os em ora&#231;&#227;o.</p><p>"Quem diria que as plantas fazem coisas?", maravilhei-me. De repente, plantas pareciam mais interessantes. Quando a pandemia chegou, trouxe mais plantas para casa, s&#243; para dar mais vida ao lugar, e depois vieram mais, e mais ainda, at&#233; que a propor&#231;&#227;o de plantas em rela&#231;&#227;o &#224; superf&#237;cie da casa beirou o transtorno. Andando pelo meu apartamento, me preocupava se as plantas estavam recebendo &#225;gua suficiente, ou &#225;gua demais, ou o tipo certo de luz &#8212; ou, no caso de uma planta carn&#237;vora gigante pendurada no teto, se eu estava deixando peixe como comida suficiente em suas armadilhas. Mas o que nunca me ocorreu, nem mesmo uma vez, foi imaginar o que as plantas estavam pensando.</p><blockquote><p><em><strong>Para entender como mentes humanas funcionam, ele come&#231;ou com as plantas.</strong></em></p></blockquote><p>Eu era, de acordo com Paco Calvo, culpada de "cegueira vegetal". Calvo, que dirige o Laborat&#243;rio de Intelig&#234;ncia M&#237;nima da Universidade de M&#250;rcia, na Espanha, onde estuda o comportamento das plantas, diz que ser cega em rela&#231;&#227;o &#224;s plantas &#233; n&#227;o conseguir v&#234;-las como elas realmente s&#227;o: organismos cognitivos dotados de mem&#243;rias, percep&#231;&#245;es e sensa&#231;&#245;es, capazes de aprender com o passado e antecipar o futuro, capazes de sentir e vivenciar o mundo.</p><p>&#201; f&#225;cil rejeitar essas afirma&#231;&#245;es porque elas v&#227;o contra a nossa principal teoria da ci&#234;ncia cognitiva. Essa teoria &#233; conhecida por nomes como "cognitivismo", "computacionalismo" ou "teoria representacional da mente". Ela diz, em resumo, que a mente est&#225; na cabe&#231;a. A cogni&#231;&#227;o se resume aos disparos dos neur&#244;nios em nossos c&#233;rebros.</p><p>E plantas n&#227;o t&#234;m c&#233;rebro.</p><p>"Quando abro uma planta, onde poderia estar a intelig&#234;ncia?", diz Calvo. "Isso &#233; enquadrar o problema a partir da perspectiva errada. Talvez n&#227;o seja assim tamb&#233;m que nossa intelig&#234;ncia funcione. Talvez ela n&#227;o esteja em nossas cabe&#231;as. Se as coisas que as plantas fazem merecem o r&#243;tulo de 'cognitivas', ent&#227;o que seja assim. Vamos repensar toda a nossa estrutura te&#243;rica".</p><p>Calvo tamb&#233;m n&#227;o gostava de plantas. N&#227;o no in&#237;cio. Como fil&#243;sofo, ele estava ocupado tentando entender as mentes humanas. Quando come&#231;ou a estudar ci&#234;ncia cognitiva na d&#233;cada de 1990, a vis&#227;o dominante era a do c&#233;rebro como uma esp&#233;cie de computador. Assim como os computadores representam dados em transistores, que podem estar nos estados "ligado" ou "desligado", correspondendo a zeros e uns, acreditava-se que os c&#233;rebros criavam representa&#231;&#245;es de dados com os estados de seus neur&#244;nios, que poderiam estar "ligados" ou "desligados", dependendo se disparassem. Computadores manipulam suas representa&#231;&#245;es de acordo com regras l&#243;gicas, ou algoritmos, e acreditava-se que c&#233;rebros, por analogia, faziam o mesmo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p>Mas Calvo n&#227;o estava convencido. Computadores s&#227;o bons em l&#243;gica, em realizar c&#225;lculos longos e precisos &#8212; n&#227;o exatamente a habilidade mais brilhante da humanidade. Seres humanos s&#227;o bons em outra coisa: perceber padr&#245;es, intuir, funcionar diante da ambiguidade, do erro e do barulho. Embora o racioc&#237;nio de um computador seja t&#227;o bom quanto os dados que voc&#234; fornece a ele, um ser humano pode intuir muito a partir de apenas algumas dicas vagas &#8212; uma habilidade que certamente ajudou na savana quando t&#237;nhamos que reconhecer um tigre escondido nos arbustos a partir de apenas algumas listras descont&#237;nuas. "Meu palpite era que havia algo muito errado, algo profundamente distorcido sobre a pr&#243;pria ideia de que a cogni&#231;&#227;o estava relacionada &#224; manipula&#231;&#227;o de s&#237;mbolos ou &#224; execu&#231;&#227;o de regras", diz Calvo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp" width="728" height="485.94" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:false,&quot;imageSize&quot;:&quot;normal&quot;,&quot;height&quot;:534,&quot;width&quot;:800,&quot;resizeWidth&quot;:728,&quot;bytes&quot;:50464,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uLMh!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d4d34f4-4e30-4f84-9bf9-3bc0cfb6e1d3_800x534.webp 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Sussurrador em plantas: Paco Calvo j&#225; estudou intelig&#234;ncia artificial para determinar se ela poderia ajudar a desvendar os segredos da cogni&#231;&#227;o. Decidiu que n&#227;o poderia. Plantas eram a chave. Imagem: Universidad de Murcia.</figcaption></figure></div><p>Calvo foi para a Universidade da Calif&#243;rnia em San Diego para trabalhar com redes neurais artificiais. Em vez de lidar com s&#237;mbolos e algoritmos, redes neurais representam dados em grandes teias de associa&#231;&#245;es, em que um d&#237;gito errado n&#227;o importa, desde que mais deles estejam certos e, a partir de algumas pistas esbo&#231;adas &#8212; <em>lista, ataque, cor laranja, olho</em> &#8212; a rede pode criar um palpite bem decente &#8212; <em>tigre!</em></p><p>Redes neurais artificiais levaram a grandes avan&#231;os no aprendizado de m&#225;quina e no processamento big data mas, para Calvo, elas ainda pareciam muito distantes da intelig&#234;ncia viva. Programadores treinam as redes neurais, dizendo-lhes quando est&#227;o certas e quando est&#227;o erradas, enquanto sistemas vivos descobrem coisas por si mesmos, e com pequenas quantidades de dados iniciais. Um computador precisa ver, digamos, um milh&#227;o de fotos de gatos antes de reconhecer um e, mesmo assim, tudo o que &#233; necess&#225;rio para fazer o algoritmo trope&#231;ar &#233; uma sombra. Enquanto isso, voc&#234; mostra a um ser humano de dois anos de idade <em>um</em> gato, joga todas as sombras que quiser, e a crian&#231;a reconhecer&#225; esse gatinho.</p><p>"Sistemas artificiais nos d&#227;o boas met&#225;foras", diz Calvo. "Mas o que podemos modelar com sistemas artificiais n&#227;o &#233; cogni&#231;&#227;o genu&#237;na. Os sistemas biol&#243;gicos est&#227;o fazendo algo totalmente diferente."</p><p>Calvo estava determinado a descobrir o que era isso, para chegar &#224; ess&#234;ncia de como sistemas biol&#243;gicos reais percebem, pensam, imaginam e aprendem. Humanos compartilham uma longa hist&#243;ria evolutiva com outras formas de vida, outras formas de mente, ent&#227;o por que n&#227;o come&#231;ar com sistemas vivos mais b&#225;sicos e trabalhar de baixo para cima? "Se voc&#234; estudar sistemas que parecem muito diferentes e ainda assim encontrar semelhan&#231;as", diz Calvo, "talvez voc&#234; possa identificar o que realmente est&#225; em jogo".</p><p>Assim, Calvo trocou as redes neurais por jardinagem. Para entender como mentes humanas funcionam, ele come&#231;aria com plantas.</p><p>Isso se revelou verdadeiro: as plantas fazem coisas.</p><p>Para come&#231;ar, elas podem sentir o ambiente ao redor. Plantas t&#234;m fotorreceptores que respondem a diferentes comprimentos de onda de luz, o que lhes permite diferenciar n&#227;o apenas o brilho, mas tamb&#233;m a cor. Pequenos gr&#227;os de amido em organelas chamadas amiloplastos se deslocam em resposta &#224; gravidade, de modo que as plantas sabem qual &#233; o caminho para cima. Receptores qu&#237;micos detectam mol&#233;culas de odor; os mecanorreceptores respondem ao toque; o estresse e a tens&#227;o de c&#233;lulas espec&#237;ficas acompanham a forma em constante mudan&#231;a da pr&#243;pria planta, enquanto a deforma&#231;&#227;o de outras monitora for&#231;as externas, como o vento. Plantas podem sentir a umidade, os nutrientes, a concorr&#234;ncia, os predadores, os microrganismos, os campos magn&#233;ticos, o sal e a temperatura, e podem acompanhar como todos esses fatores est&#227;o mudando ao longo do tempo. Elas observam tend&#234;ncias significativas &#8212; o solo est&#225; se esgotando? O teor de sal est&#225; aumentando? &#8212; e, em seguida, alteram seu crescimento e comportamento por meio da express&#227;o g&#234;nica para compensar.</p><blockquote><p><em><strong>Plantas podem diferenciar entre si e outro, entre estranhos e parentes.</strong></em></p></blockquote><p>A capacidade das plantas de sentir e responder ao ambiente que as cerca leva ao que parece ser um comportamento inteligente. Suas ra&#237;zes podem evitar obst&#225;culos. Elas podem diferenciar entre si e outro, entre estranhos e parentes. Se uma planta se encontrar em uma multid&#227;o, ela investir&#225; recursos no crescimento vertical para permanecer na luz; se os nutrientes estiverem em decl&#237;nio, ela optar&#225; pela expans&#227;o das ra&#237;zes. Folhas comidas por insetos enviam sinais eletroqu&#237;micos para <a href="https://www.science.org/content/article/plants-communicate-distress-using-their-own-kind-nervous-system">avisar o restante da folhagem</a>,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> e reagem mais r&#225;pido a amea&#231;as se j&#225; as tiverem encontrado no passado. Plantas conversam entre si e com outras esp&#233;cies. Elas liberam compostos org&#226;nicos vol&#225;teis com um dicion&#225;rio, segundo Calvo, de mais de 1,7 mil "palavras" &#8212; o que lhes permite gritar coisas que um ser humano poderia traduzir como "lagarta chegando" ou "*$@#, cortador de grama!".</p><p>Seu comportamento n&#227;o &#233; meramente reativo &#8212; plantas tamb&#233;m se antecipam. Elas podem virar suas folhas na dire&#231;&#227;o do sol antes que ele nas&#231;a e rastrear com precis&#227;o sua localiza&#231;&#227;o no c&#233;u, mesmo quando s&#227;o mantidas no escuro. Elas podem prever, com base na experi&#234;ncia anterior, quando &#233; mais prov&#225;vel que polinizadores apare&#231;am e programar sua produ&#231;&#227;o de p&#243;len de acordo. A forma de uma planta &#233; um registro de sua hist&#243;ria. Suas c&#233;lulas &#8212; moldadas pela experi&#234;ncia &#8212; se lembram.</p><p>Conversar? Antecipar? Lembrar? &#201; tentador limitar todas essas palavras com aspas, como se elas n&#227;o pudessem significar para as plantas o que significam para n&#243;s. Para as plantas, dizemos, &#233; bioqu&#237;mica, apenas fisiologia e mec&#226;nica bruta &#8212; como se isso n&#227;o fosse verdade para n&#243;s tamb&#233;m.</p><p>Al&#233;m disso, diz Calvo, o comportamento das plantas n&#227;o pode ser reduzido a meros reflexos. Plantas n&#227;o reagem a est&#237;mulos de maneiras predeterminadas &#8212; elas nunca teriam chegado t&#227;o longe, evolutivamente falando, se fossem assim. Ter que lidar com um ambiente em constante mudan&#231;a e, ao mesmo tempo, estar enraizada em um lugar significa ter que definir prioridades, fazer concess&#245;es e alterar cursos em tempo real.</p><p>Considere os est&#244;matos: min&#250;sculos poros na parte inferior das folhas. Quando os poros est&#227;o abertos, di&#243;xido de carbono entra &#8212; isso &#233; bom, &#233; respira&#231;&#227;o &#8212;, mas vapor de &#225;gua pode escapar. Ent&#227;o, qu&#227;o abertos devem estar os est&#244;matos em um determinado momento? Depende da disponibilidade de &#225;gua no solo &#8212; se houver muito mais para ser consumido, vale a pena deixar o di&#243;xido de carbono entrar. Se a terra estiver seca, as folhas precisam reter &#225;gua. Para que as folhas tomem essa decis&#227;o, as ra&#237;zes precisam inform&#225;-las sobre a disponibilidade de &#225;gua. As folhas, por sua vez, comunicam suas pr&#243;prias necessidades &#224;s ra&#237;zes, incentivando-as, por exemplo, a formar <a href="https://www.science.org/cms/asset/dc81eb56-568a-4da4-bf8f-184a6f549aaf/pap.pdf">rela&#231;&#245;es simbi&#243;ticas</a> com micro-organismos espec&#237;ficos no solo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Se plantas reagissem &#224;s informa&#231;&#245;es sensoriais na base de uma-a-uma &#8212; quando a luz faz <em>x</em>, a planta faz <em>y</em> &#8212; seria justo pensar nelas como meros aut&#244;matos, operando sem pensar, sem um ponto de vista. Mas na vida real, esse nunca &#233; o caso. Como todos os organismos, plantas est&#227;o imersas em ambientes din&#226;micos e prec&#225;rios, for&#231;adas a enfrentar problemas sem solu&#231;&#245;es claras, apostando suas vidas &#224; medida que avan&#231;am. "Um sistema biol&#243;gico nunca &#233; exposto a uma &#250;nica fonte de est&#237;mulo", diz Calvo. "Ele sempre tem que fazer concess&#245;es entre diferentes op&#231;&#245;es. Ele precisa de algum tipo de val&#234;ncia (capacidade de combina&#231;&#227;o), uma perspectiva de n&#237;vel superior. E essa &#233; a entrada na senci&#234;ncia."</p><p>Senci&#234;ncia?</p><p>As plantas s&#227;o inteligentes? Talvez. Adapt&#225;veis? Com certeza. Mas sencientes? Atentas? Conscientes? Ou&#231;a com aten&#231;&#227;o e voc&#234; escutar&#225; o desd&#233;m.</p><p>Sentir-se viva, ter uma experi&#234;ncia subjetiva do ambiente ao seu redor, ser um organismo cujas luzes est&#227;o acesas, onde h&#225; algu&#233;m em casa &#8212; isso &#233; reservado para criaturas com c&#233;rebros, ou assim diz a ci&#234;ncia cognitiva tradicional. Segundo a teoria, somente c&#233;rebros podem codificar representa&#231;&#245;es mentais, modelos <em>do</em> mundo que os c&#233;rebros experimentam <em>como sendo</em> o mundo. Como Jon Mallatt, bi&#243;logo da Universidade de Washington, e seus colegas colocaram em sua cr&#237;tica de 2021 ao trabalho de Calvo, "<a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s00709-020-01579-w">Debunking a Myth: Plant Consciousness</a>", para ter consci&#234;ncia &#233; necess&#225;rio "experimentar uma imagem mental ou representa&#231;&#227;o do mundo percebido", coisa que plantas sem c&#233;rebro n&#227;o t&#234;m como fazer.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><p>Mas, para Calvo, esse &#233; exatamente o ponto. Se a teoria representacional da mente diz que plantas n&#227;o podem realizar comportamentos inteligentes e cognitivos, e as evid&#234;ncias mostram que as plantas <em>realizam</em> comportamentos inteligentes e cognitivos, talvez seja hora de repensar a teoria. "Temos plantas fazendo coisas incr&#237;veis e elas n&#227;o t&#234;m neur&#244;nios", diz ele. "Portanto, talvez dev&#234;ssemos questionar a pr&#243;pria premissa de que neur&#244;nios s&#227;o necess&#225;rios para a cogni&#231;&#227;o."</p><p>A ideia de que a mente est&#225; no c&#233;rebro vem de Descartes. O fil&#243;sofo do s&#233;culo XVII inventou nossa no&#231;&#227;o moderna de consci&#234;ncia e a confinou ao interior do cr&#226;nio. Ele via a mente e o c&#233;rebro como subst&#226;ncias separadas, mas sem acesso direto ao mundo. A mente dependia do c&#233;rebro para codificar e representar o mundo ou conjurar seu melhor palpite sobre o que o mundo poderia ser, com base em pistas amb&#237;guas que chegavam por meio de sentidos n&#227;o confi&#225;veis. O que Descartes chamou de "impress&#245;es cerebrais" s&#227;o as atuais "representa&#231;&#245;es mentais". Como escreve o cientista cognitivo Ezequiel Di Paolo, "a tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica ocidental, desde Descartes, tem sido assombrada por uma generalizada epistemologia de media&#231;&#227;o: a amplamente disseminada suposi&#231;&#227;o de que n&#227;o se pode ter conhecimento daquilo que est&#225; <em>fora</em> de si, exceto por meio das ideias <em>dentro</em> de si."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a></p><p>A ci&#234;ncia cognitiva moderna trocou o dualismo mente-corpo de Descartes pelo dualismo c&#233;rebro-corpo: o corpo &#233; necess&#225;rio para respirar, comer e permanecer vivo, mas s&#243; o c&#233;rebro, em seu santu&#225;rio escuro e silencioso, percebe, sente e pensa. A ideia de que a consci&#234;ncia est&#225; <em>dentro do</em> c&#233;rebro &#233; t&#227;o arraigada em nossa ci&#234;ncia, em nosso discurso cotidiano e at&#233; mesmo na cultura popular que parece quase inquestion&#225;vel. "Simplesmente nem percebemos que estamos adotando uma vis&#227;o que ainda &#233; uma hip&#243;tese", diz Louise Barrett, bi&#243;loga da Universidade de Lethbridge, no Canad&#225;, que estuda a cogni&#231;&#227;o em humanos e em outros primatas.</p><blockquote><p><em><strong>Dever&#237;amos questionar se neur&#244;nios s&#227;o necess&#225;rios para a cogni&#231;&#227;o.</strong></em></p></blockquote><p>Barrett, assim como Calvo, faz parte de um n&#250;mero cada vez maior de cientistas e fil&#243;sofos que questionam essa hip&#243;tese, porque ela n&#227;o est&#225; de acordo com a compreens&#227;o biol&#243;gica dos organismos vivos. "Precisamos deixar de pensar em n&#243;s mesmas como m&#225;quinas", diz Barrett. "Essa met&#225;fora est&#225; nos impedindo de compreender a cogni&#231;&#227;o viva e selvagem."</p><p>Em vez disso, Barrett e Calvo se baseiam em um conjunto de ideias conhecido como "ci&#234;ncia cognitiva 4E", um termo abrangente para v&#225;rias teorias que acabam tendo a letra inicial E. Cogni&#231;&#227;o corporificada, embutida, ampliada e enativa ("embodied, embedded, extended, enactive") &#8212; o que elas t&#234;m em comum (al&#233;m do E) &#233; a rejei&#231;&#227;o da cogni&#231;&#227;o como uma quest&#227;o puramente amarrada ao c&#233;rebro. Calvo tamb&#233;m se inspira em um quinto E: a psicologia Ecol&#243;gica, com esp&#237;rito semelhante ao dos quatro Es can&#244;nicos. Trata-se de uma teoria sobre como percebemos sem a utiliza&#231;&#227;o de representa&#231;&#245;es internas.</p><p>Na hist&#243;ria padr&#227;o de como a vis&#227;o funciona, &#233; o c&#233;rebro que faz o trabalho duro de criar uma cena visual. Essa hist&#243;ria diz que ele precisa fazer isso porque os olhos contribuem com muito pouca informa&#231;&#227;o. Em um determinado foco visual, o padr&#227;o de luz em foco na retina corresponde a uma &#225;rea bidimensional do tamanho de uma unha do polegar &#224; dist&#226;ncia de um bra&#231;o. Mesmo assim, temos a impress&#227;o de estar imersas em uma cena tridimensional rica. Portanto, deve ser o c&#233;rebro que "preenche" as pe&#231;as que faltam, fazendo infer&#234;ncias a partir de dados escassos e oferecendo sua melhor alucina&#231;&#227;o para sabe-se-l&#225;-quem "ver", sabe-se-l&#225;-como.</p><p>Remontando ao trabalho do psic&#243;logo James Gibson na d&#233;cada de 1960, a psicologia ecol&#243;gica oferece uma hist&#243;ria diferente. Na vida real, diz a teoria, nunca lidamos com imagens est&#225;ticas. Nossos olhos est&#227;o sempre se movendo, saltando para frente e para tr&#225;s em pequenas explos&#245;es &#8212; chamadas de sacadas ("saccades") &#8212; t&#227;o r&#225;pidas que nem percebemos. Nossas cabe&#231;as tamb&#233;m se movem, assim como nossos corpos no espa&#231;o, de modo que nunca nos deparamos com um padr&#227;o fixo de luz, mas com o que Gibson chamou de "fluxo &#243;ptico".</p><p>"Ver", de acordo com a psicologia ecol&#243;gica, n&#227;o &#233; formar uma imagem do mundo em sua cabe&#231;a. Ela enfatiza que os padr&#245;es de luz na retina mudam em rela&#231;&#227;o aos seus movimentos. N&#227;o &#233; o c&#233;rebro que v&#234;, mas todo o corpo animado. O resultado de "ver" nunca &#233; uma imagem final para uma mente interna contemplar em sua caverna secreta, mas um envolvimento adaptativo e cont&#237;nuo com o mundo.</p><p>Plantas n&#227;o t&#234;m exatamente olhos, mas os fluxos de luz e energia interferem em seus sentidos e mudam de maneira previs&#237;vel em rela&#231;&#227;o aos pr&#243;prios movimentos das plantas. &#201; claro que, para perceber isso, primeiro voc&#234; precisa perceber que as plantas se movem.</p><p>"Se voc&#234; acha que plantas s&#227;o s&#233;sseis", ou estacion&#225;rias, diz Calvo, "apenas sentadas ali, levando a vida como ela vem, &#233; dif&#237;cil visualizar a ideia de que elas est&#227;o gerando esses fluxos".</p><p>Plantas parecem s&#233;sseis para n&#243;s apenas porque se movem lentamente. Movimentos r&#225;pidos &#8212; como o movimento noturno da minha planta de ora&#231;&#227;o &#8212; podem ser realizados alterando o conte&#250;do de &#225;gua em determinadas c&#233;lulas para mudar a tens&#227;o em um caule ou para enrijecer um galho sob o peso de neve pesada. A maior parte do movimento das plantas, entretanto, ocorre por meio do crescimento. Como n&#227;o podem pegar suas ra&#237;zes e ir embora, as plantas mudam de local crescendo em uma nova dire&#231;&#227;o. N&#243;s, seres humanos, estamos basicamente presos &#224; forma de nossos corpos, mas pelo menos podemos nos movimentar; plantas n&#227;o podem se movimentar, mas podem crescer na forma mais conveniente. Essa "plasticidade fenot&#237;pica", como &#233; chamada, &#233; o motivo pelo qual &#233; fundamental que plantas possam planejar com anteced&#234;ncia.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif" width="700" height="435" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:435,&quot;width&quot;:700,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:18964,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/avif&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y6rg!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27fa0c92-4ead-40ce-97d6-3ea84014667f.avif 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption"><strong>Gavinha</strong> do p&#233;-de-pepino.</figcaption></figure></div><p>"Se voc&#234; passa todo esse tempo fazendo crescer uma gavinha em determinada dire&#231;&#227;o", diz Barrett, "n&#227;o pode se dar ao luxo de errar". &#201; por isso que a previs&#227;o parece ser muito importante. &#201; como meu av&#244; dizia, talvez todos os av&#243;s digam isso: 'me&#231;a duas vezes, corte uma vez'. "</p><p>A plasticidade fenot&#237;pica &#233; um processo poderoso, mas lento &#8212; para v&#234;-la, &#233; preciso aceler&#225;-la. Por isso, Calvo faz grava&#231;&#245;es de lapso de tempo, nas quais o crescimento lento e aparentemente aleat&#243;rio se transforma no que parece ser um comportamento intencional. Um de seus v&#237;deos de lapso de tempo mostra um feij&#227;o trepador crescendo em busca de um poste. A trepadeira circula sem rumo &#224; medida que cresce. Horas s&#227;o comprimidas em minutos. Mas quando a planta percebe um poste, tudo muda: ela se retrai, como um pescador antes de jogar a linha, depois se lan&#231;a diretamente para o poste e o agarra.</p><p>"Uma vez que o movimento se torna vis&#237;vel ao ser acelerado", diz Calvo, "voc&#234; v&#234; que certamente as plantas est&#227;o gerando fluxos com seu movimento".</p><p>Ao usar esses fluxos para orientar seus movimentos, plantas realizam todo tipo de fa&#231;anhas, como "evitar sombra" &#8212; afastando-se de &#225;reas superpovoadas onde h&#225; muita competi&#231;&#227;o pela fotoss&#237;ntese. Plantas, explica Calvo, absorvem a luz vermelha, mas refletem a luz vermelho distante. &#192; medida que uma planta cresce em uma determinada dire&#231;&#227;o, ela pode observar a varia&#231;&#227;o da propor&#231;&#227;o entre luz vermelha e vermelho distante e mudar de dire&#231;&#227;o caso se depare com uma multid&#227;o.</p><p>"Elas n&#227;o est&#227;o armazenando uma imagem do ambiente ao seu redor para fazer c&#225;lculos", diz Calvo. "Elas n&#227;o est&#227;o fazendo um mapa da vizinhan&#231;a e tra&#231;ando onde est&#225; a concorr&#234;ncia e depois decidindo crescer na dire&#231;&#227;o oposta. Elas simplesmente usam o ambiente ao seu redor."</p><blockquote><p><em><strong>Reduzimos o comportamento de uma planta a uma mec&#226;nica bruta &#8212; como se isso n&#227;o fosse verdade para n&#243;s tamb&#233;m.</strong></em></p></blockquote><p>Isso pode parecer muito diferente de como seres humanos percebem o mundo, mas de acordo com a cogni&#231;&#227;o 4E, os mesmos princ&#237;pios se aplicam. Seres humanos tamb&#233;m n&#227;o percebem o mundo formando imagens internas. A percep&#231;&#227;o, segundo os Es, &#233; uma forma de coordena&#231;&#227;o sens&#243;rio-motora. Aprendemos as consequ&#234;ncias sensoriais de nossos movimentos, o que, por sua vez, molda a forma como nos movemos.</p><p>Basta observar um jogador de beisebol <a href="https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2013.00058/full">pegar uma bola alta</a>.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> A ci&#234;ncia cognitiva padr&#227;o diria que o c&#233;rebro do atleta calcula o movimento de proj&#233;til da bola e prev&#234; onde ela vai cair. Em seguida, o c&#233;rebro diz ao corpo o que fazer, sendo o mero resultado de um processo cognitivo que ocorreu inteiramente dentro da cabe&#231;a. Se tudo isso fosse verdade, o jogador poderia simplesmente ir direto para esse local &#8212; correndo em linha reta, sem precisar observar a bola &#8212; e peg&#225;-la.</p><p>Mas n&#227;o &#233; o que os jogadores fazem. Em vez disso, eles movimentam o corpo, constantemente se arrastando para frente e para tr&#225;s e observando como a posi&#231;&#227;o da bola muda &#224; medida que se movem. Eles fazem isso porque, se conseguirem acompanhar a velocidade da bola de modo fixo em seu campo de vis&#227;o, e anular a acelera&#231;&#227;o da bola com a sua pr&#243;pria, eles e a bola acabar&#227;o no mesmo lugar. O jogador n&#227;o precisa resolver equa&#231;&#245;es diferenciais em um modelo mental &#8212; o movimento de seu corpo em rela&#231;&#227;o &#224; bola resolve o problema em um envolvimento ativo, em tempo real. Como escreveu o roboticista do MIT Rodney Brooks em um artigo de refer&#234;ncia de 1991, "<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/000437029190053M?via%3Dihub">Intelligence Without Representation</a>", "Representa&#231;&#245;es expl&#237;citas e modelos do mundo simplesmente atrapalham. Acaba sendo melhor usar o mundo como seu pr&#243;prio modelo."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a></p><p>Se a cogni&#231;&#227;o &#233; corporificada, embutida, ampliada, enativa e ecol&#243;gica, ent&#227;o o que chamamos de mente n&#227;o est&#225; no c&#233;rebro. &#201; o envolvimento ativo do corpo com o mundo, constru&#237;do n&#227;o apenas com disparos neurais, mas com loops sens&#243;rio-motores que percorrem c&#233;rebro, corpo e ambiente. Em outras palavras, a mente n&#227;o est&#225; na cabe&#231;a. Calvo gosta de citar o psic&#243;logo William Mace: "N&#227;o pergunte o que est&#225; dentro de sua cabe&#231;a, mas o que &#233; isso onde sua cabe&#231;a est&#225; dentro."</p><p>Quando me deparei pela primeira vez com as teorias 4E, n&#227;o pude deixar de pensar na consci&#234;ncia. Se a mente &#233; corporificada, embutida, ampliada etc, a consci&#234;ncia &#8212; essa coisa m&#225;gica e nebulosa &#8212; vaza do confinamento craniano, permeia o corpo, se derrama como fuma&#231;a dos ouvidos e verte para o mundo? Mas ent&#227;o reconheci que essa maneira de pensar era um tipo de ressaca da vis&#227;o tradicional, em que a consci&#234;ncia era tratada como um substantivo, como algo que poderia ser localizado em um lugar espec&#237;fico.</p><p>"A cogni&#231;&#227;o n&#227;o &#233; algo que as plantas &#8212; ou mesmo os animais &#8212; possam ter", escreve Calvo em seu novo livro, <em>Planta Sapiens</em>.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> "&#201; algo criado pela intera&#231;&#227;o entre um organismo e seu ambiente. N&#227;o pense no que est&#225; acontecendo dentro do organismo, mas sim em como o organismo se acopla ao seu ambiente, pois &#233; a&#237; que a experi&#234;ncia &#233; criada."</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp" width="728" height="781.5900339750849" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:false,&quot;imageSize&quot;:&quot;normal&quot;,&quot;height&quot;:948,&quot;width&quot;:883,&quot;resizeWidth&quot;:728,&quot;bytes&quot;:166568,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!P3XH!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F239610ca-c21a-48ca-aaa5-8e26e8a6bf2a_883x948.webp 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Ilustra&#231;&#227;o de Deena So'Oteh</figcaption></figure></div><p>A mente, nesse sentido, &#233; melhor entendida como um verbo. Como diz o fil&#243;sofo Alva No&#235;, que trabalha com cogni&#231;&#227;o incorporada, "a consci&#234;ncia n&#227;o &#233; algo que acontece dentro de n&#243;s: &#233; algo que fazemos."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a></p><p>E fazemos isso para continuar vivendo. A necessidade de permanecer viva, de persistir em condi&#231;&#245;es adversas &#8212; &#233; isso que nos separa das m&#225;quinas. A "cogni&#231;&#227;o selvagem", como diz Barrett, &#233; mais parecida com a chama de uma vela do que com um computador. "Somos processos cont&#237;nuos que resistem &#224; segunda lei da termodin&#226;mica", diz ela. Somos velas que trabalham desesperadamente para se reacender, enquanto a entropia faz o poss&#237;vel para nos apagar. M&#225;quinas s&#227;o constru&#237;das &#8212; uma &#233; feita e pronto &#8212;, mas seres vivos fazem a si mesmos e precisam se refazer enquanto quiserem continuar vivendo.</p><blockquote><p><em><strong>Senti-me como uma forma de vida ativa, com gavinhas e estranha.</strong></em></p></blockquote><p>Os bi&#243;logos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela &#8212; pais fundadores da cogni&#231;&#227;o corporificada e enativa &#8212; criaram o termo "autopoiese" para captar essa propriedade de autocria&#231;&#227;o. Uma c&#233;lula &#8212; a unidade fundamental da vida &#8212; serve como o principal exemplo.</p><p>C&#233;lulas s&#227;o formadas por redes metab&#243;licas que produzem os pr&#243;prios componentes dessas redes, inclusive a membrana celular, que a rede constr&#243;i e reconstr&#243;i continuamente; enquanto a membrana, por sua vez, permite que a rede funcione sem escorrer de volta para o mundo. Para manter seu metabolismo em funcionamento, a c&#233;lula precisa estar em constante troca com o ambiente, extraindo recursos e jogando fora os res&#237;duos, o que significa que a membrana precisa permitir que coisas passem por ela. Mas ela n&#227;o pode fazer isso indiscriminadamente. A c&#233;lula precisa tomar uma posi&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o ao mundo, v&#234;-lo como um local de valores, cheio de coisas que s&#227;o "boas" e "ruins", "&#250;teis" e "prejudiciais", sendo que esses termos nunca s&#227;o absolutos, mas dependentes das necessidades da c&#233;lula e da din&#226;mica do ambiente, ambas em constante mudan&#231;a.</p><p>Essas val&#234;ncias (capacidades de combina&#231;&#227;o), diz Calvo, s&#227;o os est&#237;mulos da senci&#234;ncia. S&#227;o distin&#231;&#245;es que esculpem &#8212; ou "encenam" ("enact", no sentido de "viver ou encenar um papel") &#8212; um mundo em um processo que os cientistas cognitivos da 4E chamam de "cria&#231;&#227;o de sentido". O ato de fazer distin&#231;&#245;es sobre capacidades de combina&#231;&#227;o no mundo, que permitem que voc&#234; estabele&#231;a a fronteira entre si e outro, &#233; o ato cognitivo primordial do qual derivam todos os n&#237;veis mais elevados de cogni&#231;&#227;o. O mesmo ato que mant&#233;m vivo um sistema vivo &#233; o ato pelo qual, como diz No&#235;, "o mundo aparece para n&#243;s".</p><p>"Voc&#234; come&#231;a com a vida", diz Evan Thompson, fil&#243;sofo da Universidade de British Columbia e um dos fundadores da abordagem enativa. "Estar vivo significa estar organizado de uma determinada maneira. Voc&#234; est&#225; organizado para ter uma certa autonomia, e isso imediatamente cria um mundo ou um dom&#237;nio de relev&#226;ncia." Thompson chama isso de "continuidade vida-mente". Ou, como diz Calvo, ecoando o psic&#243;logo do s&#233;culo XIX Wilhelm Wundt, "Onde h&#225; vida, j&#225; h&#225; mente".</p><p>Sob a perspectiva da 4E, mentes v&#234;m antes dos c&#233;rebros. C&#233;rebros entram em cena quando h&#225; organismos multicelulares e m&#243;veis &#8212; n&#227;o para representar o mundo ou dar origem &#224; consci&#234;ncia, mas para forjar conex&#245;es entre os sistemas sensoriais e motores de modo que o organismo possa agir como um todo singular e se mover pelo ambiente de forma a manter sua chama acesa.</p><p>"O c&#233;rebro &#233; fundamentalmente um &#243;rg&#227;o regulador da vida", diz Thompson. "Nesse sentido, ele &#233; como o cora&#231;&#227;o ou o rim. Quando h&#225; vida animal, ele &#233; crucialmente dependente da regula&#231;&#227;o do corpo, de sua manuten&#231;&#227;o e de todas as suas capacidades comportamentais. O c&#233;rebro est&#225; facilitando o que o organismo faz. Palavras como cogni&#231;&#227;o, mem&#243;ria, aten&#231;&#227;o ou consci&#234;ncia &#8212; para mim, essas palavras s&#227;o aplicadas adequadamente a todo o organismo. &#201; todo o organismo que est&#225; consciente, n&#227;o &#233; o c&#233;rebro que est&#225; consciente. &#201; todo o organismo que presta aten&#231;&#227;o ou se lembra. O c&#233;rebro torna a cogni&#231;&#227;o animal poss&#237;vel, ele a facilita e possibilita, mas n&#227;o &#233; o <em>local</em> dela."</p><p>Um p&#225;ssaro precisa de asas para voar, diz Thompson, mas o voo n&#227;o est&#225; <em>nas</em> asas. Asas sem corpo em um pote nunca poderiam voar &#8212; &#233; o p&#225;ssaro inteiro, em intera&#231;&#227;o com as correntes de ar moldadas por seus pr&#243;prios movimentos, que voa para o c&#233;u.</p><blockquote><p><em><strong>O que modelamos com sistemas artificiais n&#227;o &#233; cogni&#231;&#227;o genu&#237;na.</strong></em></p></blockquote><p>"Plantas s&#227;o uma estrat&#233;gia de multicelularidade diferente de animais", diz Thompson. Elas n&#227;o t&#234;m c&#233;rebro, mas, de acordo com Calvo, t&#234;m algo igualmente bom: sistemas vasculares complexos, com redes de conex&#245;es dispostas em camadas n&#227;o muito diferentes do c&#243;rtex de mam&#237;feros. No &#225;pice da raiz &#8212; uma pequena regi&#227;o na ponta da raiz de uma planta &#8212; sinais sensoriais e motores s&#227;o integrados por meio de atividade eletroqu&#237;mica usando mol&#233;culas semelhantes aos neurotransmissores de nossos c&#233;rebros, com c&#233;lulas vegetais disparando potenciais de a&#231;&#227;o semelhantes aos de um neur&#244;nio, s&#243; que mais lentos. Assim como o c&#233;rebro humano, o &#225;pice da raiz permite que a planta integre todos os seus fluxos sensoriais a fim de produzir um novo comportamento que gerar&#225; novos fluxos de forma a manter a planta adaptativamente acoplada ao mundo.</p><p>As fun&#231;&#245;es semelhantes desempenhadas pelo sistema nervoso de um animal e pelo sistema vascular de uma planta ajudam a explicar por que os mesmos anest&#233;sicos podem colocar animais e plantas para dormir, como Calvo demonstrou usando uma dioneia (planta apanha-moscas) em um frasco de vidro. Normalmente, as armadilhas da planta se fecham quando um infeliz inseto aciona um de seus pelos sensores, que se projetam da boca da armadilha como dentes de tubar&#227;o. (Na verdade, a planta inteligente aguarda o acionamento de um segundo fio de pelo, alguns segundos ap&#243;s o primeiro, antes de gastar a dispendiosa energia para morder. Uma vez fechada, ela aguarda mais tr&#234;s acionamentos &#8212; para garantir que haja um inseto decente zumbindo l&#225; dentro &#8212; antes de liberar enzimas &#225;cidas para digerir sua refei&#231;&#227;o. Como Calvo resume, "elas sabem contar at&#233; cinco!") Usando eletrodos de superf&#237;cie, Calvo observou como os pelos acionados enviavam picos el&#233;tricos pela planta, fazendo com que seu sistema motor reagisse. Com a anestesia, tudo isso parou. Calvo fez c&#243;cegas nos pelos da armadilha e ela ficou ali parada, com a boca aberta. A linha de leitura do eletrodo permaneceu reta.</p><p>"A anestesia impede que a c&#233;lula dispare um potencial de a&#231;&#227;o", explica Calvo. "Isso acontece tanto em plantas quanto em animais." N&#227;o &#233; que o anest&#233;sico esteja abaixando o volume da consci&#234;ncia dentro do c&#233;rebro ou do &#225;pice da raiz, ele est&#225; apenas cortando as liga&#231;&#245;es entre as entradas sensoriais e as sa&#237;das motoras, impedindo que o organismo se envolva como um todo singular com seu ambiente. No entanto, uma vez "acordadas", as dioneias grogues voltavam rapidamente ao comportamento habitual.</p><p>"Claramente", diz Thompson, "plantas se auto-organizam, se auto-mant&#234;m, se auto-regulam, s&#227;o altamente adapt&#225;veis; elas se envolvem em sinaliza&#231;&#227;o complexa entre si, dentro das esp&#233;cies e entre as esp&#233;cies, e fazem isso dentro de uma estrutura de multicelularidade que &#233; diferente da vida animal, mas exibe todas as mesmas coisas: autonomia, intelig&#234;ncia, adaptabilidade, percep&#231;&#227;o". Do ponto de vista da 4E, diz Thompson, "n&#227;o h&#225; problema algum em falar sobre cogni&#231;&#227;o vegetal".</p><p>No final das contas, os cr&#237;ticos de Calvo est&#227;o certos: plantas n&#227;o est&#227;o usando o c&#233;rebro para formar representa&#231;&#245;es internas. Elas n&#227;o t&#234;m mundos privados e conscientes trancados dentro delas. Mas, de acordo com a ci&#234;ncia cognitiva 4E, n&#243;s tamb&#233;m n&#227;o.</p><p>"O erro foi pensar que a cogni&#231;&#227;o estava na cabe&#231;a", diz Calvo. "Ela pertence &#224; rela&#231;&#227;o entre organismo e seu ambiente."</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp" width="597" height="796" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/afcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:796,&quot;width&quot;:597,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:121324,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PqsU!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fafcaa680-20ad-41a0-934d-39b83b9cd1a9_597x796.webp 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Ilustra&#231;&#227;o de Deena So'Oteh</figcaption></figure></div><p>Depois de conversar com Calvo, olhei ao redor de meu apartamento repleto de plantas &#8212; com pothos e brom&#233;lias, mandevillas e samambaias staghorn, l&#237;rios-da-paz e coroas-de-cristo, nas plantas-cobra, Monstera, ZZs e palmeiras &#8212; e, de repente, elas pareceram muito diferentes. Por um lado, Calvo havia me dito para pensar nas plantas como se estivessem de cabe&#231;a para baixo, com suas "cabe&#231;as" mergulhadas no solo e seus membros e &#243;rg&#227;os sexuais saltando para fora e balan&#231;ando. Quando voc&#234; olha para uma planta dessa forma, &#233; dif&#237;cil deixar de v&#234;-la. Mas, mais especificamente, as plantas agora n&#227;o apareciam como objetos, mas como sujeitos &#8212; como seres vivos e esfor&#231;ados tentando sobreviver no mundo &#8212; e me peguei perguntando se elas se sentiam sozinhas nos vasos, se entravam em p&#226;nico quando eu esquecia de reg&#225;-las ou se ficavam tontas quando eu as girava no parapeito da janela.</p><p>N&#227;o eram apenas as plantas. Tamb&#233;m me sentia diferente: menos como um espectadora passiva, aconchegada dentro do meu cr&#226;nio, e mais como uma forma de vida ativa, com gavinhas e estranha, movendo-me pelo mundo enquanto o mundo se movia por mim.</p><p>"Plantas n&#227;o s&#227;o t&#227;o diferentes de n&#243;s no final", Calvo me disse, &#8220;n&#227;o porque eu esteja aumentando-as para torn&#225;-las mais semelhantes a n&#243;s, mas porque estou repensando o que &#233; a percep&#231;&#227;o humana. N&#227;o estou inflando-as nem reduzindo-nos, mas colocando todos n&#243;s na mesma p&#225;gina&#8221;.</p><p>Era dif&#237;cil n&#227;o se perguntar se, a partir dessa mesma p&#225;gina, a hist&#243;ria do nosso planeta poderia se desenrolar de forma diferente. As abordagens "E" nos pedem para questionar o que somos, o quanto estamos intimamente ligados ao mundo e se seria correto nos ver como separadas da natureza, ou se a destrui&#231;&#227;o que causamos est&#225; diminuindo constantemente nossa pr&#243;pria cogni&#231;&#227;o selvagem.</p><p>"A natureza humana", escreveu John Dewey, o fil&#243;sofo pragmatista, "existe e opera em um ambiente. E ela n&#227;o est&#225; &#8216;dentro&#8217; desse ambiente como moedas est&#227;o em uma caixa, mas como uma planta est&#225; na luz do sol e no solo. Ela &#233; deles."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a></p><div><hr></div><p><em><strong>Amanda Gefter</strong> escreve sobre ci&#234;ncia. &#201; a autora de </em>Trespassing on Einstein's Lawn<em>. Mora em Watertown, Massachusetts (EUA).</em></p><p><em>Ilustra&#231;&#245;es de <strong>Deena So'Oteh.</strong></em></p><div><hr></div><p><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Gefter, A. The man who tried to redeem the world with logic. <em>Nautilus</em> (2015).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Pennisi, E. Plants communicate distress using their own kind of nervous system. <em>Science</em> (2018).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Tsikou, D., et al. Systemic control of legume susceptibility to rhizobial infection by a mobile microRNA. <em>Science</em> <em>362</em>, 233-236 (2018).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Mallatt, J., Blatt, M.R., Draguhn, A., Robinson, D.G., &amp; Taiz, L. Debunking a myth: plant consciousness. <em>Protoplasma</em> <em>258</em>, 459-476 (2021).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Di Paolo, E. <em>Sensorimotor Life</em> Oxford University Press, Oxford, United Kingdom (2017).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Wilson, A.D. &amp; Golonka, S. Embodied cognition is not what you think it is. <em>Frontiers in Psychology 4</em>, 58 (2013).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Brooks, R.A. Intelligence without representation. <em>Artificial Intelligence 47</em>, 139-159 (1991).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Calvo, P. <em>Planta Sapiens: The New Science of Plant Intelligence</em> W. W. Norton &amp; Co, New York, NY (2023).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>No&#235;, A. <em>Out of Our Heads</em> Hill and Wang, New York, NY (2010).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Dewey, J. <em>Human Nature and Conduct: An introduction to social psychology</em> H. Holt and Company, New York, NY(1922).</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Falando com crianças, direito às estrelas, valor da vida e outros links]]></title><description><![CDATA[Seguem links sobre temas relacionados e algumas reflex&#245;es.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/falando-com-criancas-direito-as-estrelas</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/falando-com-criancas-direito-as-estrelas</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Thu, 14 Sep 2023 21:50:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fS0E!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F207b637f-eb0c-4438-929f-004d1909ed11_3125x4167.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Seguem links sobre temas relacionados e algumas reflex&#245;es.</p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fS0E!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F207b637f-eb0c-4438-929f-004d1909ed11_3125x4167.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fS0E!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F207b637f-eb0c-4438-929f-004d1909ed11_3125x4167.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fS0E!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F207b637f-eb0c-4438-929f-004d1909ed11_3125x4167.jpeg 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Imagem: <a href="https://unsplash.com/@jsalvino?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">John Salvino</a> @ <a href="https://unsplash.com/photos/1PPpwrTNkJI?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Unsplash</a></figcaption></figure></div><h2>Transmitir valor &#224;s crian&#231;as</h2><p><a href="https://youtu.be/1CVdc_1HaMU?list=RDLV1JFoiOn0XkI&amp;t=4282">Nessa conversa</a> entre dois autores que admiro &#8212; o escritor e ativista Bill McKibben e o autor do livro <em>The Overstory</em> (que mencionei <a href="https://circular.emer.email/p/a-arvore-generosa">aqui</a>) Richard Powers &#8212;, Bill responde uma pergunta bastante comum hoje: como falar com crian&#231;as sobre a atual emerg&#234;ncia que vivemos? &#201; algo bem relevante pois s&#227;o elas que ser&#227;o privadas de um ambiente que seus antepassados puderam desfrutar muito mais plenamente.</p><p>Bill diz que o melhor &#233; nem comentar sobre isso com crian&#231;as novas. Vale mais mostrar a elas a beleza natural que ainda existe, o amor por isso, para que tamb&#233;m passem a amar. Isso far&#225; com que no futuro se engajem na regenera&#231;&#227;o. Caso apresentemos a elas a atual morte e degenera&#231;&#227;o do planeta, provavelmente haver&#225; intensa avers&#227;o, j&#225; que ningu&#233;m normalmente se apaixona por algo moribundo, em est&#225;gio terminal.</p><p>Uma bela experi&#234;ncia desse tipo: </p><p><a href="https://gamarevista.uol.com.br/formato/depoimento/seus-filhos-conhecem-a-amazonia/">Seus filhos podem conhecer a Amaz&#244;nia?</a></p><p>Tamb&#233;m adorei esse v&#237;deo sobre a "beleza da Terra", com uma linda can&#231;&#227;o do M83:</p><div id="youtube2-Cl_kXbhTi8k" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;Cl_kXbhTi8k&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/Cl_kXbhTi8k?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><div><hr></div><h2>Direito &#224;s estrelas</h2><p>Entre as coisas que est&#227;o desaparecendo agora mesmo &#233; a poderosa e ancestral experi&#234;ncia de contemplar diretamente a fatia do cosmos que se abre na noite estelar, j&#225; que a maioria das pessoas vive em cidades cuja polui&#231;&#227;o luminosa bloqueia a conex&#227;o.</p><p>Um <a href="https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/nao-ha-direito-as-estrelas-sob-o-capitalismo/">artigo no Outras Palavras</a> reflete sobre esse aspecto da moderniza&#231;&#227;o, em que perdemos o acesso a uma das mais profundas fontes de espanto, deslumbramento, humildade e abertura, independentemente de cren&#231;a ou descren&#231;a.</p><p>Mesmo para mim, que moro no interior, isso j&#225; degenerou bastante, criando um tipo de vazio ou aus&#234;ncia.</p><div><hr></div><h2>Qual vida vale mais?</h2><div id="youtube2-3rQi2uNqwxk" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;3rQi2uNqwxk&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/3rQi2uNqwxk?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>Essa curta anima&#231;&#227;o do TED ilustra o debate &#233;tico-filos&#243;fico sobre a predominante no&#231;&#227;o de que vidas humanas teriam mais valor do que n&#227;o humanas. H&#225; legendas em portugu&#234;s.</p><div><hr></div><h2>Passividade diante da destrui&#231;&#227;o</h2><p>Ainda com Richard Powers, em outra <a href="https://youtu.be/1JFoiOn0XkI?t=2364">palestra sobre seu livro</a>, ele comenta um efeito comportamental em que s&#243; h&#225; a "observa&#231;&#227;o passiva" ("bystander effect") de um perigo, fato observado e estudado em diversas situa&#231;&#245;es humanas.</p><p>O exemplo &#233; algu&#233;m sofrendo algum ataque e pedindo socorro na frente de um pr&#233;dio em que moram v&#225;rias pessoas. Elas escutam o apelo e sentem o impulso de agir. Mas, na grande maioria dos casos, cada uma pensa: "N&#227;o sou a &#250;nica pessoa que est&#225; presenciando isso. H&#225; v&#225;rias outras. Certamente algu&#233;m vai ajudar, algu&#233;m mais qualificado." E, assim, ningu&#233;m se move. Um fator determinante &#233; o grupo, j&#225; que quando algu&#233;m est&#225; sozinho n&#227;o h&#225; esse efeito de ina&#231;&#227;o.</p><p>Powers <a href="https://blogs.lse.ac.uk/businessreview/2020/01/07/how-the-bystander-effect-can-explain-inaction-towards-global-warming/">compara essa situa&#231;&#227;o com a atual emerg&#234;ncia ambiental</a>. Entre quem v&#234; a situa&#231;&#227;o e se preocupa, a maioria absoluta imagina (ou espera) que os outros v&#227;o fazer alguma coisa. Assim, o n&#250;mero de pessoas que se mobiliza nunca atinge a massa cr&#237;tica necess&#225;ria para a mudan&#231;a.</p><p>Concordo com a compara&#231;&#227;o porque eu mesmo me pego nessa atitude.</p><h3>Repeti&#231;&#227;o de erros do passado</h3><p>Uma <a href="https://themessenger.com/tech/forty-years-ago-scientists-warned-about-climate-change-how-accurate-were-their-predictions">an&#225;lise de alertas ambientais catastr&#243;ficos de 40 anos atr&#225;s</a> mostrou que quase todos se concretizaram ou est&#227;o em curso.</p><p>Houve uma indiferen&#231;a nas &#250;ltimas d&#233;cadas que fez com que cheg&#225;ssemos ao n&#237;vel dos desastres atuais. O mais impressionante &#233; que, agora, com cat&#225;strofes batendo na porta, essa mesm&#237;ssima indiferen&#231;a ainda predomina, especialmente na m&#237;dia.</p><p>Parece que, no geral, n&#227;o h&#225; um reconhecimento de que houve neglig&#234;ncia no passado e, assim, isso continua no presente, mesmo diante dos s&#233;rios agravamentos.</p><div><hr></div><h2>Dica de livro</h2><p>O historiador Luiz Marques lan&#231;ou o livro <em><a href="https://elefanteeditora.com.br/produto/o-decenio-decisivo/">O Dec&#234;nio Decisivo: propostas para uma pol&#237;tica de sobreviv&#234;ncia</a></em>, sobre a import&#226;ncia do momento atual para a mitiga&#231;&#227;o das graves consequ&#234;ncias ambientais nas pr&#243;xima d&#233;cadas. Ainda n&#227;o comecei a leitura, mas promete ser t&#227;o importante quanto a obra anterior, <em>Capitalismo e Colapso Ambiental</em>, que j&#225; &#233; um tipo de cl&#225;ssico brasileiro sobre esses temas.</p><p>Em <a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/noticias/a-feira-do-livro/a-maior-crise-da-humanidade">entrevista sobre o lan&#231;amento</a>, o autor comenta:</p><p>&#8212; ...estamos diante da maior crise com a qual a humanidade j&#225; se deparou. O que me intriga &#233; que se esteja estudando quest&#245;es menores do que isso, porque essa &#233; a maior quest&#227;o que temos hoje.</p><div><hr></div><h2>Sonhar &#233; crucial</h2><p>Para terminar, alguns trechos sobre utopia que grifei no livro <em>A Paradise Built in Hell</em>, de Rebecca Solnit (que comentei no final <a href="https://circular.emer.email/p/quando-a-meditacao-aumenta-o-egoismo">desse texto</a>):</p><blockquote><p>"Um mapa do mundo que n&#227;o inclua a Utopia n&#227;o merece nem mesmo uma olhada, pois deixa de fora o &#250;nico pa&#237;s para o qual a humanidade est&#225; sempre aspirando", escreveu Oscar Wilde.</p></blockquote><p>&#8230;</p><blockquote><p>Em um trecho de passagem em <em>Variedades da Experi&#234;ncia Religiosa</em>, (William James) observou:</p><p>"Os sonhos ut&#243;picos de justi&#231;a social aos quais muitos socialistas e anarquistas contempor&#226;neos se entregam, apesar de sua impraticabilidade e n&#227;o adapta&#231;&#227;o &#224;s condi&#231;&#245;es ambientais atuais, s&#227;o an&#225;logos &#224; cren&#231;a do santo em um reino dos c&#233;us existente. Eles ajudam a quebrar o generalizado reinado do endurecimento e s&#227;o lentos fermentos para uma ordem melhor".</p><p>Essa &#233; uma resposta pragm&#225;tica: uma Utopia abrangente pode estar fora de alcance, mas o esfor&#231;o para realiz&#225;-la molda o mundo para melhor mesmo assim. A cren&#231;a pode n&#227;o ser verdadeira, mas &#233; &#250;til. Acreditar cria o mundo.</p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Buscar autorrealização é fútil diante da atual ameaça à existência?]]></title><description><![CDATA[O texto abaixo (numa tradu&#231;&#227;o autom&#225;tica, mas bem revisada) &#233; sobre um tema preferido: o encontro das transforma&#231;&#245;es individual e coletiva.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/buscar-autorrealizacao-e-futil-diante</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/buscar-autorrealizacao-e-futil-diante</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Tue, 22 Aug 2023 21:58:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDnF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff8900941-9596-4890-8733-9e4cfeef8891_1500x783.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDnF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff8900941-9596-4890-8733-9e4cfeef8891_1500x783.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset image2-full-screen"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDnF!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff8900941-9596-4890-8733-9e4cfeef8891_1500x783.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDnF!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff8900941-9596-4890-8733-9e4cfeef8891_1500x783.webp 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Gostaria de ter escrito algo assim, j&#225; que tenho uma opini&#227;o id&#234;ntica e aprecio muito tanto a vis&#227;o da ecologia profunda quanto o pante&#237;smo de Spinoza.</p><p>No n&#250;cleo das m&#250;ltiplas crises atuais &#8212; especialmente a ecol&#243;gica &#8212; est&#225; uma vis&#227;o de mundo distorcida e supremacista, que n&#227;o reconhece nossa interdepend&#234;ncia com tudo mais como sendo o aspecto fundamental da realidade.</p><p>Como essa vis&#227;o predomina, por mais que tenhamos carros el&#233;tricos, energias mais limpas e tudo mais, se n&#227;o for corrigida, a espiral descendente apocal&#237;ptica continua intacta; apenas adiamos alguns efeitos.</p><div><hr></div><h1>Por que buscar autorrealiza&#231;&#227;o?</h1><p><em>Diante da crise clim&#225;tica, pode parecer miopia, mas fil&#243;sofos de Spinoza a Naess argumentam que esse &#233; o &#250;nico caminho a seguir</em></p><p>(<a href="https://aeon.co/essays/how-to-face-the-climate-crisis-with-spinoza-and-self-knowledge">publicado na Aeon</a>, em 22/08/2023)</p><p><strong>Por Helen De Cruz<br></strong><em>Professora de filosofia e titular da cadeira Danforth em ci&#234;ncias humanas na Saint Louis University, no Missouri. Seus livros incluem "Religious Disagreement" (2019), "Philosophy Illustrated: 42 Thought Experiments to Broaden Your Mind" (2022) e "Wonderstruck: How Awe and Wonder Shape the Way We Think" (lan&#231;amento em 2024).</em></p><p>Cada um de n&#243;s vivencia a crise clim&#225;tica. Tentamos nos adaptar a ela: comprando m&#225;scaras faciais para enfrentar o ar cheio de fuma&#231;a ao ar livre ou purificadores de ar para limp&#225;-lo dentro de casa, aumentando o ar condicionado para nos isolar do calor excessivo, preparando-nos para evacuar nossas casas, se necess&#225;rio, quando outro furac&#227;o atingir a costa. N&#243;s nos perguntamos onde podemos nos assentar sem que isso se transforme em um inferno durante nossa vida. Alguns de n&#243;s se perguntam se devemos trazer filhos a este mundo.</p><p>A crise clim&#225;tica gera perguntas que desafiam nossa pr&#243;pria exist&#234;ncia. N&#243;s nos perguntamos: "Quem sou eu neste mundo cada vez mais inst&#225;vel? O que ser&#225; de mim?" Essas perguntas podem nos levar ao desespero ou a virar a cara, mas, como veremos, elas tamb&#233;m podem desafiar positivamente a maneira como pensamos sobre n&#243;s.</p><p>Nossas circunst&#226;ncias pol&#237;ticas e econ&#244;micas atuais nos levam a pensar em n&#243;s mesmas como engrenagens &#250;teis em uma m&#225;quina e em nossa identidade em termos de certos obst&#225;culos que precisamos superar: ir para a faculdade para conseguir empregos bem remunerados, subir a escada da propriedade e garantir que tenhamos uma poupan&#231;a adequada para a aposentadoria. Entretanto, a crise clim&#225;tica pode nos levar a repensar essas suposi&#231;&#245;es. Para que serve a poupan&#231;a para a aposentadoria se o mundo est&#225; queimando? Precisamos de um conceito muito mais rico de identidade &#8212; uma <em>identidade plenamente realizada</em> ("fully realised self") que valha a pena preservar.</p><p>O conceito de autorrealiza&#231;&#227;o ("self-realisation") reconhece nosso forte impulso para nos preservarmos e perseverarmos diante da crise clim&#225;tica. Esse autoconceito &#233; muito mais rico e expansivo do que &#233; comumente reconhecido. N&#227;o &#233; suficiente preservar seu eu estreito e pessoal. Voc&#234; faz parte de um universo vasto e interconectado, no qual seu bem-estar depende fundamentalmente da manuten&#231;&#227;o de relacionamentos e conex&#245;es com os outros, inclusive com n&#227;o humanos.</p><p>O fil&#243;sofo noruegu&#234;s Arne Naess (1912-2009) cunhou o termo "ecologia profunda". A ideia principal da ecologia profunda &#233; que devemos enfrentar a crise ecol&#243;gica por meio de uma mudan&#231;a de paradigma. Em vez de mexer em metas concretas (como as emiss&#245;es de CO2), devemos repensar radicalmente a forma como nos relacionamos com o mundo. Naess foi um fil&#243;sofo abrangente com interesses variados. Entre muitas outras coisas, ele era um grande f&#227; do fil&#243;sofo holand&#234;s sefardita Baruch de Spinoza (1632-1677), especialmente de sua <em>&#201;tica</em> (1677), que Naess relia com frequ&#234;ncia e que desempenha um papel fundamental em sua filosofia ambiental.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp" width="500" height="681" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:681,&quot;width&quot;:500,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:18756,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Knnj!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1142c6ab-9a37-47cb-81dd-87ea6ff952eb_500x681.webp 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Arne Naess lendo <em>&#201;tica</em> de Spinoza. Imagem: Open Air Philosophy</figcaption></figure></div><p>Naess &#233; famoso em seu pa&#237;s natal. Ele &#233; considerado um tesouro nacional, amplamente admirado por seu ativismo social, montanhismo, livros did&#225;ticos de filosofia e at&#233; mesmo por suas piadas pr&#225;ticas e feitos espetaculares, como escalar as paredes do pr&#233;dio mais alto do campus Blindern da Universidade de Oslo enquanto era entrevistado pela Norwegian Broadcasting Corporation. Ele era um homem de polaridades: por um lado, um membro de uma eminente fam&#237;lia norueguesa, nomeado professor titular de filosofia em Oslo aos 27 anos &#8212; de fato, o &#250;nico professor de filosofia na Noruega na &#233;poca.</p><p>Por outro lado, ele publicou seus extensos trabalhos com pouca preocupa&#231;&#227;o com prest&#237;gio ou fama, inclusive em revistas ecol&#243;gicas obscuras com pequenas tiragens. Isso explica em parte por que Naess ainda permanece relativamente desconhecido na filosofia acad&#234;mica em l&#237;ngua inglesa. Especialmente na vida adulta, ele se aproximou do que seu amigo e colega, o fil&#243;sofo ambiental George Sessions, chamou de "uni&#227;o da teoria e da pr&#225;tica", praticando sua ecofilosofia ao passar muito tempo ao ar livre, fazendo caminhadas e montanhismo at&#233; bem depois dos 80 anos. Naess tinha uma dieta vegana espartana que consistia em vegetais cozidos sem tempero. Depois de se aposentar cedo, ele doou grande parte de sua pens&#227;o para v&#225;rios projetos, como a reforma de uma escola nepalesa.</p><p>A no&#231;&#227;o de autorrealiza&#231;&#227;o de Naess &#233; inspirada em muitas tradi&#231;&#245;es filos&#243;ficas, incluindo o Budismo Mahayana e a filosofia de resist&#234;ncia n&#227;o violenta de Gandhi. Outra inspira&#231;&#227;o importante veio de Spinoza. De acordo com sua <em>&#201;tica</em>, tudo na natureza tem um <em>conatus</em>, um esfor&#231;o fundamental para continuar a existir: "Cada coisa, tanto quanto pode por seu pr&#243;prio poder, se esfor&#231;a para perseverar em seu ser".</p><p>Vemos essa tend&#234;ncia fundamental n&#227;o apenas nos seres humanos, mas tamb&#233;m nas &#225;rvores, abelhas e gansos, e at&#233; mesmo em objetos inanimados, como mesas, montanhas e rochas. As coisas n&#227;o se desintegram espontaneamente e tendem a manter sua forma ao longo do tempo; mesmo algo aparentemente transit&#243;rio, como um inc&#234;ndio, tentar&#225; se manter. Como podemos entender esse impulso universal? Naess situa o <em>conatus</em> em um quadro maior da natureza, ou seja, um quadro que nos ajuda a perseverar e a nos afirmarmos como express&#245;es da natureza. Spinoza argumentou que existe apenas uma subst&#226;ncia, que ele chamou de "Deus" ou "Deus ou natureza". Natureza e Deus s&#227;o coextensivos, pois Deus engloba toda a realidade. Portanto, o Deus de Spinoza &#233; semelhante ao que hoje chamamos de "universo", a totalidade de tudo o que existe. Essa totalidade se expressa em um n&#250;mero infinito de modos, como o pensamento e os corpos f&#237;sicos. N&#243;s, como tudo o mais, somos express&#245;es dessa subst&#226;ncia &#250;nica.</p><p>Ao contr&#225;rio de um Deus te&#237;sta tradicional, o Deus de Spinoza n&#227;o tem um prop&#243;sito geral mais elevado, nenhum grande projeto. Esse Deus &#233; perfeitamente livre e age de acordo com suas pr&#243;prias leis, mas n&#227;o deseja nada. A natureza simplesmente &#233;, e ela &#233; perfeita em si mesma. Como Naess disse em 1977: "Se ela tivesse um prop&#243;sito, teria que fazer parte de algo ainda maior, por exemplo, um grande projeto". Segundo a interpreta&#231;&#227;o de Naess, a metaf&#237;sica de Spinoza &#233; fundamentalmente igualit&#225;ria. N&#227;o h&#225; hierarquia, nenhuma grande cadeia de seres com criaturas inferiores ou superiores. Estamos em um n&#237;vel ontol&#243;gico semelhante ao dos peixes, oceanos e besouros. Os interesses de um urso que perambula pelo campo noruegu&#234;s s&#227;o t&#227;o importantes quanto os das comunidades agr&#237;colas vizinhas.</p><p>A natureza como um todo expressa seu poder em cada coisa individual. &#201; dentro dessas express&#245;es de poder que podemos situar o impulso de preservar nosso pr&#243;prio ser. Para nos realizarmos, precisamos entender o que &#233; o nosso "eu". Naess acha que nos subestimamos, escrevendo em 1987: "Temos a tend&#234;ncia de confundi-lo [o eu] com o ego estreito". O autoconhecimento &#233; parcial e incompleto, e essa falta de conhecimento nos impede de agir bem.</p><p>Aqui, mais uma vez, h&#225; uma clara influ&#234;ncia de Spinoza. Spinoza acredita que o conhecimento e uma maior (auto)compreens&#227;o nos ajudam a aumentar nossa capacidade de agir e, portanto, nossa capacidade de perseverar. Podemos perceber essa concep&#231;&#227;o expansiva do eu considerando nossa rela&#231;&#227;o com o lugar, uma ideia que Naess extrai do pensamento ind&#237;gena. Muitas vezes nos sentimos apegados a lugares de generosidade e beleza naturais, a ponto de sentirmos que, como disse Naess: "Se este lugar for destru&#237;do, algo em mim ser&#225; morto".</p><p>A perda de um lugar j&#225; tem efeitos bem documentados sobre a sa&#250;de mental, incluindo a eco-ansiedade, que surge de uma sensa&#231;&#227;o de perda de lugares com os quais as pessoas t&#234;m uma forte conex&#227;o emocional. Quando nosso entorno &#233; prejudicado, n&#243;s tamb&#233;m nos sentimos prejudicados. As comunidades inu&#237;tes do norte do Canad&#225; sentem saudades de casa durante o inverno. Esse sentimento espont&#226;neo de conex&#227;o com o lugar nos indica que nosso eu n&#227;o termina em nossa pele, mas que inclui outras criaturas. Os povos ind&#237;genas, por meio de seu ativismo e movimentos de retorno &#224; terra, demonstram que o eu &#233; mais do que essas m&#233;tricas. Em uma carta de 1988, Naess conta a hist&#243;ria de um homem ind&#237;gena S&#225;mi que foi detido por protestar contra a instala&#231;&#227;o de uma barragem em um rio, que produziria hidroeletricidade. No tribunal, o homem S&#225;mi disse que essa parte do rio era "parte dele mesmo". Em outras palavras, se o rio fosse alterado, ele sentiria que a altera&#231;&#227;o destruiria parte de si mesmo. Em sua opini&#227;o, a sobreviv&#234;ncia pessoal implicava a sobreviv&#234;ncia da paisagem.</p><p>Para Naess, n&#227;o h&#225; nenhum prop&#243;sito grandioso e externo em nossas vidas, a n&#227;o ser os prop&#243;sitos que atribu&#237;mos a elas. Mas como nosso bem-estar depende de fatores externos a n&#243;s, ainda h&#225; algum sentido em que podemos estar pior ou melhor, e &#233; racional lutar para estar melhor. Nesse sentido, a autorrealiza&#231;&#227;o &#233; diferente da felicidade. Uma &#225;rvore que floresce e se d&#225; bem, com folhas brilhando ao sol e p&#225;ssaros aninhados em seus galhos, est&#225; se realizando, embora n&#227;o saibamos se ela &#233; feliz.</p><p>Um conceito semelhante &#233; articulado no trabalho da autora feminista negra americana Audre Lorde (1934-92). Para ela, sobreviv&#234;ncia n&#227;o significa apenas ter um teto sobre a cabe&#231;a e comida na mesa. Como explica Caleb Ward em um blog recente da American Philosophical Association, para Lorde h&#225; uma diferen&#231;a entre seguran&#231;a e sobreviv&#234;ncia. Seguran&#231;a &#233; o que nos dizem que devemos tentar realizar: estudamos, conseguimos uma hipoteca e um emprego para nos proteger das vicissitudes da vida. Por outro lado, a sobreviv&#234;ncia, que est&#225; mais pr&#243;xima da autorrealiza&#231;&#227;o, &#233; um conceito que praticamente n&#227;o recebe aten&#231;&#227;o em pol&#237;ticas ou conselhos de vida: "a sobreviv&#234;ncia inclui viver e preservar a identidade [, segundo Lorde,] em seus v&#225;rios aspectos: como negra, como mulher, como l&#233;sbica, como m&#227;e". Ward cita um dos discursos de Lorde:</p><blockquote><p>Estou constantemente definindo meu "eu", pois sou, como todos n&#243;s, composta de muitas partes diferentes. Mas quando esses "eus" entram em guerra dentro de mim, fico imobilizada, e quando eles se movem em harmonia, ou com permiss&#227;o, sou enriquecida e fortalecida.</p></blockquote><p>Reunindo essas percep&#231;&#245;es de Lorde, Naess e Spinoza, podemos dizer que a crise clim&#225;tica prejudica seriamente nossa capacidade de autoexpress&#227;o. A degrada&#231;&#227;o do nosso senso de lugar e pertencimento dificulta a nossa realiza&#231;&#227;o como seres humanos. Cada vez mais, somos for&#231;adas a nos contentar com a seguran&#231;a das amea&#231;as imediatas representadas pela degrada&#231;&#227;o do meio ambiente. N&#227;o conseguimos sequer come&#231;ar a pensar em como nos preservar em todos os diversos aspectos de nossa exist&#234;ncia e, portanto, n&#227;o podemos realmente sobreviver. Em parte, &#233; por isso que a crise clim&#225;tica &#233; t&#227;o corrosiva para nosso senso de identidade: ela impede nossa capacidade de nos conhecermos.</p><p>A autorrealiza&#231;&#227;o implica uma unidade de a&#231;&#227;o e conhecimento: voc&#234; precisa se conhecer com precis&#227;o como parte de uma natureza vasta e interconectada e como algo mais do que um ego limitado. Depois de reconhecer isso, voc&#234; pode come&#231;ar a agir. Por outro lado, a falta de conhecimento (de n&#243;s mesmos, como concebidos em um todo maior) imobiliza e desmobiliza. Infelizmente, a crise clim&#225;tica &#233; sustentada por um enorme negacionismo. Esse negacionismo &#233; mais do que virarmos a cara como indiv&#237;duos. Ele &#233; financiado por elites ricas e empresas de combust&#237;veis f&#243;sseis em face da inescap&#225;vel degrada&#231;&#227;o clim&#225;tica. Como Bruno Latour escreve em <em>O&#249; atterir?</em> (2017) (ou <em>Down to Earth</em>, 2018):</p><blockquote><p>As elites ficaram t&#227;o convencidas de que n&#227;o haveria vida futura para todos que decidiram <em>se livrar de todos os fardos da solidariedade o mais r&#225;pido poss&#237;vel</em> &#8212; da&#237; a desregulamenta&#231;&#227;o; decidiram que uma esp&#233;cie de fortaleza dourada teria de ser constru&#237;da para aqueles (uma pequena porcentagem) que conseguiriam sobreviver &#8212; da&#237; a explos&#227;o das desigualdades; e decidiram que, para ocultar o ego&#237;smo grosseiro de tal fuga do mundo compartilhado, teriam de rejeitar (...) a mudan&#231;a clim&#225;tica [it&#225;lico do original].</p></blockquote><p>Os super-ricos apertaram o cerco &#224; democracia, criando t&#225;ticas de distra&#231;&#227;o politicamente motivadas, como culpar as chamadas "elites metropolitanas" (pessoas instru&#237;das) pela piora da situa&#231;&#227;o econ&#244;mica das pessoas da classe trabalhadora, ou apontar o dedo para os refugiados que chegam em barcos prec&#225;rios &#224;s costas dos pa&#237;ses ricos. A crise clim&#225;tica est&#225; por tr&#225;s de retrocessos nacionalistas nost&#225;lgicos de algum passado imagin&#225;rio, como o MAGA [&#8220;Fa&#231;a a Am&#233;rica ser grande de novo&#8220;, a campanha de Trump] e o Brexit.</p><p>Diferentemente de outros pensadores recentes, como Jason Stanley, Latour argumenta que esses movimentos s&#227;o apenas superficialmente parecidos com o fascismo do in&#237;cio do s&#233;culo XX. Em vez disso, eles representam uma nova ordem pol&#237;tica que se baseia na nega&#231;&#227;o da mudan&#231;a clim&#225;tica, em que as elites ricas buscam criar condom&#237;nios fechados e rotas de fuga por meio da desregulamenta&#231;&#227;o e da priva&#231;&#227;o de direitos. Enquanto isso, elas tentam (em v&#227;o) se realizar em coisas que, em &#250;ltima an&#225;lise, parecem insatisfat&#243;rias e vazias: superiates, viagens curtas ao espa&#231;o ou &#224;s profundezas do mar, e compra de ilhas inteiras.</p><p>Ao influenciar e subverter o processo democr&#225;tico, elas tentam incentivar a desregulamenta&#231;&#227;o para atrair cada vez mais recursos para si. Percebendo (em algum n&#237;vel) que isso n&#227;o &#233; sustent&#225;vel, elas se refugiam em fantasias cada vez mais remotas, como o TESCREAL (um pacote ideol&#243;gico de "ismos" [na sigla em ingl&#234;s]: transumanismo, extropianismo, singularitarismo, cosmismo, racionalismo, altru&#237;smo efetivo e "longo-prazismo"). Isso &#233; promovido por fil&#243;sofos da Universidade de Oxford, como Nick Bostrom, Hilary Greaves e William MacAskill. Eles preveem um futuro em que a humanidade se transformar&#225; em um estado p&#243;s-humano (facilitado pela chamada eugenia "liberal" e pela IA), colonizar&#225; o Universo acess&#237;vel e saquear&#225; nossos "direitos c&#243;smicos" de recursos para produzir quantidades astron&#244;micas &#8220;de coisas com valor" (para uma vis&#227;o geral, consulte o <a href="https://www.salon.com/2023/06/11/ai-and-the-of-human-extinction-what-are-the-tech-bros-worried-about-its-not-you-and-me/">recente ensaio de &#201;mile Torres</a> para a Salon).</p><p>A felicidade nesses futuros p&#243;s-humanos, a maioria dos quais seria digital, justifica a neglig&#234;ncia dos problemas atuais. "Para fins de avalia&#231;&#227;o de a&#231;&#245;es", escrevem Greaves e MacAskill, "podemos, em primeira inst&#226;ncia, simplesmente ignorar todos os efeitos contidos nos primeiros 100 (ou mesmo 1000) anos, concentrando-nos principalmente nos efeitos futuros. Os efeitos de curto prazo sendo pouco mais do que fatores menores". O mundo TESCREAL deixa pouco espa&#231;o para a diversidade de express&#245;es do ser humano: as formas contentes, vulner&#225;veis e diversas de ser, por exemplo, das comunidades ciganas, das sociedades ind&#237;genas e outras.</p><p>Por que as pessoas mais ricas procuram negar ativamente a crise clim&#225;tica em vez de enfrent&#225;-la? A fil&#243;sofa Beth Lord, com base em Spinoza, argumenta que elas est&#227;o sob o dom&#237;nio de emo&#231;&#245;es ruins. Normalmente, nossas emo&#231;&#245;es nos ajudam a buscar o que &#233; bom para n&#243;s e a evitar o que &#233; ruim. Temos tr&#234;s afetos b&#225;sicos: alegria, tristeza e desejo. O desejo &#233; uma express&#227;o do <em>conatus</em>: buscamos coisas que nos trazem alegria e evitamos coisas que nos trazem tristeza. Em geral, isso ajuda a nossa autopreserva&#231;&#227;o. Entretanto, devido &#224;s formas complexas com que nossas emo&#231;&#245;es se misturam, &#233; poss&#237;vel nos enganarmos e desejarmos coisas que realmente n&#227;o nos ajudam a nos realizarmos. Buscar prest&#237;gio, fama e riqueza parece que nos ajudar&#225; a nos realizarmos, mas, na verdade, somos dominados por elas e estamos sob seu poder.</p><p>Embora essas concep&#231;&#245;es err&#244;neas sejam proeminentes entre as elites mais ricas, n&#243;s as vemos em todos. O especialista em &#233;tica Eugene Chislenko argumenta que todos n&#243;s podemos ser, de certa forma, negadores da crise clim&#225;tica. N&#227;o que neguemos literalmente a exist&#234;ncia de uma crise clim&#225;tica ou que influenciemos pol&#237;ticas para alimentar o negacionismo, mas que viramos a cara, como uma pessoa em luto que percebe que algu&#233;m morreu, mas n&#227;o consegue integrar a perda em sua vida. Como escreve Chislenko: "Dizemos que &#233; real, mas raramente sentimos ou agimos como se fosse. Entramos em um site de reservas de passagens a&#233;reas para visitar um amigo no fim de semana; ainda achamos que um dia poderemos ver a Grande Barreira de Corais; n&#227;o temos planos que correspondam &#224; dimens&#227;o dessa mudan&#231;a".</p><p>E a raz&#227;o para isso &#233;, em parte, o fato de acharmos que enfrentar a crise clim&#225;tica exigiria sacrif&#237;cios substanciais de nossa parte, que parecem uma gota no oceano dada a dimens&#227;o do problema. Como escreve Naess: "quando as pessoas sentem que precisam abrir m&#227;o de seus interesses de forma altru&#237;sta, ou mesmo sacrific&#225;-los, para demonstrar amor pela natureza, isso provavelmente &#233;, a longo prazo, uma base trai&#231;oeira para a conserva&#231;&#227;o". Como, ent&#227;o, podemos sair dessa situa&#231;&#227;o de nega&#231;&#227;o coletiva?</p><p>Vimos agora o que &#233; a autorrealiza&#231;&#227;o e como ela est&#225; ligada ao conhecimento. Ao aumentarmos nosso conhecimento, aumentamos nosso poder. Por exemplo, saber que os agentes patog&#234;nicos causam doen&#231;as infecciosas levou a grandes avan&#231;os na preven&#231;&#227;o ou redu&#231;&#227;o da transmiss&#227;o por meio de vacinas. Da mesma forma, para podermos agir diante da crise clim&#225;tica, precisamos de conhecimento e, para isso, podemos nos inspirar diretamente na filosofia de Spinoza.</p><p>Spinoza viveu uma exist&#234;ncia muito frugal, sem propriedades, em quartos alugados, e tentou ficar longe da fama e dos holofotes. Ele recusou uma c&#225;tedra de prest&#237;gio na Universidade de Heidelberg e n&#227;o quis ser nomeado o &#250;nico herdeiro de um amigo, mesmo que isso o tornasse independentemente rico para o resto da vida, preferindo, em vez disso, lixar lentes para se sustentar. Portanto, ele n&#227;o achava que o florescimento ou, em sua terminologia, a "bem-aventuran&#231;a" (latim: <em>beatitudo</em>) pudesse ser encontrada na riqueza material e na fama. Em vez disso, seu trabalho como polidor de lentes oferecia mais oportunidades de autorrealiza&#231;&#227;o, porque o tornava parte da comunidade interconectada e emergente dos primeiros cientistas no in&#237;cio da revolu&#231;&#227;o cient&#237;fica, muitos dos quais usavam lentes em seus telesc&#243;pios e microsc&#243;pios.</p><p>Embora Spinoza n&#227;o visse a bem-aventuran&#231;a na riqueza deste mundo, ele tamb&#233;m n&#227;o acreditava que ela pudesse ser encontrada em uma vida ap&#243;s a morte. No s&#233;culo XVII, as pessoas geralmente acreditavam que era poss&#237;vel alcan&#231;ar a bem-aventuran&#231;a ap&#243;s a morte se seguissem as normas morais e se abstivessem voluntariamente de certos prazeres durante a vida. Entretanto, a vis&#227;o radical de Spinoza &#233; que voc&#234; pode alcan&#231;ar a bem-aventuran&#231;a nesta vida. Como ele escreve:</p><blockquote><p>A bem-aventuran&#231;a n&#227;o &#233; a recompensa da virtude, mas a pr&#243;pria virtude; nem a desfrutamos porque restringimos nossas cobi&#231;as; ao contr&#225;rio, porque a desfrutamos, somos capazes de restringi-las.</p></blockquote><p>A no&#231;&#227;o de bem-aventuran&#231;a est&#225; intimamente ligada &#224; vis&#227;o de Spinoza sobre a autorrealiza&#231;&#227;o. Lembre-se de que Spinoza v&#234; Deus como a natureza. A autorrealiza&#231;&#227;o exige que compreendamos com precis&#227;o a n&#243;s mesmos como modos de Deus e, assim, passemos a am&#225;-Lo. Mas o que implica esse entendimento preciso? Uma interpreta&#231;&#227;o recente &#233; oferecida por Alex X Douglas em seu livro sobre o assunto, <em>The Philosophy of Hope</em> (2023). Para Spinoza, a bem-aventuran&#231;a &#233; uma esp&#233;cie de repouso da alma ou entrega mental. Ela surge do amor intelectual por Deus ou pela natureza. Para Spinoza, o conhecimento aumenta nosso poder e, portanto, nossa autopreserva&#231;&#227;o, por meio do conhecimento. Se nossas emo&#231;&#245;es nos enganam (como quando buscamos prest&#237;gio ou fama), na verdade diminu&#237;mos nossa autopreserva&#231;&#227;o porque somos for&#231;ados a servir a bens externos. O conhecimento mais elevado que podemos esperar alcan&#231;ar &#233; o conhecimento do Universo como um todo. Esse conhecimento tamb&#233;m &#233; o conhecimento do eu, porque cada um de n&#243;s &#233; uma express&#227;o (modo) de Deus. Douglas esclarece que isso n&#227;o significa que somos partes de Deus, como pe&#231;as de um quebra-cabe&#231;a. Em vez disso, cada um de n&#243;s &#8212; uma lib&#233;lula individual, uma rosa, uma montanha ou uma nuvem &#8212; "expressa o todo, em sua pr&#243;pria maneira particular".</p><p>Quando voc&#234; percebe que &#233; uma express&#227;o de toda a natureza, passa a perceber que, embora morra, tamb&#233;m &#233; eterna em um sentido n&#227;o trivial, pois a &#250;nica subst&#226;ncia da qual &#233; uma express&#227;o perdurar&#225;. Spinoza tamb&#233;m faz a forte afirma&#231;&#227;o de que, se somos racionais, n&#227;o podemos deixar de amar a Deus. &#201; a coisa racional a se fazer, porque o amor a Deus surge espont&#226;nea e naturalmente de uma compreens&#227;o precisa de n&#243;s mesmos e do mundo. Quando voc&#234; se d&#225; conta disso, realiza a bem-aventuran&#231;a.</p><p>Como vimos, Spinoza diz que o florescimento ou a bem-aventuran&#231;a n&#227;o &#233; a recompensa da virtude, mas a pr&#243;pria virtude. Quando alcan&#231;amos isso, n&#227;o precisamos mais restringir nossos desejos, pois eles se dissipar&#227;o quando alcan&#231;armos essa unidade cognitiva com o resto da natureza. Toda essa conversa sobre moderar as paix&#245;es pode parecer moralista e antiquada, mas Spinoza traz &#224; tona um ponto importante, ou seja, o fato de que se envolver em atividades como o "turismo de &#250;ltima chance" &#8212; visitar lugares na Terra que logo desaparecer&#227;o devido &#224; crise clim&#225;tica &#8212; ou a explora&#231;&#227;o de &#225;guas profundas por divers&#227;o &#233;, em &#250;ltima an&#225;lise, autodestrutivo. Da mesma forma, podemos achar que renunciar ao bife ou deixar de viajar de avi&#227;o, para participar de confer&#234;ncias frequentes ou por prazer, pode ser uma autorrestri&#231;&#227;o.</p><p>Mas, quando nos entendermos como eus ecol&#243;gicos e compreendermos como fazemos parte de ecossistemas grandes e fr&#225;geis e do planeta, isso nos far&#225; sentir como se estiv&#233;ssemos preservando nosso eu expandido, em vez de nos restringirmos. Como explica Spinoza em seu <em>Breve Tratado sobre Deus, o Homem e seu Bem-Estar</em> (c1660), "uma vez que descobrimos que a busca de prazeres sensuais, lux&#250;rias e coisas mundanas n&#227;o leva &#224; nossa salva&#231;&#227;o, mas &#224; nossa destrui&#231;&#227;o, preferimos, portanto, ser governados por nosso intelecto". Paradoxalmente, subestimamos a riqueza de nosso ser ecol&#243;gico. N&#227;o nos damos cr&#233;dito suficiente sobre como somos capazes de obter contentamento e bem-estar genu&#237;nos de prazeres simples que n&#227;o envolvem a destrui&#231;&#227;o do planeta. Em vez disso, achamos que precisamos de coisas caras e com infraestrutura pesada para nos fazer felizes, sendo que a felicidade est&#225; sempre logo ali na esquina.</p><p>A autorrealiza&#231;&#227;o aumenta nosso poder. Como vimos, corremos atr&#225;s de coisas que imaginamos que nos trar&#227;o alegria, como riqueza e prest&#237;gio, mas que diminuem nosso poder, porque nos t&#234;m como ref&#233;ns. A alegria ativa, em um sentido spinozista, &#233; uma compreens&#227;o intelectual de si mesmo e de seu relacionamento com o mundo. Um exemplo disso &#233; o trabalho de Shamayim Harris. Quando seu filho de dois anos, Jakobi Ra, foi morto em um atropelamento e fuga, ela resolveu transformar seu bairro p&#243;s-industrial de Detroit, em ru&#237;nas, em uma vila vibrante: "Eu precisava (...) transformar o luto em gl&#243;ria, a dor em poder". Comprando casas por alguns milhares de d&#243;lares, ela transformou a &#225;rea na ecol&#243;gica Avalon Village, com uma biblioteca, energia solar, laborat&#243;rios STEM, um est&#250;dio de m&#250;sica, estufas de produ&#231;&#227;o agr&#237;cola e muito mais. Essas comunidades resilientes, que podem ser percorridas a p&#233; e que favorecem as crian&#231;as oferecem uma grande oportunidade para a autorrealiza&#231;&#227;o. Em um senso naessiano significativo, Harris criou um lar para si mesma e para os outros. A ecosofia de Naess tem tudo a ver com lar, mas em um sentido ambiental e ecol&#243;gico mais amplo, em que a autorrealiza&#231;&#227;o &#233; a norma suprema.</p><p>A autorrealiza&#231;&#227;o tem uma beleza. Por meio de uma conduta s&#225;bia e racional, ser&#237;amos capazes de encontrar uma nova cidadania, um modo de estar na natureza, uma polis que tamb&#233;m inclui animais e plantas n&#227;o humanas. Esse modo de ser aumentaria nosso poder de a&#231;&#227;o e responderia ao nosso desejo de autorrealiza&#231;&#227;o.</p><p>N&#227;o h&#225; uma maneira definida de sermos. N&#227;o h&#225; nem mesmo um ideal para o qual os humanos devam evoluir, como no universo TESCREAL. A natureza n&#227;o tem uma teleologia final. Somos importantes como somos agora, n&#227;o (apenas ou principalmente) como hip&#243;teses futuras, e podemos imaginar um mundo em que humanos, animais, plantas, e tamb&#233;m montanhas e rios, tenham suas pr&#243;prias identidades multifacetadas e existam em comunidade umas com as outras. Esse mundo pode abrigar a diversidade de pensamento e express&#227;o. Nossa sa&#237;da para a crise clim&#225;tica deve, portanto, come&#231;ar por uma reconceitualiza&#231;&#227;o de n&#243;s mesmas como seres ecol&#243;gicos e interconectados.</p><p>A autorrealiza&#231;&#227;o, conforme concebida por Naess, Spinoza e Lorde, &#233;, no fundo, uma vis&#227;o contente e afirmativa. Ela n&#227;o parte da premissa de que a vida &#233; inerentemente cheia de sofrimento. Quando alcan&#231;amos a autorrealiza&#231;&#227;o, viver bem se torna f&#225;cil devido &#224; unidade da bem-aventuran&#231;a e da virtude. Entretanto, &#233; dif&#237;cil alcan&#231;&#225;-la devido ao nosso negacionismo clim&#225;tico coletivo. N&#227;o &#233; que um dia acordaremos e nos tornaremos autorrealizados. Precisamos alcan&#231;ar essa mudan&#231;a de perspectiva e reconhecer que somos seres interconectados que s&#243; podem florescer com o resto da natureza. Talvez seja apropriado terminar com as linhas finais da <em>&#201;tica</em> de Spinoza:</p><blockquote><p>Se o caminho que mostrei para chegar a essas coisas agora parece muito dif&#237;cil, ainda assim ele pode ser encontrado. E, &#233; claro, o que &#233; encontrado t&#227;o raramente deve ser dif&#237;cil. Pois se a salva&#231;&#227;o estivesse &#224; m&#227;o e pudesse ser encontrada sem grande esfor&#231;o, como quase todo mundo poderia negligenci&#225;-la? Mas todas as coisas excelentes s&#227;o t&#227;o dif&#237;ceis quanto raras.</p></blockquote><div><hr></div><p><em>Agradecimentos a &#201;mile Torres, Bryce Huebner, Johan De Smedt, Oscar Westerblad, Phyllis Gould, David Johnson e Ivan Gayton pelos coment&#225;rios de um rascunho pr&#233;vio.</em></p><p><em>Editado por Sam Dresser.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A árvore generosa]]></title><description><![CDATA[Uma &#225;rvore &#233; algo maravilhoso que abriga, nutre e protege todas as coisas vivas.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/a-arvore-generosa</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/a-arvore-generosa</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 31 Jul 2023 20:54:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1jH0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F52d43c5d-bbfc-40b4-8780-7de3a7605f07_830x553.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1jH0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F52d43c5d-bbfc-40b4-8780-7de3a7605f07_830x553.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1jH0!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F52d43c5d-bbfc-40b4-8780-7de3a7605f07_830x553.jpeg 424w, 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Ela oferece sombra at&#233; para os homens com machados que a destroem. </p></blockquote><p><strong>Buda</strong>, citado por <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/04/cultura/1559660089_886561.html">Richard Powers</a> no livro <em><a href="https://www.richardpowers.net/the-overstory/">The Overstory</a>.</em></p><p>Esse &#233; o melhor livro de fic&#231;&#227;o que j&#225; li sobre meio ambiente e tamb&#233;m um dos melhores em qualquer g&#234;nero. Apesar das personagens serem pessoas, h&#225; uma vasta e quase inconceb&#237;vel protagonista que vai sendo descoberta, se entrela&#231;ando em todas as hist&#243;rias, unindo-as e concedendo um significado mais que especial a elas. Ao final, a sensa&#231;&#227;o sem igual &#233; de realmente termos chegado perto do significado grandioso da natureza.</p><p>Infelizmente ainda n&#227;o tem tradu&#231;&#227;o em portugu&#234;s. Mas por ser t&#227;o amado e consagrado (n&#227;o s&#243; &#233; um bestseller, mas ganhou o pr&#234;mio Pullitzer em 2019), logo mais deve ser lan&#231;ado por aqui. Vi tamb&#233;m que a Netflix est&#225; produzindo uma s&#233;rie baseada no livro, com os mesmos produtores de <em>Game of Thrones.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Utopia, não futurismo: por que realizar o impossível é a coisa mais racional que podemos fazer]]></title><description><![CDATA[Esta palestra de Murray Bookchin de 1978 continua extremamente relevante hoje]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/utopia-nao-futurismo-por-que-realizar</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/utopia-nao-futurismo-por-que-realizar</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Jul 2023 15:05:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VlvY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68564387-edee-47e2-b93f-362b7326d08d_967x588.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VlvY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68564387-edee-47e2-b93f-362b7326d08d_967x588.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VlvY!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68564387-edee-47e2-b93f-362b7326d08d_967x588.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VlvY!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68564387-edee-47e2-b93f-362b7326d08d_967x588.jpeg 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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tecnologias em si). Sua cr&#237;tica, al&#233;m de atingir a direita olig&#225;rquica, tamb&#233;m n&#227;o poupa as ideias mais comuns da esquerda socialista.</p><p>Sua proposta &#233; uma utopia de auto-organiza&#231;&#227;o da sociedade de modo descentralizado e harm&#244;nico, que desenvolveu e aprofundou em diversos livros.</p><p>Em rela&#231;&#227;o ao modo de pensar tecnocr&#225;tico com verniz ecol&#243;gico, nessa palestra, ele critica frequentemente a ideia da Terra como sendo uma nave espacial. Na &#233;poca, essa era uma ideia bastante difundida mesmo entre a vanguarda da "sustentabilidade" e, apesar de hoje n&#227;o ouvirmos falar tanto disso, o sentido subjacente, que &#233; o da natureza como uma m&#225;quina (com todos seus desdobramentos), continua prevalecendo.</p><div><hr></div><p><em>Palestra de 24 de agosto de 1978, na Toward Tomorrow Fair, em Massachusetts, EUA. Editado e publicado no site <a href="https://unevenearth.org/2019/10/bookchin_doing_the_impossible/">Uneven Earth</a>, em 2019.</em></p><p><strong>por Murray Bookchin</strong></p><p>Esta manh&#227;, &#224;s onze horas, tentei explicar a voc&#234;s por que eu n&#227;o fui um ambientalista, mas sim um ecologista. E tentei dar-lhes uma ideia, pelo menos do meu ponto de vista, do que significava ecologia, diferentemente de ambientalismo. O ponto que tentei enfatizar mais fundamentalmente &#233; que o ambientalismo tenta consertar as coisas, aplica band-aids e cosm&#233;ticos ao meio ambiente. Ele meio que se apodera da natureza, acaricia-a e diz: "Produza!" Ele tenta usar o solo, despejar produtos qu&#237;micos nele e, se ao menos eles n&#227;o fossem venenosos, tudo estaria &#243;timo. J&#225; a ecologia acredita em uma harmoniza&#231;&#227;o genu&#237;na da humanidade com a natureza. E essa harmoniza&#231;&#227;o da humanidade com a natureza depende fundamentalmente da harmoniza&#231;&#227;o dos seres humanos entre si. A atitude que temos tido com rela&#231;&#227;o &#224; natureza sempre dependeu da atitude que temos uns com os outros. N&#227;o vamos nos enganar, n&#227;o existe uma "natureza pura".</p><p>O simples fato agora &#233; que n&#227;o apenas n&#227;o sou um ambientalista, mas tamb&#233;m tenho uma not&#237;cia quente: n&#227;o sou um futurista. N&#227;o sou um futurista de forma alguma. Sou um utopista. Quero ver essa palavra reavivada. Quero que a usemos. Quero que pensemos em utopia. N&#227;o pensar em futurismo. E &#233; sobre essas quest&#245;es que eu gostaria de falar, se me permitem.</p><h2>O que &#233; futurismo?</h2><p>O que &#233; futurismo? Futurismo &#233; o presente como ele existe hoje, projetado para daqui a cem anos. &#201; isso que &#233; o futurismo. Se voc&#234; tem uma popula&#231;&#227;o de X bilh&#245;es de pessoas, como vai ter comida, como vai fazer isso... nada muda. Tudo o que fazem &#233; tornar tudo maior ou mudar o tamanho &#8212; voc&#234; viver&#225; em pr&#233;dios de trinta andares, viver&#225; em pr&#233;dios de sessenta andares. Frank Lloyd Wright ia construir um pr&#233;dio de escrit&#243;rios com um quil&#244;metro de altura. Isso era futurismo.</p><p>O fato &#233; que eu simplesmente n&#227;o acredito que tenhamos de estender o presente para o futuro. Temos que mudar o presente para que o futuro seja muito, muito diferente do que &#233; hoje. Essa &#233; uma no&#231;&#227;o extremamente importante a ser transmitida. Portanto, h&#225; muitas pessoas andando por a&#237; hoje que parecem muito idealistas. E o que elas querem fazer? Elas querem que as corpora&#231;&#245;es multinacionais se tornem corpora&#231;&#245;es multic&#243;smicas [<em>risos da plateia</em>] &#8212; literalmente!</p><p>Eles querem lev&#225;-las para o espa&#231;o, querem colonizar a Lua, mal podem esperar para ir a J&#250;piter, muito menos a Marte. Eles est&#227;o todos muito ocupados, est&#227;o chegando, t&#234;m at&#233; cabelos compridos e barba, e chegam e dizem: "Ah, mal posso esperar para entrar no meu primeiro &#244;nibus espacial!" &#8212; esse &#233; o futuro.</p><p>Isso &#233; visto como ecologia e n&#227;o &#233; ecologia. &#201; futurismo! &#201; o que a Exxon quer fazer. &#201; o que o Chase Manhattan quer fazer. &#201; o que todas as corpora&#231;&#245;es querem fazer. Mas n&#227;o &#233; utopia, &#233; puro futurismo. &#201; o presente estendido para o futuro.</p><p>H&#225; uma sociedade de massa, e como mantemos contato uns com os outros? N&#227;o precisamos nem olhar uns para os outros. Olharemos para as telas de televis&#227;o. Apertarei um bot&#227;o, verei voc&#234; na tela da televis&#227;o, voc&#234; estar&#225; em Marte, pelo que sei, e teremos uma conversa maravilhosa um com o outro, e diremos: "Nossa! Temos uma tecnologia alternativa!" A quest&#227;o &#233; que n&#227;o se trata de uma tecnologia libert&#225;ria. Posso conhecer pessoas no futuro por anos e anos &#8212; jogar xadrez com elas, ter conversas intelectuais interessantes com elas &#8212; e nunca toc&#225;-las. Se &#233; assim que o futuro ser&#225;, fico feliz por ter cinquenta e sete anos e n&#227;o ter muito tempo pela frente. Eu n&#227;o quero isso. [<em>risos</em>] Estou falando muito s&#233;rio.</p><h2>Ideologia tecnocrata</h2><p>Agora gostaria de tocar em alguns nervos. N&#227;o acredito que a Terra seja uma nave espacial. Estou pedindo que pensem no que significa pensar na Terra como uma nave espacial. Ela n&#227;o tem v&#225;lvulas. N&#227;o tem todos os tipos de equipamentos de radar para gui&#225;-la. N&#227;o &#233; movida por foguetes. Ela n&#227;o tem nenhum encanamento. Talvez tenhamos encanamento. Mas ela n&#227;o &#233; "uma nave espacial". &#201; uma coisa org&#226;nica e viva, em grande parte, pelo menos em sua superf&#237;cie, constru&#237;da com material inorg&#226;nico. Est&#225; em processo de crescimento e desenvolvimento. N&#227;o &#233; "uma nave espacial".</p><p>Estamos come&#231;ando a desenvolver uma linguagem que n&#227;o tem nada em comum com a ecologia. Ela tem muito a ver com eletr&#244;nica. Falamos de "input"."D&#234;-me seu input. Conecte!" [<em>risos</em>] Bem, eu n&#227;o "conecto", eu converso [<em>aplausos</em>]. As m&#225;quinas se conectam. O radar &#233; a linguagem que o produziu e foi a linguagem militar que produziu a palavra "conecte" ("plug in").</p><p>"D&#234;-me seu input". N&#227;o &#233; isso que eu quero. N&#227;o quero seu output, quero voc&#234;. Quero ouvir suas palavras. Quero ouvir sua linguagem. N&#227;o estou engajado em um "feedback" com voc&#234; [<em>risos</em>], estou engajado em um di&#225;logo, uma conversa. N&#227;o &#233; o seu "feedback" que eu quero, quero sua opini&#227;o. Quero saber o que voc&#234; pensa. N&#227;o quero ter um circuito conectado a mim em que eu possa receber seu "feedback" e voc&#234; possa receber meu "input". [<em>risos</em>]</p><p>Por favor, estou fazendo um apelo aqui, e se voc&#234; acha que estou falando de linguagem, acho que est&#225; enganado. N&#227;o estou falando de linguagem, estou falando de sensibilidade. Uma planta n&#227;o tem "input" ou "output". Ela faz algo para o qual a eletr&#244;nica n&#227;o tem absolutamente nenhuma linguagem &#8212; ela cresce! Ela cresce! [<em>aplausos</em>]. E deixe-me dizer outra coisa, ela n&#227;o apenas cresce, ela faz mais do que mudar; ela se desenvolve. Temos um grande problema com todas essas palavras que refletem uma maneira de pensar, e &#233; isso que me incomoda.</p><p>Essa &#233; a sensibilidade do futurismo. &#201; a linguagem do futurismo, na qual as pr&#243;prias pessoas s&#227;o molecularizadas e depois atomizadas e, por fim, reduzidas a part&#237;culas subat&#244;micas, e o que realmente temos em termos de ecossistema n&#227;o &#233; crescimento nem desenvolvimento, o que temos &#233; encanamento. N&#243;s gastamos quilocalorias no ecossistema. E ligamos as v&#225;lvulas aqui e desligamos as v&#225;lvulas ali.</p><p>Agora, isso pode ser &#250;til, n&#227;o nego isso. Devemos saber como a energia se move em um ecossistema. Mas isso, por si s&#243;, n&#227;o &#233; um ecossistema. Estamos come&#231;ando a aprender que as plantas t&#234;m vida pr&#243;pria e interagem umas com as outras. Que existem mecanismos sutis que n&#227;o podemos realmente entender. Elas n&#227;o podem ser reduzidas a energia, n&#227;o podem ser reduzidas a quilocalorias, temos que olhar para elas de um ponto de vista diferente. Temos que v&#234;-las como vida, diferenciando-as do que n&#227;o &#233; vivo, e mesmo essa distin&#231;&#227;o n&#227;o &#233; t&#227;o n&#237;tida e clara como muitas pessoas pensam.</p><p>Portanto, essa &#233; a linguagem do futurismo e a linguagem da eletr&#244;nica, que reflete uma sensibilidade muito distinta, que me incomoda muito, muito mesmo. N&#227;o &#233; ut&#243;pica &#8212; e falarei disso mais tarde &#8212; &#233; a linguagem da manipula&#231;&#227;o. &#201; a linguagem da sociedade de massa. A maioria dos futuristas come&#231;a com a ideia: "Voc&#234; tem um shopping center, o que voc&#234; faz ent&#227;o?" Bem, a primeira pergunta que teria de ser feita &#233;: "Por que diabos voc&#234; tem um shopping center?&#8221; [<em>risos</em>] Essa &#233; a verdadeira pergunta que deve ser feita. N&#227;o &#233; "e se" voc&#234; tiver um shopping center, o que fazer depois.</p><p>L&#225; fora, na grande e vasta dist&#226;ncia &#8212; que as pessoas acham que dever&#237;amos colonizar, indo em naves espaciais, ou que de alguma forma dever&#237;amos nos relacionar com o universo distante e ouvir as estrelas &#8212;, mas ainda n&#227;o come&#231;amos nem a ouvir nossos pr&#243;prios sentimentos.</p><p>Nem sequer come&#231;amos a ouvir nossa pr&#243;pria localidade. Este planeta est&#225; sendo arruinado, e as pessoas est&#227;o falando de meios de projetar plataformas espaciais l&#225; fora, falando de uma aldeia global, quando, para come&#231;ar, n&#227;o temos "aldeias" em nenhum lugar deste planeta. N&#227;o as temos. N&#227;o temos vilas, n&#227;o temos comunidades, vivemos em um estado de atomiza&#231;&#227;o e esperamos nos comunicar eletronicamente uns com os outros por meio de vilas globais.</p><p>Isso me incomoda porque pode ser boa f&#237;sica, pode ter boa mec&#226;nica, pode ser uma boa din&#226;mica, pode ser qualquer coisa que voc&#234; queira, mas n&#227;o &#233; ecologia. N&#227;o &#233; ecologia.</p><h2>O que &#233; ecologia?</h2><p>O erro mais fundamental come&#231;a com a ideia de que as coisas mudam. Agora, voc&#234; sabe, mudar pode significar algo ou pode n&#227;o significar nada. Se eu me afastar daqui e andar um metro e meio, eu "passei por uma mudan&#231;a". Eu me afastei um metro e meio, mas n&#227;o fiz nada no que me diz respeito, ou no que diz respeito a voc&#234;. N&#227;o &#233; com a "mudan&#231;a" que estou preocupado. O que me preocupa &#233; o desenvolvimento, o crescimento. N&#227;o me refiro ao crescimento no sentido comercial, mas ao crescimento da potencialidade humana, ao crescimento do esp&#237;rito humano. Refiro-me ao crescimento do contato humano. Isso &#233; ecol&#243;gico. Desenvolver &#233; o que &#233; realmente ecol&#243;gico. Mudar pode significar qualquer coisa. A quest&#227;o &#233;: qual &#233; o fim para o qual voc&#234; quer se desenvolver? Qual &#233; o objetivo que voc&#234; est&#225; tentando alcan&#231;ar e, depois, se voc&#234; se desenvolveu ou n&#227;o at&#233; esse objetivo. Portanto, o mero input, output e feedback, o mero movimento, n&#227;o significam nada &#8212; o verdadeiro problema &#233; a discuss&#227;o e o di&#225;logo, o reconhecimento da personalidade, o crescimento e o desenvolvimento, que &#233; o que interessa &#224; biologia. Ela n&#227;o se preocupa apenas com a mudan&#231;a.</p><p>Por fim, &#233; preciso deixar bem claro que se voc&#234; acredita que a Terra &#233; uma nave espacial, ent&#227;o voc&#234; acredita que o mundo &#233; um rel&#243;gio. Voc&#234; e Sir Isaac Newton concordam perfeitamente, o mundo &#233; um rel&#243;gio, assim como uma nave espacial &#233; um monte de encanamentos com muitos foguetes, com muitos mostradores, com muitos pilotos e todo o resto. E se voc&#234; ainda acredita que a beleza da mudan&#231;a, hoje, &#233; poder se deslocar para todos os lados em um helic&#243;ptero, que pegar&#225; sua c&#250;pula geod&#233;sica, ou usar algum tipo de comunica&#231;&#227;o eletr&#244;nica para se relacionar com algu&#233;m que est&#225; a tr&#234;s mil milhas de dist&#226;ncia, que voc&#234; talvez nunca veja, ent&#227;o n&#227;o estamos mudando nada, no sentido de desenvolvimento, estamos piorando as coisas, e piorando o tempo todo. E essa &#233; uma quest&#227;o que tamb&#233;m me preocupa muito.</p><p>A ecologia &#8212; ecologia social &#8212; deve come&#231;ar com o amor pelo lugar. Deve haver um lar. "Oikos" = lar; ecologia = o estudo do lar. Se n&#227;o tivermos um lar &#8212; e esse lar n&#227;o for uma comunidade org&#226;nica e rica &#8212;, se n&#227;o conhecermos a terra em que vivemos, se n&#227;o entendermos seu solo, se n&#227;o entendermos as pessoas com quem vivemos, se n&#227;o conseguirmos nos relacionar com elas, ent&#227;o, nesse ponto espec&#237;fico, estaremos realmente em uma nave espacial. Estamos realmente em um vazio.</p><p>A ecologia deve come&#231;ar com uma compreens&#227;o muito profunda da intera&#231;&#227;o entre as pessoas e a intera&#231;&#227;o entre as pessoas e o ecossistema imediato em que vivemos. De onde voc&#234; vem, o que voc&#234; ama, qual &#233; a terra que voc&#234; ama. N&#227;o me refiro ao pa&#237;s ou ao estado, estou falando da terra que voc&#234; ocupa. Pode at&#233; ser um vilarejo, pode ser uma cidade, pode ser uma fazenda.</p><p>Mas, acima de tudo, sem essas ra&#237;zes que o colocam na natureza, e em uma forma espec&#237;fica de natureza, &#233; um engano falar sobre unidade c&#243;smica, &#233; um engano falar sobre naves espaciais, &#233; um engano at&#233; mesmo falar sobre ecossistemas sem ter esse senso de unidade com seu local imediato, com seu solo, com sua comunidade, com seu lar. Sem essa comunidade e sem esse senso de lar, sem esse senso do org&#226;nico &#8212; do org&#226;nico e do desenvolvimento, em vez do mero inorg&#226;nico e da "mudan&#231;a" em que voc&#234; simplesmente muda de lugar &#8212; voc&#234; n&#227;o est&#225; mudando nada, os problemas s&#227;o apenas ampliados ou diminu&#237;dos, mas continuam sendo os mesmos problemas.</p><h2>O que n&#227;o &#233; ecologia?</h2><p>&#201; por essa raz&#227;o que o futurismo hoje desempenha um papel cada vez mais reacion&#225;rio, porque trabalha com o preconceito de que o que voc&#234; tem &#233; dado. Voc&#234; tem que assumir o que existe hoje, extrapolar para o futuro e fazer um jogo de n&#250;meros. E, ent&#227;o, voc&#234; sai por a&#237; e manipula logisticamente aqui e ali, e impl&#237;cita em tudo isso est&#225; a ideia de que voc&#234;s s&#227;o coisas a serem manipuladas. H&#225; todos os tipos de t&#233;cnicos que decidir&#227;o, por meio de seus conhecimentos de eletr&#244;nica, por meio de seu "know-how", por meio de seu "feedback" e de seu "input", para onde voc&#234; vai, o que voc&#234; deve fazer: e isso est&#225; se tornando um problema muito s&#233;rio hoje em dia, especialmente quando &#233; confundido com ecologia, baseada no org&#226;nico, no crescimento, no desenvolvimento como indiv&#237;duo, como comunidade e como lugar.</p><p>Finalmente, chega-se ao jogo de n&#250;meros mais sinistro de todos: quem deve viver e quem deve morrer. O "jogo da popula&#231;&#227;o". A aterrorizante &#233;tica do bote salva-vidas, na qual agora, em nome da ecologia, est&#227;o sendo propostas vis&#245;es que s&#227;o quase indistingu&#237;veis do fascismo alem&#227;o. H&#225; pessoas que s&#227;o obrigadas a se afogar e que, por acaso, vivem na &#205;ndia. Convenientemente, eles t&#234;m pele negra ou escura, e voc&#234; pode identific&#225;-los. E h&#225; aqueles que ocupam outro bote salva-vidas, que se chama Am&#233;rica do Norte. E nesse bote salva-vidas, voc&#234; tem de conservar o que tem, entende?</p><p>Voc&#234; tem de estar preparado para desenvolver uma &#233;tica, tem de estar preparado para desenvolver a resist&#234;ncia para ver as pessoas morrerem. &#201; claro que voc&#234; se arrepender&#225;, mas com recursos escassos e popula&#231;&#227;o crescente, o que voc&#234; pode fazer? Em vez de tentar descobrir o que havia de errado com o navio que o fez afundar e em vez de tentar construir um navio que possibilite que todos n&#243;s compartilhemos o mundo, voc&#234; entra em um bote salva-vidas, assim como entra em uma nave espacial e, nesse ponto espec&#237;fico, que se dane o mundo. E essa &#233; uma ideologia muito sinistra.</p><p>Falo como algu&#233;m que vem da d&#233;cada de 30 e se lembra, de forma muito dram&#225;tica, que havia a ecologia demogr&#225;fica, se preferirem, na Alemanha, n&#227;o diferente de algumas das ecologias demogr&#225;ficas que tenho testemunhado hoje. Lembrem-se bem de que as implica&#231;&#245;es de algumas dessas concep&#231;&#245;es s&#227;o extremamente totalit&#225;rias, extremamente antiecol&#243;gicas, extremamente inorg&#226;nicas e tendem, no m&#237;nimo, a promover uma vis&#227;o totalit&#225;ria do futuro em que n&#227;o h&#225; escala humana, em que n&#227;o h&#225; controle humano.</p><p>Outra coisa que me incomoda muito &#233; a enorme extens&#227;o em que a ecologia social ou os problemas ecol&#243;gicos s&#227;o reduzidos simplesmente a problemas tecnol&#243;gicos. Isso &#233; rid&#237;culo. &#201; um absurdo. A f&#225;brica &#233; um local onde as pessoas s&#227;o controladas, quer construam coletores solares ou n&#227;o. Isso n&#227;o faz diferen&#231;a.[<em>aplausos</em>] L&#225; existir&#227;o as mesmas rela&#231;&#245;es que existem em qualquer outra circunst&#226;ncia de domina&#231;&#227;o. Se "casa" significa que as mulheres cuidam da lou&#231;a e os homens saem e fazem o trabalho masculino, como fazer a guerra, limpar o planeta e reduzir a popula&#231;&#227;o, aonde chegamos? Nada mudou. Como ser&#225; a apar&#234;ncia de uma "nave espacial" na Terra? O que ela ser&#225;? Quem ser&#225; o general que dar&#225; as ordens, quem ser&#225; o navegador que decidir&#225; em que dire&#231;&#227;o a "nave espacial" ir&#225;?</p><p>Tenha em mente quais s&#227;o as implica&#231;&#245;es dessas coisas. Se as pessoas moram em cidades com uma milha de altura, como diabos voc&#234;s poder&#227;o se conhecer? Como voc&#234; pode sentir a terra em que vive, se a paisagem que voc&#234; v&#234; vai at&#233; um horizonte a vinte, trinta, quarenta milhas de dist&#226;ncia? No topo do World Trade Center, n&#227;o sinto nada por Nova York. Se eu fosse um produto comum e simples da For&#231;a A&#233;rea dos Estados Unidos e recebesse uma ordem do World Trade Center, l&#225; no alto, para bombardear Manhattan, olhando para baixo, eu n&#227;o veria nada. Eu apertaria o bot&#227;o e isso n&#227;o teria sentido. A grande bomba, o grande clar&#227;o, a grande nuvem subiriam. Isso n&#227;o teria nenhum significado para mim. L&#225; embaixo no ch&#227;o, quando olho para o Empire State Building ou para o World Trade Center, sinto-me oprimido. Sinto que fui reduzido a uma formiga humilde. Come&#231;o a sentir a demanda por um ambiente que eu possa controlar. Que eu possa come&#231;ar a entender. Mas quando vejo as plantas crescendo ao meu redor, quando vejo a vida existindo ao meu redor &#8212; vida humana, vida animal de todas as suas diferentes formas, flora &#8212; ent&#227;o posso me identificar. Esta &#233; a minha terra.</p><h2>Pensar humano</h2><p>O que temos de fazer n&#227;o &#233; apenas "pensar pequeno" [<em>refer&#234;ncia a um livro de sucesso na &#233;poca</em>], temos de pensar humano. Pequeno n&#227;o &#233; suficiente. O que conta &#233; o que &#233; humano, n&#227;o apenas o que &#233; pequeno. O que &#233; belo s&#227;o as pessoas, o que &#233; belo s&#227;o os ecossistemas e sua integridade nos quais vivemos. O que &#233; belo &#233; o solo que compartilhamos com o resto do mundo da vida. E, particularmente, aquele peda&#231;o especial de solo no qual sentimos que temos algum grau de responsabilidade.</p><p>N&#227;o &#233; apenas o que &#233; pequeno que &#233; belo, &#233; o que &#233; ecol&#243;gico que &#233; belo, o que &#233; humano &#233; belo.</p><p>O importante n&#227;o &#233; apenas que a tecnologia seja apropriada. Como j&#225; disse antes: a Comiss&#227;o de Energia At&#244;mica est&#225; absolutamente convencida de que as usinas nucleares s&#227;o uma tecnologia apropriada &#8212; para a Comiss&#227;o de Energia At&#244;mica. Os bombardeiros B1 s&#227;o uma tecnologia muito apropriada para a For&#231;a A&#233;rea.</p><p>O que me preocupa &#233;, novamente, o que &#233; libert&#225;rio, o que &#233; ecol&#243;gico. Temos de trazer essas palavras carregadas de valor e temos de trazer esses conceitos carregados de valor para o nosso pensamento, ou ent&#227;o nos tornaremos meros f&#237;sicos, lidando com mat&#233;ria morta e lidando com as pessoas como se fossem meros objetos a serem manipulados, em naves espaciais, ou a serem conectados por meio de v&#225;rias formas de dispositivos eletr&#244;nicos, ou sujeitos a jogos mundiais ou, finalmente, &#224; deriva em uma jangada ou em um bote salva-vidas no qual eles expulsam qualquer um que ameace comer seus biscoitos ou que ameace beber sua &#225;gua destilada &#8212; e isso se torna ecofascismo. Isso se torna ecofascismo, e fico horrorizado ao pensar que qualquer coisa ecol&#243;gica &#8212; at&#233; mesmo a palavra "eco" &#8212; possa ser associada ao fascismo.</p><p>Antes de mais nada, precisamos voltar &#224; tradi&#231;&#227;o ut&#243;pica, no sentido mais rico da palavra. N&#227;o &#224; tradi&#231;&#227;o eletr&#244;nica, n&#227;o &#224; tradi&#231;&#227;o da NASA, n&#227;o &#224; tradi&#231;&#227;o de Sir Isaac Newton, na qual o mundo inteiro era uma m&#225;quina ou um rel&#243;gio.</p><p>Voc&#234; pode viajar por todo o pa&#237;s e n&#227;o aprender nada, porque est&#225; carregando algo muito importante com voc&#234;, que decidir&#225; se voc&#234; aprender&#225; ou n&#227;o, e isso &#233;: voc&#234; mesmo. Mude-se para a Calif&#243;rnia amanh&#227; e, se ainda tiver os mesmos problemas psicol&#243;gicos, espirituais e intelectuais, voc&#234; estar&#225; suando em S&#227;o Francisco da mesma forma que em Amherst ou Nova York. Isso &#233; o mais importante: recuperar-se e come&#231;ar a criar uma comunidade. E que tipo de comunidade a imagina&#231;&#227;o pode come&#231;ar a criar?</p><h2>O que significa ser ut&#243;pico?</h2><p>"Da imagina&#231;&#227;o ao poder", como disseram os estudantes franceses. "Seja pr&#225;tico, fa&#231;a o imposs&#237;vel", porque se voc&#234; n&#227;o fizer o imposs&#237;vel, como eu disse v&#225;rias vezes, acabaremos no impens&#225;vel &#8212; e isso ser&#225; a destrui&#231;&#227;o do pr&#243;prio planeta. Portanto, fazer o imposs&#237;vel &#233; a coisa mais racional e pr&#225;tica que podemos fazer. E esse imposs&#237;vel &#233;, tanto em nossa pr&#243;pria convic&#231;&#227;o quanto em nossa convic&#231;&#227;o compartilhada com nossos irm&#227;os e irm&#227;s, come&#231;ar a tentar criar ou trabalhar em dire&#231;&#227;o a uma no&#231;&#227;o bem distinta do que constitui uma sociedade finalmente liberada e ecol&#243;gica. Uma no&#231;&#227;o ut&#243;pica, n&#227;o uma no&#231;&#227;o futurista.</p><p>Finalmente, isso significa o seguinte: temos de come&#231;ar a desenvolver comunidades ecol&#243;gicas. N&#227;o apenas uma sociedade ecol&#243;gica &#8212; comunidades ecol&#243;gicas, compostas por um n&#250;mero comparativamente pequeno de grupos, e belas comunidades espa&#231;adas umas das outras, de modo que voc&#234; possa quase caminhar at&#233; elas, e n&#227;o apenas ter de entrar em um carro e viajar sessenta ou setenta quil&#244;metros para chegar at&#233; elas. Isso significa que temos que reabrir a terra e reutiliz&#225;-la novamente para criar canteiros de hortas org&#226;nicas e aprender a desenvolver uma nova agricultura na qual todos n&#243;s participaremos da horticultura.</p><p>Temos de procurar comunidades que possamos ter uma vis&#227;o unificada, como disse Arist&#243;teles h&#225; mais de 2.200 anos &#8212; e ainda temos de aprender muito com os gregos, apesar de todos os seus defeitos como propriet&#225;rios de escravos e patriarcas &#8212;, uma comunidade sobre a qual possamos ter uma vis&#227;o unificada, para que possamos nos conhecer. N&#227;o uma comunidade em que nos conhecemos uns aos outros por nos sentarmos e conversarmos por telefone, ou ouvirmos algum chefe falar por um microfone, ou ouvirmos algum chefe maior falar por uma tela de televis&#227;o. Isso tem de ser feito sentados em comunidades, em reuni&#245;es municipais e nas estruturas que temos aqui nos Estados Unidos como parte do legado &#8212; o melhor legado dos Estados Unidos &#8212; pelo menos, e come&#231;ar a pensar em utopia no sentido mais amplo da palavra.</p><p>Tamb&#233;m temos que desenvolver nossas pr&#243;prias tecnologias. N&#227;o podemos deixar que outras pessoas simplesmente as construam para n&#243;s. Elas n&#227;o podem ser transportadas sabe-se l&#225; de onde para n&#243;s. Temos que saber consertar nossas torneiras e criar nossos pr&#243;prios coletivos. Temos de nos tornar seres humanos ricamente diversificados. Temos de ser capazes de fazer muitas coisas diferentes.</p><p>Temos de ser cidad&#227;os-agricultores e agricultores-cidad&#227;os. Temos de recuperar o ideal que at&#233; mesmo Ben Franklin &#8212; que de forma alguma pode ser considerado, em minha opini&#227;o, algo mais do que um filisteu &#8212; acreditava no s&#233;culo 18: voc&#234; pode tanto imprimir quanto ler e, quando imprime, l&#234; o que imprimiu. &#201; isso que temos de trazer para n&#243;s mesmos. Temos de pensar n&#227;o apenas em termos de mudan&#231;a; temos de pensar em termos de crescimento. Temos de usar a linguagem da ecologia para que possamos nos tocar com a magia das palavras e nos comunicarmos uns com os outros, com a magia e a riqueza dos conceitos, e n&#227;o com frases de efeito que s&#227;o realmente r&#225;pidas [<em>estala os dedos</em>] &#8212; "input", "output". O di&#225;logo &#233; mais longo, mas tem uma bela resson&#226;ncia. "Dia" + "logos", discurso entre dois, conversa entre dois. Logos = l&#243;gica, racioc&#237;nio criativo, dial&#233;tico. Ent&#227;o, &#233; crescimento por meio da conversa, e crescimento por meio da comunica&#231;&#227;o. &#201; isso que quero dizer com utopia. Temos de voltar a Fourier, que disse que a medida da opress&#227;o de uma sociedade poderia ser determinada pela maneira como ela trata suas mulheres. N&#227;o foi Marx quem disse isso, foi Charles Fourier... Temos de voltar &#224; rica tradi&#231;&#227;o da reuni&#227;o da cidade da Nova Inglaterra, e tudo o que havia de saud&#225;vel nela, recuper&#225;-la e aprender um novo tipo de confederalismo.</p><p>Hoje, os verdadeiros movimentos do futuro, na medida em que s&#227;o ut&#243;picos em suas perspectivas &#8212; na medida em que est&#227;o tentando criar n&#227;o uma extens&#227;o do presente, mas tentando criar algo que seja realmente novo, que por si s&#243; possa resgatar a vida, o esp&#237;rito humano, bem como a ecologia deste planeta &#8212; devem ser constru&#237;dos em torno de uma nova e rica comunica&#231;&#227;o, n&#227;o entre l&#237;der e liderado &#8212; mas entre aluno e professor, de modo que cada aluno possa eventualmente se tornar um professor, e n&#227;o um ditador, um governador, um controlador e um manipulador.</p><p>E, acima de tudo, temos de pensar organicamente. Temos de pensar organicamente &#8212; n&#227;o eletronicamente. Temos de pensar em termos de vida e biologia, n&#227;o em termos de rel&#243;gios e f&#237;sica. Temos de pensar em termos do que &#233; humano, n&#227;o do que &#233; meramente pequeno ou grande, porque s&#243; isso ser&#225; belo. Qualquer sociedade que busque criar uma utopia n&#227;o ser&#225; apenas uma sociedade livre, mas tamb&#233;m precisa ser uma sociedade bela. N&#227;o pode mais haver nenhuma separa&#231;&#227;o &#8212; mais do que entre mente e corpo &#8212; entre a arte e o desenvolvimento de uma sociedade livre. Devemos nos tornar artistas agora, n&#227;o apenas ecologistas, ut&#243;picos. N&#227;o futuristas, n&#227;o ambientalistas.</p><p>[<em>aplauso</em>]</p><p>[<em>Murray Bookchin recebeu duas perguntas relevantes da plateia, que n&#227;o foram ouvidas na grava&#231;&#227;o. O primeiro questionador perguntou se ele era contra a tecnologia.</em>]</p><p>N&#227;o, isso n&#227;o &#233; verdade. Vejo um uso muito grande para a tecnologia. O que estou falando &#233; de uma tecnocracia. Estou falando de um governo por t&#233;cnicos. Estou falando do uso de v&#225;rios tipos de dispositivos tecnol&#243;gicos que s&#227;o desumanos para as pessoas e desumanos em sua escala, e n&#227;o podem ser controlados por pessoas. A beleza de uma tecnologia ecol&#243;gica &#8212; uma ecotecnologia, ou uma tecnologia libert&#225;ria, ou uma tecnologia alternativa &#8212; &#233; que as pessoas podem entend&#234;-la se estiverem dispostas a tentar dedicar algum grau de esfor&#231;o para isso. &#201; a simplicidade, sempre que poss&#237;vel, &#233; a pequena escala, sempre que poss&#237;vel. &#201; disso que estou falando. N&#227;o estou falando em voltar ao paleol&#237;tico, n&#227;o estou falando em voltar para as cavernas. N&#227;o podemos voltar a isso e acho que n&#227;o queremos voltar a isso.</p><p>[<em>Na pr&#243;xima pergunta da plateia, Bookchin &#233; solicitado a descrever, de forma bem concreta, sua vis&#227;o pol&#237;tica. Houve risos ap&#243;s a pergunta.</em>]</p><p>Vou ser realmente duro com isso e ir direto ao ponto, e n&#227;o apenas dizer que estou lhe dando alguns princ&#237;pios filos&#243;ficos vagos. Eu gostaria de ver comunidades, cooperativas de alimentos, grupos de afinidade, todos esses tipos de estruturas &#8212; reuni&#245;es urbanas desenvolvidas em todos os Estados Unidos. Gostaria de ver organiza&#231;&#245;es de bairro, n&#227;o hier&#225;rquicas em sua forma, desenvolvidas em todos os Estados Unidos, da cidade de Nova York a S&#227;o Francisco, da zona rural de Vermont &#224; zona urbana da Calif&#243;rnia. Quando essas organiza&#231;&#245;es espec&#237;ficas se desenvolverem rapidamente e se confederarem, primeiro regionalmente e, com sorte, nacionalmente e talvez at&#233; internacionalmente &#8212; porque n&#227;o estamos mais falando apenas dos Estados Unidos, estamos falando at&#233; mesmo do que est&#225; acontecendo na Uni&#227;o Sovi&#233;tica em grande parte &#8212;, espero que elas, de uma forma ou de outra, pelo exemplo e pela educa&#231;&#227;o, conquistem a maioria das pessoas para essa sensibilidade. E, tendo feito isso, exijam que a sociedade seja transformada e, depois disso, teremos de enfrentar o que tivermos de enfrentar. A &#250;nica alternativa que temos depois disso, se n&#227;o fizermos isso, ser&#225; a seguinte: seremos organizados em burocracias, burocracias em nome do progresso, bem como burocracias em nome do reacionarismo, bem como burocracias em nome do status quo.</p><p>E se estivermos organizados na forma dessas burocracias, quer usemos energia solar ou gases nervosos, n&#227;o faz diferen&#231;a, acabaremos, em &#250;ltima an&#225;lise, com a mesma coisa. Na verdade, a ideia de que a energia solar, a energia e&#243;lica ou o metano estejam sendo usados em vez de combust&#237;veis f&#243;sseis se tornar&#225; apenas uma desculpa para manter o mesmo sistema multinacional, corporativo e hier&#225;rquico que temos hoje.</p><p>Portanto, proponho que esses tipos de organiza&#231;&#245;es e esses tipos de formas sociais sejam desenvolvidos em todo o pa&#237;s e, cada vez mais, esperamos que afetem a maioria da opini&#227;o, a ponto de o povo americano, de uma forma ou de outra, fazer com que suas vozes sejam ouvidas, porque eles s&#227;o a maioria esmagadora e dizem que querem mudar a sociedade.</p><p>E se os Estados Unidos mudarem, o mundo inteiro mudar&#225;, em minha opini&#227;o pessoal. Porque esse &#233; o centro, literalmente a pedra fundamental do que eu chamaria de todo o sistema capitalista que hoje envolve o mundo, seja na China, em Cuba e na R&#250;ssia, ou nos Estados Unidos, no Canad&#225; e na Europa Ocidental. Isso &#233;, muito concretamente, o que proponho.</p><p>Gostaria de deixar isso bem claro: primeiro, o povo americano come&#231;ar&#225; a mudar inconscientemente, antes de mudar conscientemente. Voc&#234; ir&#225; at&#233; eles e perguntar&#225;: "O que voc&#234; acha do trabalho?" E eles dir&#227;o que &#233; nobre. Voc&#234; lhes perguntar&#225; o que acham da propriedade? E eles dir&#227;o que &#233; sagrada. E voc&#234; lhes perguntar&#225;, o que acham da maternidade, e eles dir&#227;o que &#233; grandiosa, que &#233; piedosa. O que voc&#234; acha da religi&#227;o e elas dir&#227;o que pertencem a ela e que s&#227;o completamente devotadas a ela. Se voc&#234; perguntar a eles o que acham dos Estados Unidos, eles dir&#227;o: "ame-os ou deixe-os". Voc&#234; perguntar&#225; o que acham da bandeira e eles dir&#227;o que &#233; gloriosa, a Velha Gl&#243;ria.</p><p>Mas, um dia, algo vai acontecer. Um dia, o inconsciente, a expectativa, o sonho, a imagina&#231;&#227;o, a esperan&#231;a com a qual voc&#234; vai para a cama e se afunda nas horas crepusculares do sono, ou de manh&#227; cedo, quando sonha acordado, logo depois que o despertador toca e voc&#234; o desliga &#8212; essas expectativas e sonhos que est&#227;o enterrados na mente inconsciente de milh&#245;es e milh&#245;es de americanos v&#227;o se tornar conscientes. E quando eles se tornarem conscientes, que Deus ajude esta sociedade. [<em>empolga&#231;&#227;o da plateia</em>] Estou falando muito s&#233;rio.</p><p>Essa &#233; a estranha cat&#225;lise, o estranho processo de educa&#231;&#227;o; todos hoje em dia s&#227;o esquizofr&#234;nicos, estamos todos levando vidas duplas, e sabemos disso. E n&#227;o apenas n&#243;s estamos levando vidas duplas, mas tamb&#233;m as pessoas comuns &#8212; as chamadas "comuns" &#8212; que est&#227;o por a&#237; tamb&#233;m est&#227;o levando vidas duplas. E um dia, essa vida dupla se tornar&#225; uma vida unificada. Talvez seja para pior, mas talvez seja para melhor. Nesse momento espec&#237;fico, talvez comece algo como maio, junho de 1968 em Paris. Em todos os lugares, ser&#227;o hasteados todos os tipos de bandeiras que n&#227;o se parecem com as bandeiras que estamos acostumados a ver. [<em>risos do p&#250;blico</em>] Talvez seja preta ou vermelha, n&#227;o sei. Nesse momento espec&#237;fico, milh&#245;es de pessoas deixar&#227;o de trabalhar e come&#231;ar&#227;o a discutir.</p><p>Ent&#227;o, voc&#234; ter&#225; aquela situa&#231;&#227;o aterrorizante chamada governo da multid&#227;o. Mas isso acontecer&#225;, e foi o que aconteceu aqui em 1776, eles acreditavam no rei at&#233; julho de 1776. Nesse meio tempo, eles estavam tendo d&#250;vidas. Eles nem sabiam que n&#227;o gostavam da monarquia. Mas um dia acordaram e disseram: que se dane o Rei George. Correram para a frente e escreveram a Declara&#231;&#227;o de Independ&#234;ncia, que foi lida para as tropas.</p><p>Naquele momento espec&#237;fico, a Union Jack caiu e as estrelas e listras subiram. &#201; assim que as pessoas realmente mudam. As pessoas mudam inconscientemente antes de mudar conscientemente.</p><p>Elas come&#231;am a ter sonhos &#8212; os sonhos s&#227;o perigosos. Os sonhos s&#227;o pe&#231;as de imagina&#231;&#227;o, s&#227;o peda&#231;os de poesia. Eles s&#227;o os bal&#245;es que voam na hist&#243;ria.</p><div><hr></div><p><em>Transcrito e editado, em ingl&#234;s, por Constanze Huther.</em></p><div><hr></div><p><em>Murray Bookchin foi um te&#243;rico pol&#237;tico, fil&#243;sofo e ativista. Ele desenvolveu a filosofia da ecologia social e a teoria pol&#237;tica do municipalismo libert&#225;rio, ou comunalismo, que influenciou o crescente movimento "municipalista" em todo o mundo. Foi cofundador do <a href="http://social-ecology.org/wp/">Institute for Social Ecology</a>, que continua ativo at&#233; hoje. Bookchin faleceu em 2006. A vers&#227;o completa em &#225;udio desse discurso est&#225; dispon&#237;vel na University of Massachusetts Special Collections and University Archives <a href="https://bit.ly/2RYf5Tn">aqui</a>.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quatro pensamentos que redirecionam a mente]]></title><description><![CDATA[Mensagem para quem pratica ou se interessa pelo budismo]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/quatro-pensamentos-que-redirecionam</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/quatro-pensamentos-que-redirecionam</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Jul 2023 17:14:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CbDr!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c3f9552-adb3-4c7b-b5c6-7510a16a6587_397x397.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Foi publicado no site do centro budista que mantenho <a href="https://palpungsp.org/textos/Quatro%20pensamentos/">a se&#231;&#227;o sobre os "quatro pensamentos que redirecionam a mente"</a> do livro&nbsp;<em>Tocha para a Verdade Definitiva</em>, de Djamgon Kongtrul. <br><br>No grupo de estudos aos s&#225;bados do centro,&nbsp;esse pode ser o pr&#243;ximo texto (que &#233; sobre "ngondro", ou pr&#225;ticas preliminares) que estudaremos, j&#225; que&nbsp;estamos quase terminando o <em>Ornamento da Libera&#231;&#227;o Preciosa</em>, de Gampopa.<br><br>Outra op&#231;&#227;o seria uma s&#233;rie de quatro encontros sobre &#8220;introdu&#231;&#227;o &#224; medita&#231;&#227;o budista&#8221;. Costumo apresentar isso via Zoom no <a href="https://palpungny.org/">Palpung New York</a> e ela pode ser &#250;til tamb&#233;m para quem j&#225; pratica medita&#231;&#227;o budista.</p><p>Se tiverem prefer&#234;ncias ou sugest&#245;es, por favor enviem.<br><br>Segue o texto de introdu&#231;&#227;o aos "quatro pensamentos".</p><div><hr></div><h3>Quatro pensamentos que redirecionam a mente para o Dharma<br></h3><p>Os "quatro pensamentos" se referem a quatro t&#243;picos de reflex&#227;o com o objetivo de redirecionar o padr&#227;o habitual da mente para a pr&#225;tica do Dharma, j&#225; que a dire&#231;&#227;o padr&#227;o &#233; a produ&#231;&#227;o cont&#237;nua de sofrimentos sutis ou grosseiros. No budismo tibetano, esse tipo de medita&#231;&#227;o &#233; tanto a primeira introdu&#231;&#227;o quanto algo a ser praticado por toda a vida, j&#225; que &#233; a base para o ref&#250;gio nas Tr&#234;s Joias.<br><br>&#201; dito que qualquer pr&#225;tica do Dharma que n&#227;o se baseie no ref&#250;gio genu&#237;no das Tr&#234;s Joias acaba se transformando em outra causa para o sofrimento da exist&#234;ncia c&#237;clica. E n&#227;o h&#225; ref&#250;gio genu&#237;no sem a ren&#250;ncia ao sofrimento, &#224;s a&#231;&#245;es que o provocam e o anseio pela libera&#231;&#227;o, que nascem com a contempla&#231;&#227;o desses quatro pensamentos.<br><br>Essa medita&#231;&#227;o em quatro pontos foi introduzida no Tibete pelo mestre indiano Atisha, no s&#233;c. 11, e todas as tradi&#231;&#245;es budistas tibetanas a incorporaram como algo essencial, cuja aus&#234;ncia compromete qualquer outra pr&#225;tica. Ela &#233; o aspecto de medita&#231;&#227;o pr&#225;tica das Quatro Nobres Verdades, ensinadas pelo Buda, conforme a linhagem Mahayana que Atisha detinha.<br><br>Os ensinamentos a seguir foram traduzidos do tibetano a partir da se&#231;&#227;o sobre as "preliminares comuns" do livro Tocha para a Verdade Definitiva, de Djamgon Kongtrul (s&#233;c. 19), que ser&#225; publicado em breve por este centro. Eles t&#234;m uma qualidade mais pr&#225;tica e essencializada do que outras apresenta&#231;&#245;es do tema, al&#233;m de acrescentar instru&#231;&#245;es espec&#237;ficas da linhagem de Gampopa.</p><p><strong><a href="https://palpungsp.org/textos/Quatro%20pensamentos/">&#8594; leia em palpungsp.org</a></strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Assista: "Animal" (2021)]]></title><description><![CDATA[Animal (Fran&#231;a, 2021) &#233; um belo e comovente document&#225;rio sobre a rela&#231;&#227;o doentia de uma esp&#233;cie animal (adivinhe qual) com todas as outras, resultando no atual dr&#225;stico e violento decl&#237;nio na biodiversidade, a 6&#170; extin&#231;&#227;o em massa.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/assista-animal-2021</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/assista-animal-2021</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Jul 2023 21:47:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/vimeo/w_728,c_limit,d_video_placeholder.png/677597740" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div id="vimeo-677597740" class="vimeo-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;677597740&quot;,&quot;videoKey&quot;:&quot;&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false}" data-component-name="VimeoToDOM"><div class="vimeo-inner"><iframe src="https://player.vimeo.com/video/677597740?autoplay=0" frameborder="0" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true"></iframe></div></div><p><em>Animal</em> (Fran&#231;a, 2021) &#233; um belo e comovente document&#225;rio sobre a rela&#231;&#227;o doentia de uma esp&#233;cie animal (adivinhe qual) com todas as outras, resultando no atual dr&#225;stico e violento decl&#237;nio na biodiversidade, a 6&#170; extin&#231;&#227;o em massa. Toca especialmente por apresentar a trag&#233;dia e poss&#237;veis solu&#231;&#245;es sob a &#243;tica de dois adolescentes. </p><p>O diretor Cyril Dion tamb&#233;m &#233; o respons&#225;vel por um dos melhores document&#225;rios ambientais dos &#250;ltimos anos: <em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0SI-Kyam_Jk">Tomorrow</a> </em>(<em>Demain</em>, 2015)<em>.</em></p><p>&#201; poss&#237;vel assistir (com legendas) ou baixar <a href="https://drive.google.com/file/d/1ON_IVvGc99KAuPr4tXdsGmXa1wlyA8L-/view?usp=sharing">neste link</a> (caso n&#227;o toque, fa&#231;a o download; ou assista outra hora).</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando a meditação aumenta o egoísmo]]></title><description><![CDATA[Estava pensando em escrever dois textos sobre temas diferentes, mas como os assuntos se conectam, vou juntar tudo.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/quando-a-meditacao-aumenta-o-egoismo</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/quando-a-meditacao-aumenta-o-egoismo</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Wed, 21 Jun 2023 17:56:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1h0k!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp" width="1300" height="491" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0b4127a2-293c-4f2c-8ac6-e0c12728379d_1300x491.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:491,&quot;width&quot;:1300,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:27936,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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O primeiro &#233; sobre um estudo apontando que a medita&#231;&#227;o do tipo "mindfulness" pode ter um efeito bastante negativo. O segundo &#233; sobre um livro &#243;timo que estava para ler h&#225; tempos: <em>A Paradise Built in Hell</em>, de Rebecca Solnit.</p><p>Uma <a href="https://psyarxiv.com/xhyua/">pesquisa de 2021</a>, com cerca de 350 pessoas, mostrou que a t&#233;cnica de medita&#231;&#227;o conhecida como "mindfulness" provoca a diminui&#231;&#227;o de atitudes altru&#237;stas, em pessoas de disposi&#231;&#227;o individualista. Nesse estudo, "individualista" se refere a algu&#233;m que identifica a si predominantemente como independente daquilo que a cerca (ao contr&#225;rio de um conceito de si interdependente com outras pessoas, seres, ambiente etc), perseguindo objetivos individuais como auto-aperfei&#231;oamento e autonomia.</p><p>Esse resultado comprova algo que cr&#237;ticos j&#225; suspeitavam: a pr&#225;tica de medita&#231;&#227;o desvinculada de valores altru&#237;stas potencializa essa situa&#231;&#227;o, o descarte do altru&#237;smo.</p><p>Tamb&#233;m suspeito que, infelizmente, essa seja a motiva&#231;&#227;o da maioria das pessoas que acaba se envolvendo com a pr&#225;tica, j&#225; que uma mentalidade obsessiva de aperfei&#231;oamento individual &#233; estimulada nos valores dominantes de nossas sociedades; por exemplo, valores como a busca do lucro individual que despreza o sofrimento alheio.</p><p>Um problema cr&#244;nico e sist&#234;mico nisso &#233; que acabamos sendo impotentes para resistir esses valores ou tentar expressar algo diferente. Em geral, n&#227;o temos nem consci&#234;ncia de que h&#225; uma for&#231;a quase onipresente empurrando nessa dire&#231;&#227;o.</p><p>Assim, ao chegar na medita&#231;&#227;o buscando coisas como melhora, contentamento e equil&#237;brio, o resultado prov&#225;vel ser&#225; o contr&#225;rio disso &#8212; considerando que o desprezo ego&#237;sta em rela&#231;&#227;o a outras pessoas aumenta o sofrimento tanto alheio quanto individual.</p><p>A pessoa com melhor concentra&#231;&#227;o e aten&#231;&#227;o, sim, ser&#225; mais competente em suas habilidades, mas essas habilidades acabam provocando desequil&#237;brio, se estiverem alienadas da realidade maior da interdepend&#234;ncia, e do altru&#237;smo que &#233; uma consequ&#234;ncia do reconhecimento dessa natureza.</p><p>Uma boa not&#237;cia na pesquisa citada &#233; que pessoas "individualistas", caso sejam influenciadas com conte&#250;do que valorize a interdepend&#234;ncia antes da medita&#231;&#227;o, mostram um aumento de atitudes altru&#237;stas ou pr&#243;-sociais. Isso tamb&#233;m comprova algo que tradi&#231;&#245;es como o budismo Mahayana empregam h&#225; s&#233;culos: medita&#231;&#245;es de concentra&#231;&#227;o devem ser sempre precedidas por reflex&#245;es compassivas.</p><p>Esse estudo tamb&#233;m demonstrou que o contr&#225;rio &#233; verdadeiro: caso pessoas mais altru&#237;stas sejam influenciadas com conte&#250;do individualista antes da medita&#231;&#227;o, elas reduzem o comportamento pr&#243;-social.</p><p>Diante disso, inevitavelmente, lembro dos efeitos da dissemina&#231;&#227;o de valores negativos &#224; qual estamos inconscientemente expostos; por exemplo, o lucro individual como sendo um bem supremo, especismo humano (supremacia de humanos em rela&#231;&#227;o a outras formas de vida), o culto narcisista promovido nas redes sociais etc. Por mais que algu&#233;m concorde com valores menos redutores, n&#227;o &#233; f&#225;cil permanecer imune ao modo como somos estimulados a pensar e agir nas esferas social, profissional, familiar, espiritual etc.</p><h2>Altru&#237;smo natural</h2><p>No final, "meditar" em algo n&#227;o &#233; nada mais do que se familiarizar com isso (essa &#233; a defini&#231;&#227;o de medita&#231;&#227;o no budismo tibetano, por exemplo). Assim, mesmo sem saber, estamos meditando o tempo todo, cultivando algum tipo de atitude, refor&#231;ando algum tipo de busca ou fixa&#231;&#227;o.</p><p>Mesmo que por baixo desse condicionamento social repousem qualidades naturais altru&#237;stas, elas terminam encobertas e neutralizadas.</p><p>Escrevi diversas vezes sobre o altru&#237;smo como sendo nossa verdadeira natureza, encoberta (por exemplo em <a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/mente-natural/2021/01/10/mudar-a-visao-sobre-nos-mesmos-pode-mudar-o-mundo.htm">"Mudar a vis&#227;o sobre n&#243;s pode mudar o mundo"</a> e <a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2020/08/08/nossa-compaixao-natural-pode-nos-salvar.htm">"Nossa compaix&#227;o natural pode nos salvar"</a>). &#201; por isso que, como ideal pol&#237;tico-social, acredito no anarquismo. N&#227;o o anarquismo associado com caos e vidra&#231;as estouradas &#8212; isso, na verdade, &#233; o contr&#225;rio do que define esse pensamento.</p><p>A atual ordem pol&#237;tica, econ&#244;mica e social parte de um pressuposto sobre a natureza humana: "Tudo bem haver competi&#231;&#227;o, explora&#231;&#227;o e desigualdade extremas porque esses elementos definem quem somos. A pr&#243;pria natureza se baseia nisso. Ent&#227;o &#233; preciso autoridade, repress&#227;o e viol&#234;ncia para conter nossos impulsos destrutivos, o caos..."</p><p>Agora, se qualidades como coopera&#231;&#227;o, ajuda m&#250;tua espont&#226;nea, solidariedade e fraternidade forem as verdadeiras express&#245;es de nossa natureza mais profunda, isso reflete em que tipo de sociedade ou mundo?</p><p>Com o devido reconhecimento e incentivo para esses valores, n&#227;o precisar&#237;amos mais de pessoas com poderes especiais para nos controlar. Desigualdades injustas seriam corrigidas, a gan&#226;ncia ego&#237;sta passaria a ser considerada um desvio prejudicial, a busca por igualdade n&#227;o precisaria mais ser reprimida com viol&#234;ncia etc.</p><p>Isso sim &#233; o que define a "aus&#234;ncia de governo" (por "governo", entenda-se pessoas com poder sobre outras) que &#233; o significado literal de &#8220;anarquia&#8221;.</p><h2>Para&#237;so no inferno</h2><p>Ent&#227;o cheguei no livro que queria comentar, <em><a href="https://www.penguinrandomhouse.com/books/301070/a-paradise-built-in-hell-by-rebecca-solnit/">A Paradise Built in Hell</a></em> (Um Para&#237;so Constru&#237;do no Inferno, 2010), obra considerada leitura obrigat&#243;ria em movimentos que valorizam a descentraliza&#231;&#227;o, pois documenta a auto-organiza&#231;&#227;o e solidariedade que brotam espont&#226;nea e naturalmente em situa&#231;&#245;es coletivas emergenciais, quando o poder estabelecido falha.</p><p>O inferno do t&#237;tulo &#233; a suspens&#227;o da ordem usual e a fal&#234;ncia dos sistemas dominantes que ocorrem geralmente em grandes desastres, como terremotos ou cat&#225;strofes naturais. J&#225; o para&#237;so &#233; a liberdade que surge para as pessoas viverem e agirem de um modo diferente nessas situa&#231;&#245;es, livres das estruturas repressivas ou opressoras.</p><p>Essa &#233; uma caracter&#237;stica humana coletiva pouco conhecida, mas muito bem documentada historicamente: nessas situa&#231;&#245;es de grandes desastres em que o governo n&#227;o chega ou demora muito, a regra n&#227;o &#233; o caos de um tem&#237;vel salve-se-quem-puder, mas sim uma organiza&#231;&#227;o social espont&#226;nea coesa, extremamente compassiva e desinteressada, sem hierarquias de poder nem busca por lucro, que r&#225;pida e efetivamente toma conta da situa&#231;&#227;o.</p><p>Por exemplo, al&#233;m de servi&#231;os essenciais como distribui&#231;&#227;o completamente volunt&#225;ria de alimentos, abrigo, roupas e assist&#234;ncia, &#233; comum as pessoas organizarem iniciativas de apoio m&#250;tuo como centros de cultura e arte, bibliotecas, oficinas e caf&#233;s de forma muito mais livre e comunit&#225;ria.</p><p>Isso &#233; desconhecido pois foge da regra que costuma orientar o foco em desgra&#231;a humana do notici&#225;rio ou at&#233; dos livros de hist&#243;ria.</p><p>Lembro um exemplo recente que ilustra bem isso. Durante os protestos do movimento Black Lives Matter, em 2020 nos EUA, uma comunidade em Seattle expulsou a pol&#237;cia de seu bairro. As chamadas na TV falavam em coisas como "Anarquistas desafiam a lei" e focavam nos policiais cercando a &#225;rea, armados para uma guerra.</p><p>Mas quando apareciam imagens de helic&#243;ptero da zona "afetada", o clima era muito diferente do perigo alardeado no notici&#225;rio. As pessoas distribu&#237;am rem&#233;dios e livros, alimentavam e cuidavam dos sem-teto, com grupos musicais e outros artistas ocupando suas ruas, decorando-as festivamente, com a vizinhan&#231;a comemorando e compartilhando refei&#231;&#245;es e bebidas.</p><p>Fiquei muito curioso sobre essa libera&#231;&#227;o, mas os jornalistas s&#243; falavam em "caos na cidade", "n&#227;o h&#225; policiamento", "&#233; preciso retomar a ordem" etc.</p><p>Apesar das perdas tr&#225;gicas e massivas comuns em desastres mais amplos, &#233; frequente entre os relatos um senso de descoberta magn&#237;fica, da viv&#234;ncia de todo potencial e sentido humanos, at&#233; ent&#227;o in&#233;dita. Muitas dizem que isso as transformou para sempre, reorientando toda a vida.</p><p>A autora do livro, Rebecca Solnit, encontrou claramente esse padr&#227;o nos registros de diversos grandes desastres em mais de um s&#233;culo, o que favorece bastante a ideia que mencionei de que, por baixo de um condicionamento social predominantemente ego&#237;sta, repousam atitudes latentes de uma natureza altru&#237;sta.</p><p>Apesar dessa libera&#231;&#227;o tempor&#225;ria, basta os sistemas de poder, repress&#227;o e vigil&#226;ncia se restabelecerem para tudo regredir para o "normal".</p><p>Rebecca tamb&#233;m aborda, com destaque no livro, como um cultivo amplamente disseminado de tend&#234;ncias destrutivas &#8212; como racismo, demoniza&#231;&#227;o alheia e paranoia &#8212; tem o poder de multiplicar a trag&#233;dia de um desastre natural.</p><p>Isso aconteceu durante a inunda&#231;&#227;o de Nova Orleans com o furac&#227;o Katrina, em 2005. Apesar das iniciativas de ajuda m&#250;tua e solidariedade seguirem o padr&#227;o de outros desastres, a cidade j&#225; sofria com estigmas de criminalidade e ondas de racismo. Boatos sem fundamento amplificados na m&#237;dia sobre saques, assaltos e estupros, junto com a atua&#231;&#227;o de mil&#237;cias supremacistas armadas provocaram uma escalada de viol&#234;ncia.</p><p>Como diz a autora, a ideia que nutrimos sobre como s&#227;o as pessoas ao redor determina como ser&#225; nossa atitude em emerg&#234;ncias. Vamos pegar a comida extra da despensa e compartilhar com os vizinhos, ou vamos nos entrincheirar com rifles e apont&#225;-los para quem amea&#231;ar chegar perto?</p><p>No caso da Nova Orleans ap&#243;s o Katrina, a tens&#227;o social e racial &#8212; provocada em grande parte pela dissemina&#231;&#227;o de boatos e not&#237;cias falsas racistas &#8212; fez explodir os casos de pessoas atirando em vizinhos.</p><p>No final, os conceitos que cultivamos sobre qual &#233; a natureza humana &#8212; vamos ajudar umas &#224;s outras, ou &#233; um "salve-se quem puder, cada um contra todos"? &#8212; s&#227;o cruciais para a realidade que constru&#237;mos, sendo muito mais determinantes do que, por exemplo, a capacidade de aten&#231;&#227;o da medita&#231;&#227;o mindfulness.</p><p>No entanto, a "medita&#231;&#227;o" que fazemos sem perceber &#8212; ou melhor, que os valores predominantes empurrados na sociedade nos fazem replicar e difundir &#8212; tamb&#233;m acabam sendo instrumentais na fabrica&#231;&#227;o das cat&#225;strofes pol&#237;tico-s&#243;cio-ambientais do fim-de-mundo que vivemos. Por isso, tomar consci&#234;ncia desse processo j&#225; &#233; um primeiro passo para revert&#234;-lo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Natureza da realidade, capitalismo e neoliberalismo]]></title><description><![CDATA[A ideia de que h&#225; um sistema maligno dominando o mundo j&#225; &#233; um sentimento quase universal.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/natureza-da-realidade-capitalismo</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/natureza-da-realidade-capitalismo</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Fri, 19 May 2023 22:18:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ABt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2a9c4090-f09e-4776-9a9b-5e5cf26bb6a6_1500x750.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ABt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2a9c4090-f09e-4776-9a9b-5e5cf26bb6a6_1500x750.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ABt!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2a9c4090-f09e-4776-9a9b-5e5cf26bb6a6_1500x750.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ABt!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2a9c4090-f09e-4776-9a9b-5e5cf26bb6a6_1500x750.webp 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Apesar disso, n&#227;o &#233; f&#225;cil identificar o que &#233; isso exatamente. &#201; algo t&#227;o difuso e espalhado, praticamente onipresente, que n&#227;o enxergamos com clareza, assim como um hipot&#233;tico peixe senciente n&#227;o teria palavras para o oceano, ou ent&#227;o o fato de que alguns ind&#237;genas n&#227;o possuem um conceito separado para "meio ambiente". Est&#225; t&#227;o perto que some de vista.</p><p>J&#225; escrevi sobre isso usando essa palavra, "sistema", mas ela &#233; um clich&#234; meio insustent&#225;vel, pensando melhor. Al&#233;m de figurar como personagem de filmes e s&#233;ries, e alimentar teorias da conspira&#231;&#227;o, tamb&#233;m foi sequestrada por extremistas de direita, em um golpe certeiro para canalizar essa t&#227;o disseminada sensa&#231;&#227;o de opress&#227;o, sufocamento e fim do mundo.</p><p>Basicamente um sistema &#233; um mecanismo composto por diversas partes. H&#225; algo assim dominando o mundo como conhecemos? &#201; dif&#237;cil dizer que n&#227;o.</p><p>Seria isso o capitalismo? Suas corpora&#231;&#245;es? Seus pol&#237;ticos?</p><h2>Cadeia de seres</h2><p>Um autor que acompanho &#233; o economista Umair Haque. Ele <a href="https://eand.co/why-this-is-an-age-of-regress-4a51a02521f1">responde apontando uma ideia central</a> que &#233; o germe disso tudo: a <a href="https://www.nature.com/articles/435429a">no&#231;&#227;o de que o ser humano &#233; o topo da "cadeia de seres"</a>. Esse &#233; um <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Scala_natur%C3%A6">antigo conceito metaf&#237;sico de hierarquia</a> que se consolidou nesse formato reducionista ap&#243;s o Iluminismo, e hoje acaba sendo a base intelectual para as mais diversas formas de explora&#231;&#227;o.</p><p>J&#225; que o ser humano seria superior a outras formas de vida, elas podem ser exploradas e descartadas como coisas inferiores. E essa mentalidade supremacista ent&#227;o se desdobra em outros tipos de hierarquias fict&#237;cias: ricos acima de pobres, supremacismo branco, Norte Global tendo vantagens sobre o Sul, a lei do mais forte etc.</p><p>A filosofia budista tem em seu n&#250;cleo algo tamb&#233;m nessa linha: a fonte de todo sofrimento &#233; a "ignor&#226;ncia". Em sua forma mais b&#225;sica e germinal, ela &#233; definida como uma fabrica&#231;&#227;o conceitual em torno de um eu que se considera mais importante do que todo o restante; por isso, esse eu sente-se livre para prejudicar em nome da obten&#231;&#227;o de benef&#237;cios. &#201; por isso que o budismo Mahayana enfatiza a compaix&#227;o, definida basicamente como uma atitude altru&#237;sta que &#233; o oposto dessa ignor&#226;ncia mal&#233;fica.</p><p>A diferen&#231;a &#233; que, no budismo, fica sublinhada a dimens&#227;o individual desse problema. No entanto, quando essa din&#226;mica &#233; extrapolada em grupos sociais, empresas, pol&#237;tica, economia etc, aparece de novo a atitude de uma por&#231;&#227;o ultraminorit&#225;ria da exist&#234;ncia que se autoconcede privil&#233;gios especiais para a explora&#231;&#227;o alheia.</p><p>Ent&#227;o concordo que, no final, o que est&#225; por tr&#225;s da grande maioria das crises que vivemos &#233; um engano sobre a verdadeira natureza da realidade, incluindo a&#237; uma confus&#227;o sobre a devida posi&#231;&#227;o humana e dos interesses ego&#237;stas nisso tudo. Mas concordo tamb&#233;m que resumir tudo a apenas isso &#233; um simplifica&#231;&#227;o que acaba negligenciando dimens&#245;es amplas cruciais, como sociedade, ambiente, pol&#237;tica etc.</p><p>Acredito que os dois aspectos precisam ser abordados. Mais emergencial talvez seja a situa&#231;&#227;o coletiva, hoje em estado cr&#237;tico.</p><h2>O que &#233; capitalismo?</h2><p>Peguemos, por exemplo, o capitalismo. Essa &#233; outra palavra que j&#225; se tornou dif&#237;cil de definir, pois sua esfera de dom&#237;nio chega t&#227;o perto, est&#225; t&#227;o disseminada, que isso se confunde com a pr&#243;pria realidade. Uma defini&#231;&#227;o cr&#237;tica bem n&#237;tida &#233; a da economista Kate Raworth, autora de <em><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788537818282/economia-donut">Economia Donut</a></em>, obra que consegue furar um pouco a bolha, tendo tamb&#233;m influ&#234;ncia em setores menos esquerdistas.</p><p>Segundo Kate, capitalismo n&#227;o &#233; apenas um sistema econ&#244;mico baseado em propriedade privada e mercados, porque isso existe h&#225; mil&#234;nios. O que particulariza esse sistema &#233; a necessidade de haver muitas pessoas que s&#243; podem negociar sua m&#227;o de obra (ou seja, pessoas &#8220;pobres&#8221;). A raz&#227;o de ser do capitalismo &#233; dar lucro para quem possui bens (empresas ou por&#231;&#245;es delas, propriedades, ou dinheiro emprestado com juros). Uma consequ&#234;ncia &#243;bvia &#233; que ricos ficam mais ricos. Al&#233;m disso, esse sistema tende a degenerar as condi&#231;&#245;es do meio ambiente, de pessoas assalariadas, a extinguir terras e culturas nativas, a privatizar bens p&#250;blicos como sa&#250;de e transporte, e a dominar a m&#237;dia, Justi&#231;a e pol&#237;tica em prol de seus interesses.</p><p>Outra caracter&#237;stica decisiva, que eu acrescentaria, &#233; que esse sistema, apesar de tudo isso, consegue criar e manter a ilus&#227;o de que &#233; ben&#233;fico. Os cr&#237;ticos seriam todos "socialistas", e n&#227;o seria preciso dar ouvido a eles porque "al&#233;m de o socialismo ser um projeto falido, o capitalismo obviamente traz mais bem-estar".</p><p>N&#227;o sou socialista de modo nenhum. Mas ao escrever isso serei visto assim por quem defende a atual situa&#231;&#227;o. Essa &#233; uma das vit&#243;rias do capitalismo. Ele n&#227;o aceita cr&#237;ticas e as neutraliza automaticamente.</p><p>&#201; muito difundida a ideia de que o capitalismo &#233; o melhor sistema econ&#244;mico, ou o que mais deu certo. Na verdade, &#233; dif&#237;cil sustentar essa opini&#227;o com fatos. Levando em conta o &#237;ndice de bem-estar das pessoas &#8212; e diversos fatores como educa&#231;&#227;o, emprego, liberdade, lazer, coes&#227;o social etc &#8212; o sistema pol&#237;tico-econ&#244;mico campe&#227;o na hist&#243;ria recente &#233; o dos <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Modelo_n%C3%B3rdico">pa&#237;ses n&#243;rdicos</a>, baseado em <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Social-democracia">social-democracia</a> (considerando apenas os dados dispon&#237;veis, j&#225; que n&#227;o h&#225; estat&#237;sticas do tipo sobre sociedades ancestrais igualit&#225;rias, ou zonas aut&#244;nomas temporariamente liberadas).</p><p>Mas esses pa&#237;ses n&#227;o s&#227;o capitalistas? Sim e n&#227;o. N&#227;o vou entrar nesse complexo tema, mas basicamente a social-democracia defende princ&#237;pios socialistas operando em uma sociedade democr&#225;tica de economia capitalista, para uma transi&#231;&#227;o gradual e pac&#237;fica rumo &#224; utopia igualit&#225;ria (para quem quiser se aprofundar no tema, sugiro o livro <em><a href="https://www.cambridge.org/br/academic/subjects/politics-international-relations/comparative-politics/primacy-politics-social-democracy-and-making-europes-twentieth-century">The Primacy of Politics</a></em>, de Sheri Berman).</p><p>Novamente, n&#227;o estou defendendo a social-democracia como o sistema ideal, esses pa&#237;ses tamb&#233;m tem muitos problemas. Como j&#225; <a href="https://circular.emer.email/p/talvez-voce-seja-anarquista-e-nao">escrevi antes</a>, eu acredito na auto-organiza&#231;&#227;o anarquista como sociedade ideal. No entanto, governos social-democratas s&#227;o um ambiente muito mais prop&#237;cio para o florescimento e desenvolvimento desse ideal do que o capitalismo neoliberalista.</p><h2>Fundamentalismo</h2><p>Um pilar central do atual dogma &#233; a fabrica&#231;&#227;o e manuten&#231;&#227;o constante desses mitos em torno do capitalismo e neoliberalismo.</p><p>"Neoliberalismo" &#233; outra palavra que paira no ar como algo onipresente. Sua forma tamb&#233;m &#233; muito dif&#237;cil de reconhecer com precis&#227;o. Essa pr&#243;pria palavra &#233; um obst&#225;culo para a compreens&#227;o da realidade atual. Tanto que alguns autores est&#227;o usando no lugar dela o termo "fundamentalismo de mercado".</p><p>Uma dessas autoras &#233; a historiadora estadunidense Naomi Oreskes. Um livro dela bem influente &#233; <em>Merchants of Doubt</em> (h&#225; uma <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Merchants_of_Doubt_(film)">vers&#227;o em document&#225;rio</a>), sobre como a mesma t&#225;tica de desinforma&#231;&#227;o usada pela ind&#250;stria do tabaco para confundir a opini&#227;o p&#250;blica sobre os malef&#237;cios do cigarro (com estudos cient&#237;ficos comprados) foi usada pelas corpora&#231;&#245;es de petr&#243;leo, para plantar d&#250;vidas sobre a realidade das mudan&#231;as clim&#225;ticas provocadas por combust&#237;veis f&#243;sseis.</p><p>Seu livro mais recente, que foi pesquisado durante uma d&#233;cada, <em><a href="https://www.bloomsbury.com/uk/big-myth-9781635573589/">The Big Myth &#8212; How American Business Taught Us to Loathe Government and Love the Free Market</a></em>, &#233; exatamente sobre como a doutrina do fundamentalismo de mercado foi sendo constru&#237;da e empurrada goela abaixo da opini&#227;o p&#250;blica, com campanhas de manipula&#231;&#227;o e desinforma&#231;&#227;o, ao longo de mais de um s&#233;culo. Foi um trabalho t&#227;o longo e eficaz que, hoje, muita gente considera, por exemplo, os princ&#237;pios neoliberais como fatos econ&#244;micos, ao inv&#233;s de opini&#245;es pol&#237;ticas (que favorecem os favorecidos).</p><p>Um dos princ&#237;pios b&#225;sicos dessa doutrina &#233; a no&#231;&#227;o de que o "mercado" deve operar com liberdade total, e a interven&#231;&#227;o do governo precisa ser m&#237;nima ou at&#233; zero. Sempre ouvimos algu&#233;m comentando sobre a "burocracia estatal corrupta", "tem que privatizar" etc. &#201; bem poss&#237;vel at&#233; que concordemos, sem imaginar que a difus&#227;o dessas ideias podem ser tra&#231;adas com precis&#227;o at&#233; as campanhas financiadas pelas corpora&#231;&#245;es interessadas em menos impostos e regula&#231;&#245;es trabalhistas ou sociais.</p><p>N&#227;o &#233; uma quest&#227;o de negar a corrup&#231;&#227;o em governos ou seus obst&#225;culos burocr&#225;ticos. Mas, por exemplo, voltando ao exemplo dos pa&#237;ses n&#243;rdicos, n&#227;o &#233; por acaso que eles tamb&#233;m s&#227;o campe&#245;es em interven&#231;&#227;o estatal e arrecada&#231;&#227;o de impostos.</p><p>"Fundamentalismo de mercado" &#233; um termo preciso porque fundamentalismo &#233; exatamente isso: a nega&#231;&#227;o completa dos fatos que contrariam sua opini&#227;o, junto com uma ferrenha fixa&#231;&#227;o em um dogma. As falhas flagrantes desse sistema s&#227;o tratadas como se n&#227;o existissem, assim como outras op&#231;&#245;es que j&#225; se provaram eficazes.</p><p>Um trecho do livro de Naomi:</p><blockquote><p>Intencionalmente ou n&#227;o, fundamentalistas do mercado se tornam defensores dos interesses das pessoas que t&#234;m mais dinheiro. Em uma economia de mercado, &#233; o dinheiro que manda, e quanto mais dinheiro algu&#233;m tiver, mais mandar&#225;.</p></blockquote><h2>Liberal?</h2><p>Claro que neoliberais recha&#231;am essa caracteriza&#231;&#227;o como fundamentalistas. "Neoliberal" soa como algum tipo ex&#243;tico de pessoa, mas n&#227;o &#233; nada dif&#237;cil encontr&#225;-la. N&#227;o precisamos ir at&#233; a Faria Lima ou a bolsa de valores. Basta ler algum desses in&#250;meros editoriais pol&#237;tico-econ&#244;micos nos jornais ou ver o notici&#225;rio econ&#244;mico. Afinal, as empresas de m&#237;dia &#8212; como qualquer outra corpora&#231;&#227;o &#8212; defendem as pol&#237;ticas que v&#227;o benefici&#225;-las. E o p&#250;blico acaba convencido.</p><p>Os difusores desse fundamentalismo rejeitam at&#233; a palavra "neoliberal" como algo pejorativo, dizendo que essa doutrina n&#227;o teria nada de nova ("neo"), mas seria a mesma coisa que Adam Smith, o pai do liberalismo, defendia. Isso n&#227;o &#233; exato, j&#225; que Smith reconhecia a necessidade de regula&#231;&#245;es governamentais no caso de perigo ao bem p&#250;blico. No novo tipo de liberalismo que foi sendo moldado conforme a obsess&#227;o com lucros, a pr&#243;pria ideia de "responsabilidade social" passa a ser rejeitada, como proclamou Milton Friedman, um dos pais do neoliberalismo.</p><p>"Liberal" &#233; outra palavra que costuma provocar confus&#227;o. Afinal, algu&#233;m "liberal" defende a liberdade; como isso n&#227;o seria bom? Tamb&#233;m n&#227;o vou adentrar esse vasto tema, mas basicamente a liberdade referida a&#237; &#233; a econ&#244;mica, ou seja, a liberdade para propriet&#225;rios e suas empresas se autogerirem, sem a interfer&#234;ncia de regula&#231;&#245;es do governo, como leis trabalhistas, responsabilidade socioambiental etc.</p><p>&#201; poss&#237;vel que voc&#234; j&#225; tenha ouvido falar que essa liberdade econ&#244;mica &#233; sin&#244;nimo de liberdade pol&#237;tica, ou seja, defender a liberdade das empresas seria a mesma coisa que defender a liberdade individual ou pol&#237;tica.</p><p>Esse &#233; outro mito propagado no fundamentalismo de mercado. Outro pai do neoliberalismo, Friedrich Hayek, defendeu exatamente isso em seu cl&#225;ssico <em>O Caminho da Servid&#227;o</em>. Esse caminho do t&#237;tulo &#233; um hipot&#233;tico trajeto em que a interfer&#234;ncia do governo nas empresas necessariamente terminaria em ditaduras do tipo Uni&#227;o Sovi&#233;tica. Isso jamais foi provado. O contr&#225;rio &#233; que se mostrou verdadeiro: programas governamentais de bem-estar social n&#227;o levam a ditaduras, e podem ser bastante eficazes, n&#227;o apenas no exemplo dos pa&#237;ses n&#243;rdicos, mas tamb&#233;m na Europa p&#243;s-guerra em geral, no Canad&#225; e na Austr&#225;lia.</p><p>Bom, esse texto j&#225; ficou muito maior do que eu imaginava. Meu plano era s&#243; escrever sobre <em>The Big Myth</em>. Foi o melhor livro que j&#225; li sobre capitalismo e neoliberalismo. &#201; poss&#237;vel que se torne um cl&#225;ssico, j&#225; que detalha para o p&#250;blico n&#227;o especializado como se formou esse consenso fabricado para beneficiar grandes corpora&#231;&#245;es, que literalmente arru&#237;na tudo ao redor e hoje rege o mundo.</p><p>Tudo isso pode soar pol&#237;tico demais, mas penso que &#233; importante reconhecer como essa dimens&#227;o n&#227;o est&#225; nem um pouco separada de quest&#245;es consideradas espirituais ou &#233;ticas, mesmo em um n&#237;vel individual.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Natureza no Dharma]]></title><description><![CDATA[Segue um artigo que escrevi para a Bodisatva n&#186; 34.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/natureza-no-dharma</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/natureza-no-dharma</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Apr 2023 20:32:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Segue um artigo que escrevi para a Bodisatva n&#186; 34. Como sempre, a revista budista (e de espiritualidade em geral) est&#225; linda, ainda mais com um tema t&#227;o importante. Coisa para guardar como um livro.  &#8594; <a href="http://www.bodisatva.org/">Encomende no site</a>.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp" width="355" height="489" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/eeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:489,&quot;width&quot;:355,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:67424,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!RdX-!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feeba55c9-102f-4773-ba7e-09ada343fbe8_355x489.webp 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div><hr></div><p>Como o cuidado com o meio ambiente &#233; uma consequ&#234;ncia natural do Buda Dharma, &#233; dif&#237;cil encontrar algum praticante que desconsidere essa quest&#227;o. No entanto, essa conex&#227;o pode ser muito mais profunda do que uma mera aprecia&#231;&#227;o, se desdobrando em benef&#237;cios tanto individuais quanto coletivos.</p><p>Pessoalmente, comecei a me envolver mais profundamente com o budismo e com o que chamamos de &#8220;natureza&#8221; (n&#227;o &#233; estranho que usemos essa palavra assim, como se fosse algo l&#225; fora?) simultaneamente, quando iniciei a pr&#225;tica formal do budismo tibetano e tamb&#233;m me dei conta da gravidade extrema de nossa crise ambiental, h&#225; 16 anos. Isso coincidiu tamb&#233;m com o momento em que passei de agn&#243;stico (ou quase ateu) para &#8220;crente&#8221;, no sentido de que reconheci como crucial a dimens&#227;o mais espiritual da vida &#8212; aquela que se contrap&#245;e aos objetivos materiais mais imediatos e ego&#237;stas.</p><p>N&#227;o sei dizer se o gatilho foi a natureza ou a espiritualidade. Vieram juntas, basicamente, ap&#243;s um tipo de abertura ou melhor entendimento e vis&#227;o. Desde a adolesc&#234;ncia, sentia uma atra&#231;&#227;o por isso, um chamado, mas ia negligenciando, at&#233; que n&#227;o foi mais poss&#237;vel. Ent&#227;o, decidi me dedicar ao caminho espiritual com o qual me identificava &#8212; at&#233; ent&#227;o, apenas como filosofia &#8211; j&#225; h&#225; muitos anos: o budismo.</p><p>Para mim, a pr&#225;tica do Dharma sempre proporcionou diversos insights sobre a realidade mais profunda da vida ou natureza, e a contempla&#231;&#227;o do esplendor natural tamb&#233;m enriqueceu muito o cultivo da vis&#227;o budista, j&#225; que esses dois contextos implicam uma vis&#227;o interconectada, sem separa&#231;&#245;es naquilo que chamamos de realidade.</p><p>Por exemplo, visualizar a interdepend&#234;ncia que sustenta ecossistemas pode expandir bastante a pr&#225;tica de incorporarmos a vis&#227;o budista no dia-a-dia. Podemos estudar, refletir e meditar sobre os ensinamentos sobre interdepend&#234;ncia e vacuidade, mas n&#227;o &#233; incomum esse entendimento se tornar algo &#225;rido, que n&#227;o se reflete no modo como vivemos e interagimos com outras pessoas ou formas de vida.</p><p>Mas vivenciar essa realidade diretamente, mesmo por um curto per&#237;odo &#8212; por exemplo em contato &#237;ntimo e completamente dependente de elementos naturais &#8212; costuma trazer uma compreens&#227;o mais v&#237;vida e direta sobre esta teia interligada de fen&#244;menos, tendo consequ&#234;ncias no modo como nos comportamos.</p><h3>Continuidade da vida</h3><p>Um exemplo a considerar: o plasma de nosso sangue &#233; salgado por causa do mar, a origem da biosfera terrestre. Assim, o mar pulsa e flui em nosso corpo da mesma forma como sua &#225;gua salgada constituiu a subst&#226;ncia dos primeiros organismos vivos, que dispararam um processo de divis&#227;o celular que, por 3,5 bilh&#245;es de anos, nunca foi interrompido, e que bem aqui e agora pode se desdobrar em pensamentos, palavras e frases.</p><p>Ou ent&#227;o, bem &#224; nossa frente, h&#225; todo esse mundo multicolorido, que s&#243; pode aparecer assim devido &#224; evolu&#231;&#227;o combinada de &#225;rvores e os animais que vivem de seus frutos, pois a percep&#231;&#227;o das cores das frutas, em contraste com o fundo verde, foi uma das vantagens evolutivas que herdamos de outros seres, e que hoje permite ver como vemos.</p><p>Se n&#227;o somos donos de nossas faculdades de percep&#231;&#227;o, de nossa capacidade imaginativa ou da pr&#243;pria linguagem em que ela se expressa, se n&#227;o produzimos aquilo de que dependemos para viver &#8212; como ar, luz solar, &#225;gua, comida etc &#8212; cad&#234; a independ&#234;ncia de nossa identidade? Onde termina a fronteira que nos separaria de tudo mais? Um organismo assim dependente de tantos fatores tem exist&#234;ncia pr&#243;pria?</p><p>Contemplando assim nossa identidade natural maior, chegamos ao mesmo insight que Nagarjuna expressou, h&#225; muitos s&#233;culos, nos <em>Versos-raiz Madhyamaka</em>:</p><blockquote><p>&#8220;N&#227;o h&#225; nenhum fen&#244;meno que n&#227;o se origine dependentemente, <br>portanto, n&#227;o h&#225; nenhum fen&#244;meno que n&#227;o seja vazio.&#8221;</p></blockquote><p>J&#225; que n&#243;s mesmos somos uma express&#227;o interligada da vida, n&#227;o podemos dizer que temos independ&#234;ncia ou singularidade. Somos compostos de m&#250;ltiplos elementos, sobre os quais n&#227;o temos controle &#8212; basta um deles ser interrompido, como ar ou alimento, para deixarmos de existir. Tem sentido chamar de &#8220;eu&#8221; algo que se ramifica em depend&#234;ncias virtualmente infinitas em todas as dire&#231;&#245;es?</p><p>Aquilo que somos &#233; muito mais profundo e vasto do que imaginamos. N&#227;o &#233; por acaso que a principal escritura budista sobre a natureza buda seja chamada de <em>Sublime Cont&#237;nuo</em> (s&#226;nscrito: uttaratantra). No budismo Mahayana Yogatchara e no Vajrayana, a natureza buda &#233; esse cont&#237;nuo, onipresente, perfeito, jamais sendo interrompido. &#8220;Cont&#237;nuo&#8221; tamb&#233;m &#233; o significado de &#8220;tantra&#8221;, pois no Vajrayana, essa natureza &#233; o cora&#231;&#227;o da pr&#225;tica.</p><p>Fazendo um paralelo em contexto laico, essa continuidade &#233; a pr&#243;pria vida. E poderia ser dito que ela vai ainda al&#233;m. Quando &#8220;surgiu&#8221; a vida, como ocorreu a transi&#231;&#227;o de mat&#233;ria inanimada para org&#226;nica? Esse enigma parece insol&#250;vel porque implica uma transi&#231;&#227;o, ou ruptura de continuidade. Mas a mat&#233;ria &#8220;inanimada&#8221; tem aspectos de auto-organiza&#231;&#227;o como os que definem a vida. Por exemplo, elementos dentro de um el&#233;tron reagem conforme est&#237;mulos exteriores. Isso poderia ser interpretado como uma forma extremamente b&#225;sica de cogni&#231;&#227;o, ou seja, a capacidade de &#8220;sentir&#8221; o exterior (se algo reage ou sente um outro elemento, ele se torna o sujeito de uma experi&#234;ncia), conforme uma das correntes da tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica do pampsiquismo &#8212; que inclui luminares como Plat&#227;o, Spinoza e Bertrand Russel.</p><p>Assim, a vida seria uma forma mais complexa da auto-organiza&#231;&#227;o &#8220;cognitiva&#8221; onipresente na mat&#233;ria. A&#237;, n&#227;o h&#225; quebra de continuidade e, no final, o que somos &#233; uma express&#227;o da pr&#243;pria totalidade da realidade ou exist&#234;ncia, em continuidade insepar&#225;vel.</p><p>A contempla&#231;&#227;o desse tipo de interdepend&#234;ncia natural pode enriquecer a pr&#225;tica do Dharma, pois sua mensagem b&#225;sica tamb&#233;m &#233; que h&#225; uma realidade maior e perfeita, onde a exist&#234;ncia individual &#233; relativa.</p><h3>Espiritualidade na crise</h3><p>Hoje, tragicamente, n&#227;o &#233; preciso fazer muito esfor&#231;o para reconhecer nossa identidade maior. Ela est&#225; batendo &#224; nossa porta, na forma de eventos clim&#225;ticos extremos, da contamina&#231;&#227;o daquilo que ingerimos ou respiramos, da morte dos ecossistemas que dependemos para existir etc. A destrui&#231;&#227;o da natureza &#233; a nossa pr&#243;pria.</p><p>No entanto, ao reconhecer isso e nos abrir para &#8220;a natureza chorando dentro de n&#243;s&#8221; &#8212; como dizia o mestre Thich Nhat Hanh &#8212; tamb&#233;m surge uma reconex&#227;o valiosa. Esta pr&#243;pria crise &#233; um chamado de despertar individual e coletivo. O reconhecimento agudo da doen&#231;a de nossa rela&#231;&#227;o destrutiva com o mundo natural, que chega a romper as barreiras que erguemos em torno de n&#243;s, tamb&#233;m traz uma abertura de esp&#237;rito revigorante.</p><p>Do mesmo modo como o mutualismo e depend&#234;ncia observados na natureza podem informar a contempla&#231;&#227;o da vacuidade, o mesmo vale para a compaix&#227;o. Termos a capacidade de reconhecer nossa identidade maior na biosfera do planeta ativa uma aprecia&#231;&#227;o intensa e um cuidado espont&#226;neo, sem esfor&#231;o; como dizia Shantideva h&#225; mais de 1.200 anos, em <em>Engajamento na A&#231;&#227;o Bodisatva</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Assim como aceitamos que as m&#227;os <br>e outras partes s&#227;o membros do corpo, <br>por que n&#227;o aceitar que os seres <br>s&#227;o membros do mundo vivo?</p><p>Assim como a habitua&#231;&#227;o trouxe a ideia <br>de que sou este corpo sem eu, por que <br>&#8212; com o h&#225;bito &#8212; n&#227;o surgiria a ideia <br>de que sou os outros seres sencientes?&#8221;</p></blockquote><p>&#201; essa pr&#243;pria compaix&#227;o que repousa na ess&#234;ncia da realiza&#231;&#227;o da qualidade vazia da individualidade dos fen&#244;menos, incluindo a n&#243;s. Ao realizar que n&#227;o existimos da forma como imagin&#225;vamos &#8212; como seres aut&#244;nomos, independentes, singulares e (relativamente) permanentes &#8212; ainda h&#225; o &#8220;sublime cont&#237;nuo&#8221; de uma natureza perfeita, e nada mais. Assim, ao olhar outros seres, podemos trazer esse entendimento, nem que seja apenas conceitual. Somos todas e todos meras express&#245;es dessa natureza. Vale a pena cultivar alguma coisa que n&#227;o seja uma devo&#231;&#227;o infinita, um amor extremamente cuidadoso?</p><p>Assim, o urgente trabalho de regenera&#231;&#227;o de nossa exist&#234;ncia como pessoas e sociedades pode surgir como uma express&#227;o natural de nossa ess&#234;ncia verdadeira, da mesma maneira como &#224;s vezes ajudamos quem precisa, de modo completamente desinibido e natural, sem esperar nada, apenas dando livre passagem para a atividade da mente do despertar (boditchita). Como diz Shantideva, novamente:</p><blockquote><p>&#8220;Do mesmo modo que, em meio &#224;s nuvens escuras da noite, <br>um rel&#226;mpago por um instante torna tudo claramente vis&#237;vel,<br>pelo poder dos budas, em circunst&#226;ncias raras,<br>inten&#231;&#245;es merit&#243;rias &#224;s vezes surgem no mundo.&#8221;</p></blockquote><p>Devido &#224; gravidade da situa&#231;&#227;o onde chegamos, a regenera&#231;&#227;o necess&#225;ria n&#227;o se refere mais a simplesmente mudan&#231;as individuais de h&#225;bitos. Precisaremos nos unir como sociedade e exigir as medidas governamentais e corporativas que podem mitigar a destrui&#231;&#227;o ainda maior que se encaminha. Como praticantes do Dharma podemos tamb&#233;m demonstrar o que &#233; viver e agir de acordo com os valores necess&#225;rios &#8212; como sabedoria e compaix&#227;o &#8212; para nos curarmos, alinhando-nos com a sabedoria maior da pr&#243;pria vida ou realidade.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A máquina do fim do mundo na Amazônia]]></title><description><![CDATA[Em 2022, a Amaz&#244;nia foi devastada a um ritmo de tr&#234;s mil campos de futebol por dia (ou um campo a cada 30 segundos), um recorde em 15 anos.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/a-maquina-do-fim-do-mundo-na-amazonia</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/a-maquina-do-fim-do-mundo-na-amazonia</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Thu, 19 Jan 2023 12:57:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3deF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1d44bb6-7e74-442a-a93a-ad99cecb3cc3_800x534.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3deF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1d44bb6-7e74-442a-a93a-ad99cecb3cc3_800x534.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3deF!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1d44bb6-7e74-442a-a93a-ad99cecb3cc3_800x534.webp 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Greg Asner/<a href="https://www.wired.co.uk/gallery/logging-the-amazon-gallery">Wired</a>.</figcaption></figure></div><p>Em 2022, a Amaz&#244;nia foi devastada a um ritmo de <a href="https://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/amazonia-perdeu-quase-tres-mil-campos-de-futebol-por-dia-em-2022-diz-imazon/">tr&#234;s mil campos de futebol por dia</a> (ou um campo a cada 30 segundos), um recorde em 15 anos. </p><p>Para traduzir melhor estat&#237;sticas como essa, o pesquisador Antonio Nobre evoca a imagem de uma &#8220;m&#225;quina do fim do mundo&#8221;, em rela&#231;&#227;o &#224; morte de 22% (763 mil km&#178;, ou duas alemanhas) da floresta entre 1970 e 2013:</p><blockquote><p>&#201; preciso imaginar um trator com uma l&#226;mina de 3 metros de comprimento, evoluindo a 756 km/h durante quarenta anos sem interrup&#231;&#227;o: uma esp&#233;cie de m&#225;quina de fim do mundo. Segundo o conjunto das estimativas, isso representa 42 bilh&#245;es de &#225;rvores destru&#237;das, isto &#233;, duas mil &#225;rvores derrubadas por minuto ou 3 milh&#245;es por dia. &#201; uma cifra dif&#237;cil de imaginar por sua monstruosidade. E aqui falamos apenas de corte raso<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.</p></blockquote><p>Para exemplificar apenas uma entre as m&#250;ltiplas consequ&#234;ncias &#8212; seca e mudan&#231;as clim&#225;ticas devido &#224; altera&#231;&#227;o nas chuvas &#8212;, em m&#233;dia, cada &#225;rvore da Amaz&#244;nia evapora 300 litros de &#225;gua na atmosfera. O total desses &#8220;rios voadores&#8221; supera o que todos os rios da Amaz&#244;nia despejam no mar diariamente.</p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp" width="984" height="655" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:655,&quot;width&quot;:984,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:130822,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/webp&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aJ5X!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e7fc935-33cb-414f-a33c-e361d7058baf_984x655.webp 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><h3>P&#233; no ch&#227;o</h3><p>Tamb&#233;m tenho otimismo com o novo governo, mas lembrando como o PT lidou com a Amaz&#244;nia, apesar de progressos reais, n&#227;o h&#225; tanto motivo assim para isso.</p><p>Uma boa reportagem de arquivo para relembrar um projeto monstruoso: <a href="https://amazoniareal.com.br/o-rastro-de-destruicao-de-belo-monte/">O rastro de destrui&#231;&#227;o de Belo Monte</a>. E <a href="https://amazoniareal.com.br/?s=belo+monte">muitas outras</a>.</p><p>H&#225; um mito sobre hidrel&#233;tricas serem fontes de energia limpa. Entre diversas outros dist&#250;rbios, suas emiss&#245;es de gases do efeito estufa s&#227;o maiores do que dos outros tipos de usinas juntas, segundo <a href="https://www2.ufjf.br/noticias/2016/01/28/hidreletricas-na-amazonia-podem-emitir-mais-gases-de-efeito-estufa-que-usinas-a-carvao-oleo-e-gas/">alguns estudos</a>. Emiss&#245;es globais de metano por hidrel&#233;tricas <a href="https://www.theguardian.com/sustainable-business/2016/nov/06/hydropower-hydroelectricity-methane-clean-climate-change-study">equivalem ao que o Canad&#225; emite desse g&#225;s</a>, mas isso geralmente n&#227;o &#233; levado em considera&#231;&#227;o por &#243;rg&#227;os como o IPCC (ONU), que trabalha com proje&#231;&#245;es &#8220;conservadoras&#8221;.</p><div><hr></div><h3>Outros links</h3><ul><li><p><a href="https://gamarevista.uol.com.br/colunistas/luara-calvi-anic-colunistas/o-silenciamento-dos-passaros/">O sil&#234;ncio dos p&#225;ssaros</a> &#173;&#8212; Devido ao decl&#237;nio da popula&#231;&#227;o e de n&#227;o haver com quem &#8220;conversar&#8221;, aves est&#227;o desaprendendo a cantar.</p></li><li><p><a href="https://archive.ph/Q4UBE">Um idioma em risco de extin&#231;&#227;o: conhe&#231;a o &#250;ltimo ind&#237;gena a falar a l&#237;ngua guat&#243;</a></p></li><li><p><a href="https://sumauma.com/dez-filmes-para-entender-amazonia/">Dez filmes para (come&#231;ar a) entender a Amaz&#244;nia</a> </p></li><li><p><a href="https://sumauma.com/a-menor-maior-livraria-do-mundo/">Dez livros para (come&#231;ar a) conhecer a Amaz&#244;nia</a></p></li><li><p><a href="https://sumauma.com/escute-os-nao-humanes-lula/">Lula, escute as pessoas n&#227;o humanes</a></p></li></ul><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Citado por Luiz Marques, em <em><a href="https://editoraunicamp.com.br/catalogo/?id=1197">Capitalismo e colapso ambiental</a></em> (2019). O desmatamente via corte raso exclui o corte seletivo, em que a degrada&#231;&#227;o ocorre pela retirada de &#225;rvores escolhidas (como as de mogno, j&#225; pr&#243;ximas da extin&#231;&#227;o). H&#225; <a href="https://brasil.mongabay.com/2020/10/degradacao-supera-desmatamento-na-amazonia/">estudos</a> apontando que a &#225;rea degradada &#8212; que parece floresta amaz&#244;nica, mas j&#225; n&#227;o se comporta como &#8212; por corte seletivo e queimadas soma 10% da Amaz&#244;nia.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[História do plástico]]></title><description><![CDATA[Toda crian&#231;a deveria visitar um matadouro.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/historia-do-plastico</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/historia-do-plastico</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Wed, 18 Jan 2023 01:41:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WFIG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0100f069-349d-4542-baa8-f1494d2e4bf7_500x697.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WFIG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0100f069-349d-4542-baa8-f1494d2e4bf7_500x697.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WFIG!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0100f069-349d-4542-baa8-f1494d2e4bf7_500x697.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WFIG!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0100f069-349d-4542-baa8-f1494d2e4bf7_500x697.webp 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><blockquote><p>Toda crian&#231;a deveria visitar um matadouro. O que podemos dizer sobre uma sociedade em que a cadeia da produ&#231;&#227;o de alimentos precisa ser escondida?<br><strong>George Monbiot</strong></p></blockquote><p>O trecho acima se aplicaria bem tamb&#233;m sobre o pl&#225;stico. O document&#225;rio <em>A Hist&#243;ria do Pl&#225;stico</em> (2019) exp&#245;e essa parte escondida da produ&#231;&#227;o desse elemento presente em praticamente tudo o que consumimos. Apesar da repugn&#226;ncia que pode despertar, ainda acho importante a lucidez sobre os elementos na base de nossas sociedades.</p><p>O filme foi produzido pelo time campe&#227;o do projeto <a href="https://www.storyofstuff.org/">Story of Stuff</a>. D&#225; para assistir (ou baixar) <a href="https://drive.google.com/file/d/1zz45RzKfg2b6LgbVrEgodwaGWAGUowPT/view?usp=sharing">neste link</a>.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Compaixão darwinista]]></title><description><![CDATA[Segue um trecho de A Descend&#234;ncia do Homem, de Charles Darwin, que me chamou aten&#231;&#227;o ao reler A Revolu&#231;&#227;o do Altru&#237;smo, de Matthieu Ricard.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/compaixao-darwinista</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/compaixao-darwinista</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 Dec 2022 15:59:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pDhz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53f9782a-eee4-4c76-b720-794e9dd22d0a_2100x1688.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pDhz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53f9782a-eee4-4c76-b720-794e9dd22d0a_2100x1688.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pDhz!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53f9782a-eee4-4c76-b720-794e9dd22d0a_2100x1688.webp 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pDhz!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53f9782a-eee4-4c76-b720-794e9dd22d0a_2100x1688.webp 848w, 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restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 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A experi&#234;ncia nos prova, infelizmente, quanto tempo &#233; preciso ainda para considerarmos como nossos semelhantes as pessoas que s&#227;o diferentes de n&#243;s por seu aspecto exterior e por seus costumes.</p><p>A simpatia estendida para fora dos limites da humanidade, isto &#233;, a compaix&#227;o para com os animais, parece ser uma das &#250;ltimas aquisi&#231;&#245;es morais. [...] Essa qualidade, uma das mais nobres das quais o ser humano &#233; dotado, parece derivar-se secundariamente da sensibilidade que nossas simpatias v&#227;o ganhando &#224; medida que v&#227;o se expandindo, terminando por se aplicar a todos os seres vivos. Essa virtude, honrada e praticada por algumas poucas pessoas, se dissemina atrav&#233;s da instru&#231;&#227;o e exemplo aos jovens e, eventualmente, se incorpora &#224; opini&#227;o p&#250;blica.</p></blockquote><p>Darwin acreditava inclusive na intelig&#234;ncia e sensibilidade das minhocas que observava em seu laborat&#243;rio. Se vivesse hoje, provavelmente defenderia tamb&#233;m a compaix&#227;o pelo mundo vegetal, j&#225; que nos &#250;ltimos anos foi consolidado o reconhecimento de intelig&#234;ncia e socializa&#231;&#227;o entre plantas &#8212; apesar de operarem em outra escala.</p><p>O curioso &#233; que a &#8220;lei do mais forte&#8221; predominante hoje costuma ser justificada em princ&#237;pios supostamente darwinistas, no que se convencionou chamar de &#8220;darwinismo social&#8221;. Esse &#233; um dos principais pretextos para toda essa explora&#231;&#227;o, domina&#231;&#227;o e destrui&#231;&#227;o que vemos.</p><p>O grande cientista deve estar se revirando na tumba.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Torrentes douradas por todo o céu]]></title><description><![CDATA[Uma das singelas can&#231;&#245;es-ora&#231;&#245;es (n&#186; 19) de um de meus livros prediletos de todos os tempos, Gitanjali, de Rabindranath Tagore:]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/torrentes-douradas-por-todo-o-ceu</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/torrentes-douradas-por-todo-o-ceu</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Dec 2022 18:25:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Wofp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20b49117-ab5c-4b92-94d9-103c4b364443_900x600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Wofp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20b49117-ab5c-4b92-94d9-103c4b364443_900x600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Wofp!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20b49117-ab5c-4b92-94d9-103c4b364443_900x600.jpeg 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sil&#234;ncio, e suport&#225;-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vig&#237;lia estrelada, com a cabe&#231;a pacientemente inclinada.</p><p>A manh&#227; certamente vir&#225;, a escurid&#227;o se dissipar&#225;, e tua voz se derramar&#225; em torrentes douradas por todo o c&#233;u.</p><p>Ent&#227;o tuas palavras ir&#227;o voar em can&#231;&#245;es de cada ninho de meus p&#225;ssaros, e tuas melodias brotar&#227;o em flores por todos os recantos de minha floresta.</p></div><p>Aproveitando, segue o link de um texto da Mariana Belmont, tamb&#233;m do Ecoa, sobre um encontro recente da iniciativa <a href="https://fenoclima.org.br/">F&#233; no Clima</a>, onde a conheci:</p><p><strong><a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/mariana-belmont/2022/12/09/o-orixa-e-natureza.htm">&#8594; O orix&#225; &#233; natureza</a></strong></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Seita do progresso]]></title><description><![CDATA[Artigo publicado originalmente no Ecoa UOL.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/seita-do-progresso</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/seita-do-progresso</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 05 Dec 2022 13:03:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6S_k!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6d85365f-5407-4ab6-89fd-78877bfa4fe7_1199x799.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Artigo publicado originalmente no <a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/mente-natural/">Ecoa UOL</a>.</em></p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6S_k!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6d85365f-5407-4ab6-89fd-78877bfa4fe7_1199x799.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6S_k!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6d85365f-5407-4ab6-89fd-78877bfa4fe7_1199x799.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6S_k!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6d85365f-5407-4ab6-89fd-78877bfa4fe7_1199x799.jpeg 848w, 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restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 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N&#227;o estava atr&#225;s necessariamente de insights sociopol&#237;ticos. Apenas gosto de fic&#231;&#227;o cient&#237;fica e, como li esse livro h&#225; algumas d&#233;cadas, sabia que reler seria melhor do que o primeiro contato.  </p><p>N&#227;o tive como deixar de pensar na "permacrise" que vivemos &#8212; essa foi a palavra do ano de 2022, escolhida pelo dicion&#225;rio ingl&#234;s Collins. Assim como o termo "permacovid", permacrise &#233; sobre um reconhecimento que se estabeleceu definitivamente: o normal agora &#233; um estado de crise. Ela n&#227;o s&#243; &#233; permanente, mas tamb&#233;m &#233; uma "policrise", englobando m&#250;ltiplos decl&#237;nios simult&#226;neos e interligados: colapso ambiental, guerra, protofascismo, epidemias, crise econ&#244;mica, racismos e supremacismos variados, neoliberalismo predat&#243;rio etc.  </p><p>No pesadelo imaginado por Orwell, uma das maneiras de assegurar o controle e impedir a revolta &#233; a constante e massiva dissemina&#231;&#227;o de mentiras. N&#227;o &#233; exatamente o que chamamos hoje de "fake news", mas seu objetivo &#233; o mesmo: controlar e direcionar a sociedade.  </p><p>Em "1984", isso vem na forma de not&#237;cias incessantes sobre o &#243;timo desempenho econ&#244;mico do governo: "A produ&#231;&#227;o nunca foi t&#227;o alta. O pa&#237;s experimenta cont&#237;nuos recordes de avan&#231;os e prosperidade". As pessoas festejam e comemoram, mesmo vivendo em abjeta escassez e austeridade.  </p><p>Hoje n&#227;o vemos assim not&#237;cias explicitamente falsas sobre nosso "progresso". Mas a hist&#243;ria nas entrelinhas com que somos bombardeados &#233; basicamente a mesma: a vit&#243;ria da civiliza&#231;&#227;o moderna. "Nunca fomos t&#227;o pr&#243;speros, saud&#225;veis e felizes. Se h&#225; dificuldades, elas podem ser superadas com esfor&#231;o em dire&#231;&#227;o &#224; acumula&#231;&#227;o de bens. N&#227;o &#233; isso que fizeram as pessoas ricas e poderosas? Ent&#227;o a quem devemos esse sucesso? Ao mercado, suas corpora&#231;&#245;es e os governos que o defendem. Devemos admirar os bilion&#225;rios, personifica&#231;&#245;es sublimes dessa grande bonan&#231;a."  </p><p>A necessidade de afirmar isso aparece com frequ&#234;ncia nas narrativas que contamos a n&#243;s mesmos sobre a hist&#243;ria da humanidade, da economia ou da civiliza&#231;&#227;o como um todo.  </p><p>No pesadelo imaginado por Orwell, tamb&#233;m &#233; essencial redirecionar a raiva e frustra&#231;&#227;o para um suposto inimigo da sociedade. A m&#237;dia controlada abunda com not&#237;cias de revolucion&#225;rios subversivos sendo esmagados e humilhados, suas derrotas sendo mais comemoradas do que gols na Copa do Mundo; mas o l&#237;der amea&#231;ador continua sempre ali &#224; espreita, imortal como um tipo de Satan&#225;s pol&#237;tico.  </p><p>&#201; muito parecido com algo que j&#225; nos acostumamos. Historicamente, uma das caracter&#237;sticas que definem movimentos fascistas e similares &#233; essa insistente canaliza&#231;&#227;o da raiva em dire&#231;&#227;o a inimigos fabricados. "Os culpados s&#227;o essas pessoas que degeneram nossos valores: as feministas, gays, imigrantes, ativistas de direitos humanos, drogados..."  </p><p>Nessa narrativa, a fonte do problema n&#227;o &#233; o atual sistema pol&#237;tico-econ&#244;mico que busca dar cada vez mais privil&#233;gios aos privilegiados, retirando da popula&#231;&#227;o em geral. "Ent&#227;o a culpa da pobreza, da mis&#233;ria, da fal&#234;ncia da sa&#250;de e educa&#231;&#227;o, ou basicamente de tudo que te enraivece &#233; ... (dependendo do contexto, pode ser colocado aqui: comunismo, globalismo, pessoas de outra etnia, cultura ou orienta&#231;&#227;o sexual, vacinas etc)."  </p><p>&#201; algo que parece uma seita.  </p><p>Talvez n&#227;o seja coincid&#234;ncia que hist&#243;rias sobre seitas parecem estar chamando mais aten&#231;&#227;o. H&#225; comunidades inteiras que caem sob a hipnose desse ou daquele charlat&#227;o, pessoas esperando salva&#231;&#227;o por extraterrestres, fanatismos religiosos que decaem na viol&#234;ncia, lavagem cerebral, abusos; ou mesmo movimentos pol&#237;ticos extremistas.  </p><p>&#201; f&#225;cil olhar isso de fora e imaginar que essas v&#237;timas seriam pessoas "anormais" ou desequilibradas. Mas um aspecto surpreendente mostrado, por exemplo, nos document&#225;rios sobre esse fen&#244;meno &#233; que n&#227;o, n&#227;o s&#227;o pessoas essencialmente diferentes de n&#243;s, da "normalidade" que imaginamos possuir.  </p><p>Parece que estamos mais vulner&#225;veis e manipul&#225;veis em rela&#231;&#227;o &#224; essa din&#226;mica de seita. Um  <a href="https://www.resilience.org/stories/2022-10-05/the-cult-of-civilization/">artigo provocador que li</a> sugere que o atual culto ao progresso, dominante em nossas sociedades, segue a l&#243;gica de uma mega-seita. Por exemplo, &#233; praticamente imposs&#237;vel convencer algu&#233;m dentro de uma seita de que suas cren&#231;as e valores se baseiam em enganos.  </p><p>Essa resist&#234;ncia tamb&#233;m vem do consenso entre as pessoas ali dentro, que &#233; algo al&#233;m de uma simples ideia, mas tamb&#233;m uma realidade social, algo que traz um senso de uni&#227;o em torno de um suposto bem.  </p><p>D&#225; para observar esse tipo de mentalidade no atual "culto ao progresso" de nossa civiliza&#231;&#227;o, que costuma envolver elementos extras, como cren&#231;a na supremacia humana em rela&#231;&#227;o a todas as formas de vida, no culto a produtos tecnol&#243;gicos, na mercantiliza&#231;&#227;o de tudo e, em muitos casos, at&#233; no ego&#237;smo como um valor louv&#225;vel (afinal, ego&#237;smo &#233; o oposto de solidariedade). </p><p>Eu mesmo n&#227;o me considero totalmente fora dessa "seita", j&#225; que atrav&#233;s dos produtos que consumo e at&#233; de certa ina&#231;&#227;o, valido e contribuo dando continuidade &#8212; mesmo que m&#237;nima &#8212; a esta situa&#231;&#227;o. Mas se dermos um passo para tr&#225;s e examinarmos os valores e ideias sob as quais estamos operando, &#233; poss&#237;vel chegar &#224; conclus&#227;o que isso &#233; t&#227;o insano quanto a lavagem cerebral de algumas seitas.  </p><p>Olhar com lucidez e clareza a situa&#231;&#227;o onde nos encontramos &#233; um primeiro passo para a mudan&#231;a genu&#237;na. Do contr&#225;rio, corremos o risco de ficar apenas decorando as paredes de uma pris&#227;o.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nosso Planeta, Nosso Legado]]></title><description><![CDATA[Uma dica de document&#225;rio imperd&#237;vel: Nosso Planeta, Nosso Legado (2021) do consagrado documentarista da natureza Yann Arthus-Bertrand, famoso por outra obra na mesma linha, o j&#225; cl&#225;ssico Home (2009) .]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/nosso-planeta-nosso-legado</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/nosso-planeta-nosso-legado</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 21 Nov 2022 14:35:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/youtube/w_728,c_limit/Wt7onFBQDbo" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div id="youtube2-Wt7onFBQDbo" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;Wt7onFBQDbo&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/Wt7onFBQDbo?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>Uma dica de document&#225;rio imperd&#237;vel: <em>Nosso Planeta, Nosso Legado</em> (2021) do consagrado documentarista da natureza Yann Arthus-Bertrand, famoso por outra obra na mesma linha, o j&#225; cl&#225;ssico <em>Home</em> (2009) .</p><p>Mais de dez anos depois de <em>Home</em>, Yann volta ao tema da complexa rela&#231;&#227;o de humanos com a natureza, recontando com suas insuper&#225;veis imagens a&#233;reas a hist&#243;ria natural da humanidade, com toques autobiogr&#225;ficos, e fazendo um balan&#231;o da ina&#231;&#227;o diante dos cada vez mais urgentes alertas cient&#237;ficos sobre nosso colapso.</p><p>Como em <em>Home</em>, o pungente esplendor natural, que adentra as fronteiras do sublime, se enla&#231;a com a realidade brutal da a&#231;&#227;o humana, combinando-se num irresist&#237;vel chamado para o despertar.</p><p>&#201; poss&#237;vel assistir <a href="https://drive.google.com/file/d/1-ELWaQChLJAuROZWWNdSP0MtvUf9XIFm/view">neste link</a>.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A existência tem um significado?]]></title><description><![CDATA[Coluna originalmente publicada no Ecoa UOL.]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/a-existencia-tem-um-significado</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/a-existencia-tem-um-significado</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Mon, 21 Nov 2022 13:53:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MPYm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F193e6eec-106a-4f8b-9726-0d4a8677f98e_4800x3200.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Coluna originalmente <a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/mente-natural/">publicada no Ecoa UOL</a>.</em></p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MPYm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F193e6eec-106a-4f8b-9726-0d4a8677f98e_4800x3200.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset image2-full-screen"><picture><source type="image/webp" 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restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 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Ou &#233; apenas aquele que tiramos dela, aquilo que interpretamos? </p><p>Eu acredito na primeira op&#231;&#227;o. </p><p>Ao olhar &#225;rvores e seres vivos, por exemplo, h&#225; essa for&#231;a em dire&#231;&#227;o ao florescimento, &#224; abund&#226;ncia interconectada e miraculosamente diversa, em uma exibi&#231;&#227;o em constante transforma&#231;&#227;o, em um tipo de transitoriedade infinita. Incluindo humanos.</p><p>Um livro &#243;timo que estou lendo que explora esse tema &#233; <a href="https://www.johnhuntpublishing.com/iff-books/our-books/more-than-allegory">"More Than Allegory"</a>, do fil&#243;sofo contempor&#226;neo Bernardo Kastrup. Seus livros realmente s&#227;o um achado precioso, girando em torno da filosofia idealista, com uma formula&#231;&#227;o moderna e extremamente convincente.</p><p>N&#227;o pretendo destrinchar esse vasto tema, apenas fazer um paralelo com o momento atual. Mas, explicando de modo simplista, o idealismo afirma que a natureza da realidade n&#227;o &#233; material e, sim, mental. </p><p>Essa &#233; uma vis&#227;o de mundo bastante antiga, defendida por diversos grandes fil&#243;sofos e at&#233; cientistas &#8212; como uma consequ&#234;ncia de experimentos qu&#226;nticos e tamb&#233;m da vis&#227;o da neuroci&#234;ncia. N&#227;o se trata de afirmar que o mundo &#233; um proje&#231;&#227;o da mente individual, mas sim que a "subst&#226;ncia" do universo que percebemos &#233; mental. Cada forma ou ser biol&#243;gico sendo a apar&#234;ncia de uma inst&#226;ncia dessa "grande mente".</p><p>Bernardo costuma apresentar diversos argumentos que refutam a no&#231;&#227;o materialista dominante. Mas esse n&#227;o &#233; ponto deste texto. O que posso dizer &#233; que acompanho esse tema h&#225; muitos anos e nunca tinha encontrado uma formula&#231;&#227;o t&#227;o consistente.</p><p>Isso tudo pode parecer bastante abstrato e sem rela&#231;&#227;o com o dia-a-dia, mas h&#225; sim impactos decisivos na vida. Essa vis&#227;o de mundo tem o poder de colorir todos os aspectos de nossa exist&#234;ncia. Por exemplo, sobre a quest&#227;o inicial deste texto: uma das caracter&#237;sticas que definem aquilo que &#233; mental &#233; a presen&#231;a de significado e prop&#243;sito.</p><p>Em rela&#231;&#227;o ao mundo natural, ele ent&#227;o n&#227;o seria composto de recursos aleat&#243;rios (ou inconscientes) a serem explorados, pois tem a mesma natureza que n&#243;s. Na verdade, n&#227;o seria preciso invocar o idealismo para chegar nisso, bastando o fato de que tamb&#233;m somos seres de um ecossistema.</p><p>Mas, se tudo tiver a mesma natureza mental, h&#225; um significado ou prop&#243;sito maior que n&#227;o estamos enxergando: a vida n&#227;o seria um conjunto de acasos, em que precisamos interpretar significados constru&#237;dos. A pr&#243;pria ideia de separa&#231;&#227;o &#8212; eu aqui, o resto ali &#8212; seria um tipo de ilus&#227;o de &#243;tica, j&#225; que todas as formas de vida seriam apenas express&#245;es ou apar&#234;ncias de uma "realidade mental mais ampla". Em vis&#245;es espirituais, como o budismo, essa realidade maior &#233; a base de onde surge o amor desinteressado, por exemplo.</p><p>Essa vis&#227;o penetrante acaba tamb&#233;m comprometendo o sentido predominante de acumula&#231;&#227;o e "progresso" material, &#224;s custas da explora&#231;&#227;o alheia, que norteia a economia nas sociedades.</p><p>A difus&#227;o em larga escala dessa vis&#227;o poderia ter reflexos muito ben&#233;ficos em nossa rela&#231;&#227;o com o mundo natural, entre outros; n&#227;o se restringindo &#224;s florestas, oceanos etc. Como a atual emerg&#234;ncia ambiental demonstra, o colapso ambiental &#233; o nosso pr&#243;prio.</p><p>Imagino que a import&#226;ncia de tal mudan&#231;a de paradigma n&#227;o deveria ser subestimada.</p><p>Pol&#237;ticos e corpora&#231;&#245;es v&#234;m e v&#227;o. Podemos apenas continuar oscilando entre governos mais destrutivos ou menos, num catastr&#243;fico rumo sem destino ou mal direcionado. Isso deve continuar enquanto a pol&#237;tica e economia, por exemplo, n&#227;o refletirem o cuidado com toda a vida, a partir de um reconhecimento profundo sobre o que ela &#233;.</p><p>Por exemplo, sinto-me bastante aliviado, mas ao mesmo tempo frustrado, com o novo governo brasileiro. Aliviado pois h&#225; um retorno para certa sanidade na &#225;rea socioambiental. Frustrado pois n&#227;o vejo indica&#231;&#245;es de uma mudan&#231;a realmente sist&#234;mica em dire&#231;&#227;o a uma grande transi&#231;&#227;o vi&#225;vel; ou ent&#227;o porque, nos &#250;ltimos anos, a maioria da preocupa&#231;&#227;o e luta teve que estar concentrada em simplesmente n&#227;o darmos continuidade a uma aberra&#231;&#227;o sociopol&#237;tica, sob o risco de n&#227;o haver chance de nenhuma outra mudan&#231;a significativa.</p><p>Infelizmente, a luta para impedir ressurgimentos protofascistas &#233; uma situa&#231;&#227;o n&#227;o apenas brasileira. E isso se soma a todas as outras crises interligadas.</p><p>Mas, como costuma ser dito sobre causas dif&#237;ceis, "esta &#233; uma luta para ser lutada e n&#227;o, necessariamente, vencida". Independentemente da grandeza do monstro a ser pacificado, e toda a complexidade nas ramifica&#231;&#245;es de seus tent&#225;culos, ainda sinto que vale a pena n&#227;o desistir da natureza maior em toda sua imensid&#227;o, essa realidade que nos trespassa, transcende e tamb&#233;m nos d&#225; nossa pr&#243;pria vida.</p><p>A grande ativista e pensadora Joanna Macy recentemente esteve em uma live (em que ajudei com uma participa&#231;&#227;o) com a comunidade brasileira de seu Trabalho Que Reconecta, para o lan&#231;amento de seu <a href="https://loja.bodisatva.com.br/nossa-vida-como-gaia">livro "Nossa Vida Como Gaia"</a>.</p><div class="instagram-embed-wrap" data-attrs="{&quot;instagram_id&quot;:&quot;CkZjsVlgQEB&quot;,&quot;title&quot;:&quot;A post shared by Trabalho Que Reconecta (@trabalhoquereconecta)&quot;,&quot;author_name&quot;:&quot;trabalhoquereconecta&quot;,&quot;thumbnail_url&quot;:&quot;https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/__ss-rehost__IG-CkZjsVlgQEB.jpg&quot;,&quot;like_count&quot;:null,&quot;comment_count&quot;:null,&quot;profile_pic_url&quot;:null,&quot;follower_count&quot;:null,&quot;timestamp&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true}" data-component-name="InstagramToDOM"></div><p>Uma frase sua que me marcou foi: "&#201; importante estarmos contentes de estar aqui." Aqui, neste momento t&#227;o dif&#237;cil de nossa coexist&#234;ncia neste planeta, porque essa dificuldade n&#227;o impede o reconhecimento de todo o esplendor imanente e transcendente de toda a vida ou exist&#234;ncia, o reconhecimento que possibilita as a&#231;&#245;es necess&#225;rias.</p><p>Como disse tamb&#233;m Eliane Brum em um <a href="https://theecologist.org/2022/nov/18/brazil-must-fight-forest">artigo na revista inglesa The Ecologist</a>:</p><blockquote><p>"Mas lutar, para mim, &#233; lutar como uma floresta. &#201; viver ferozmente, sendo encantada por cada peda&#231;o de vida, escancarando cada abertura que a vida traz."</p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Workshop de meditação no Rio de Janeiro]]></title><description><![CDATA[No fim de semana de 22 e 23 de outubro, vou dar esse workshop de medita&#231;&#227;o na KTC, no Rio de Janeiro:]]></description><link>https://newsl.emersom.xyz/p/workshop-de-meditacao-no-rio-de-janeiro</link><guid isPermaLink="false">https://newsl.emersom.xyz/p/workshop-de-meditacao-no-rio-de-janeiro</guid><dc:creator><![CDATA[Emersom Karma Kontchog]]></dc:creator><pubDate>Wed, 28 Sep 2022 22:59:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eOT3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ff93efc-00db-4276-852e-8b2e976f909f_1080x705.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No fim de semana de 22 e 23 de outubro, vou dar esse workshop de medita&#231;&#227;o na KTC, no Rio de Janeiro:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eOT3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ff93efc-00db-4276-852e-8b2e976f909f_1080x705.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eOT3!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ff93efc-00db-4276-852e-8b2e976f909f_1080x705.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eOT3!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ff93efc-00db-4276-852e-8b2e976f909f_1080x705.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eOT3!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ff93efc-00db-4276-852e-8b2e976f909f_1080x705.jpeg 1272w, 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restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 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